Cap 22 – E a Vida Prossegue por uma Viela de Decisões


No tempo aprazado, dirigiram-se entusiasmadas tia e sobrinha para o aeroporto, seria a primeira viagem de Júlia e estava eufórica, já mais desenvolta com a idade que lhe assistia, orgulhava Selma com seu espírito vivaz e arteiro.

Realizados todos os procedimentos para a introdução da menina no Colégio, despedidas feitas, retorna ao hotel com a intenção de arrumar as malas e retornar ao Brasil, à sua vida e ao seu trabalho, ao tentar organizar-se, senta pesadamente à cama num revival que a faz jogar-se ao leito, entregue ao cansaço dos anos que se passaram mais que da viagem com a sobrinha. Levanta-se, checa seus emails, dentre eles, um convite de Mme. Petra à uma mostra que faria dali a dois dias. Sabendo da viagem de Selma, queria que esta aproveitasse e esticasse pra presenciar algo que, estava certa, muito lhe satisfaria. Selma fugia da possibilidade de ver Tales, não queria correr o risco disso absolutamente. Descem-lhe lágrimas miúdas por fora, extensas por dentro, cheias de resignação. Inspira profundamente e diz pra si, silenciosa, em tom resolutivo: “Adeus Tales!” Sua alma sabia que ele já se decidira fazia tempo e ela não fora opção. Precisava tomar aquela decisão e parecia estar exatamente pronta, ali, àquela hora, ciente de que não havia espaço pra ela na vida dele, que não desobedeceria a mãe, que não despenderia qualquer energia pra ao menos, dizer-lhe qualquer coisa. Nunca atenderia seus telefonemas, nunca responderia seus emails, nunca cogitaria ver o mar com ela, nunca.

Dos  “Lieder”

Será verdade mesmo que partiste?

Que me deixaste desolado e triste,

sentindo revolver-se em meu ouvido

da tua voz gentil o som querido?

Como o viandante em vão devassa o espaço

com seu olhar suspenso, e ansioso, e lasso,

buscando o ser que a música lhe envia,

buscando ver cantando a cotovia,

o meu olhar te busca em toda parte

onde seja possível encontrar-te,

minhas canções te chamam e meus ais:

Volta, querida, e não te ausentes mais.

(Johann Wolfgang Goethe – Tradução de Ary de Mesquita)

Como se pudesse ouvi-lo a tentar lhe persuadir que resistisse à resolução que tomara, sai pra tomar um típico chocolate quente suíço, ignorando o fantasma, enquanto pensa se deve aceitar ou não o convite da marchand.

***

Sem nada confirmar, Selma chega fortuita à finissage organizada por Mme. Petra, segue pelo salão observando tudo com calma, admirando… Separados os artistas por temas, um lhe chama a atenção: In Memorian, o folder apresentativo resumia cada um e quanto a este, algo em francês que Selma entendeu como “um tributo a amores que se vão, mas marcam, inspiram e por isso mesmo nunca saem de nós”. Era dedicado a um dos patrocinadores daquele evento. O texto fez-lhe dar um sorriso de obviedade com sua vida, seguiu sem grande interesse, como uma transeunte qualquer. Ao chegar no espaço In Memorian, qual não foi sua surpresa ao ver, de cara, o seu primeiro quadro e depois dele, devidamente apresentados, os demais que não foram vendidos no vernissage brasileiro.

Estancou ali na frente daquele. O rosto de Tales, aquele sorriso, aquela época… quantas coisas tinham acontecido… como se achava madura naquele tempo e agora percebia que aprendera tanto nos últimos anos… aquele quadro dizia mais do que o amor que não a deixava, mas do qual se despedira:  trazia um filme sobre todas as emoções, descobertas, lágrimas… ali tudo estava:  o sumiço, o lírio, o silêncio, a fuga, ali diante dela. Inerte, absorvida,  perdeu a noção de tempo diante daquela peça quando foi surpreendida por um funcionário a lhe perguntar se podia ajudar, acompanhando-a pelas obras e ir lhe apresentando cada uma, falando um pouco de seus autores, etc. Concordou num gesto maquinal, sem querer sair dali, mas sabendo que devia seguir:  devia seguir não apenas no passeio, mas na vida.

O espaço reservado às suas obras concluía com uma tela inspirada na casa do tio que a fez sorrir com saudade, tentou tocar a peça ao que foi repreendida pelo funcionário que lhe dizia que não podia tocar as peças, pelo que eram – obras de arte –, além do fato que aqueles expostos ali, serem de uma artista brasileira, nova descoberta de Mme. Petra Marine, a famosa marchand-tableaux que estaria em minutos ali pra encerrar a mostra, que aquele quadro em particular – explicava, dono do mundo, ou ao menos, daquela degustação – homenageava um dos patrocinadores daquele evento, por isso o nome: In Memorian.  Discorreu um breve currículo da vida de Jorge de Araújo Correia Wanderley, “pernambucano radicado em São Paulo, Brasil”, frisou entusiasmado em francês pomposo o funcionário, que prosseguia:  “era tio da pintora-autora da obra”. Selma não aguentou e sorriu mais abertamente ante a surpresa e estupefação do rapaz, que ofendido, mirava-a deixando claro que esperava uma retratação. Selma pediu desculpas e perguntou o valor do primeiro quadro, gostaria de adquiri-lo, ao que ele, do alto do seu topete, disse que não era possível, a peça havia sido adquirida fazia tempos e estava ali apenas na qualidade de empréstimo e seu proprietário definitivamente não a negociaria! Selma espantou-se com a veemência do moço e sorriu mais uma vez, desculpando-se de novo.

– Diga a Mme. Petra que Selma Araújo esteve aqui mas não pode esperá-la. Au revouir!

Saiu deixando o francês boquiaberto e envergonhado por estar diante da própria pintora e ter sido… como diremos? Um típico francês.

Foi andando pelas ruas, sem destino, observando a cidade luz… nem por um momento notara o vulto que lhe observava durante todo o tempo em que esteve no salão sem o menor movimento ou intenção de aproximar-se dela, ainda que o franzir dos lábios, indicasse que havia a tentação de fazê-lo. Tales a viu ainda seguir pela rua, mas, mãos no sobretudo, baixou os olhos e entrou. Se dirigiu a um dos funcionários e disse que poderiam retirar “aquele” quadro da exposição e o acondicionassem devidamente pois ele viajaria muito.

Do Wilhelm Meister Lehrejahre

Só quem conhece a saudade

conhece o meu sofrimento !

No amargor da soledade,

eu fico a todo momento

olhando com olhar triste

o caminho que seguiste.

E penso: aquela que me ama

vagueia distante agora!…

E estranha candente chama

as entranhas me devora.

Só quem conhece a saudade

conhece a minha ansiedade.

(Johann Wolfgang Goethe – Traduçao de Ary de Mesquita)

 

 

 

 

FIM

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2 respostas para Cap 22 – E a Vida Prossegue por uma Viela de Decisões

  1. Geísa Marília disse:

    terminei o livro. Então…gosto de finais que “não acontecem”, que fogem do óbvio romântico. É uma história muito dinâmica, cheia de tramas e detalhes, de “amores covardes”, de impossibilidades tão possíveis! Amei as notas de rodapé, muito curiosas! Amei as participações especiais do Roupa, de Goethe, do Vinícius! Enfim…excelente! Valeu a pena a leitura. Eu compraria um livro seu

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    • Obrigada Ge! E quem diria… você, que sempre vi como uma romântica!!!rss Mas com um pé dentro do realismo… bj grande e obrigada pelo carinho e prestígio! Como assídua leitora, de obras de todos os gêneros, sua opinião conta muito pra mim!
      Carmen Gonçalves#

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