Cap 21 – Despedidas e Entendimentos


– Eu sinto muito, Selma!

– Me abrace. Senti sua falta! … Aliás, tudo que sinto agora é saudade…

Começou a chorar. Mme. Petra abraçou-a como a uma filha dileta, podia imaginar como a jovem não estaria se sentindo, sem o homem que amava e sem o único parente que havia lhe dado como que a oportunidade de se redimir com a paternidade.

– Não se preocupe com nada agora, sim? Respeite seu momento.

Foram interrompidas:

– Selma! Oh, minha querida…

Indisfarçável indiferença reteve as lágrimas silenciosas, mas caudalosas que vertiam da pintora.

– O que a senhora faz aqui?

Dona Mércia puxou-a pela mão, um toque nos ombros dado pela outra irmã Marine fez com que a moça deixasse-se levar a uma sala contígua.

-Pegue. Foi um dos últimos desejos do seu tio e como não sei se você ainda me dará a honra de falar com você… Selma! Selma, minha querida!

Tocou-lhe o rosto com olhos entristecidos de quem queria poder dizer coisas que não queria dizer. A divisão interna de D.Mércia era gritante:  tinha carinho pela moça, um carinho que a fazia sentir muito a dor que de certa forma estava causando à pintora, mas a parte renitente das coisas que julgava coerentes, era quase inabalável. Mesmo com Marcus tocando a vida e negando-lhe qualquer apreço filial que ela esperava ele tivesse como o sobrinho pródigo que só conhecera adulto, era mais que isso, era como se fosse um código de conduta que não poderia ser ultrapassado, não conseguia aceitar a possibilidade de ver a pintora com seu filho. Talvez já tivesse perdido o cerne da questão, o motivo verdadeiro, só sabia que não podia deixar, mesmo que não encontrasse uma razão substancial para embasar-se, como nas conversas rápidas e pontuais da irmã ou as longas horas de Evangelho que passara com o tio de Selma nos últimos tempos.

– Seu tio comprou-me o sobrado de Vila Roseta, pra você.

– Mas… aquele lugar é seu centro de memórias! É… bem, é o que você tem pra lhe sentir mais próximo do seu falecido esposo… eu, ah… titio não…

Mostrou-lhe o indicador em sinal de silêncio.

– Seu tio quis, foi seu último desejo pra mim;   a companhia que lhe fiz nos últimos meses… bem, foi ele que me ensinou muitas coisas… Ainda que eu não consiga digerir e aceitar tudo… (falou baixando os olhos). Eu vivi a minha história e tudo de bom que ela teve, está dentro de mim, o Sobrado era uma forma material de me manter perto do único homem que amei e tive a felicidade de dividir minha vida e construir uma família…mesmo que às vezes ele tivesse suas rabugices – sorriu com saudade –. Eu tenho muito pra me lembrar e me manter perto dele. O Sobrado é seu.

A última frase saiu com o pensamento que não admitia, mas formulou: “é a única coisa que você tem pra se manter perto do seu amor…”. Selma tomou o papel, abraçou a pretensa sogra e desfez toda a barreira que tinha construído contra aquela senhora. Não podia, não tinha espaço no coração pra guardar ressentimentos, ela abrira mão de algo realmente importante de sua vida a um pedido do tio moribundo e a fragilidade do momento, aliada ao carinho que também nutria pela mãe de Tales, independente dele, não a deixaram resistir a fazer as pazes, dando sossego ao coração da matrona.

……………………………………………………………………………………..

Saulo a um canto, quase imperceptível, cotovelos apoiados nos joelhos, mãos cruzadas segurando o queixo com barba por fazer desde o dia do atentado contra Selma, corroia-se por crer ter sido o causador da morte do seu benfeitor. A cena de se apresentar à hora da noite que foi, contar o que havia acontecido no vernissage, a aflição que o velho sentira e tentara disfarçar, mas levando-o a definhar bruscamente nos dois dias seguintes culminando no desenlace do seu corpo físico, atormentava-lhe. Via Selma e Joana velarem à cabeceira de seu Wanderley ininterruptamente enquanto ele, que tão bem lidava com situações as mais perigosas, não conseguia ter uma atitude diante do sentimento de impotência de nada poder fazer pra salvar seu Jorge tornou-se um misto com a raiva pelo benfeitor ter se empenhado tanto por essa sobrinha desconhecida, que – naquela hora – via como a causadora da situação e Leonardo com seu jaleco branco presente e aliviando ao que podia as dores do velho, queimavam-lhe por dentro. Diminuía-se a cada hora que durava a aflição do tio de Selma, pela sua total incapacidade diante da morte, justo ele que a desafiara inúmeras vezes, que chamava por ela toda oportunidade que se fizesse necessária agir daquela forma… Enterrava-se na garrafa de uísque 18 anos na varanda dos fundos da casa de seu Wanderley, onde acontecia o velório, esvaziando seguidas carteiras de cigarro. Saulo tinha um vazio na alma, que não saberia explicar e não admitia:  julgava-se tão auto-suficiente que afastava todas as pessoas de um convívio mais próximo a ele e atribuía à profissão a necessidade daquela atitude, quando na verdade, o medo era de compartilhar e perder… A jovem que deixara em Israel nunca lhe saiu da cabeça… o olhar melancólico que ela lhe deu em despedida… tudo que enfrentaria com a família, sociedade e religião por ter se entregado a um “infiel” que ainda a abandonara à própria sorte pelo extremo zelo da profissão, que melhor chamaríamos de egoísmo e alguma covardia diante da vida normal. O peso pela lembrança daquele olhar e tudo o que ele sabia aconteceria àquela mulher por ter lhe dado mais que o corpo:  o amor mais puro que ele jamais pensara ser possível,  foi somatizando pelos anos posteriores até culminarem no problema cardíaco. Por uma dessas ironias, abandonar o amor lhe separou do que imaginava não poder viver sem: ser um profissional da Inteligência Nacional, entre os mais destacados. A morte do seu Wanderley e todo aquele clima de família, sentimentos, dramas, reaviva o tormento antigo, mas ele preferia culpar ao resto do mundo a admitir-se que sentira, mas despedira essa coisa que às vezes achamos que podemos viver sem: amor.

……………………………………………………………………………………..

Leonardo e Joana consolavam-se mutuamente, mas sem causar escândalo aos presentes, todos sabiam que o médico havia se tornado praticamente parte da família pelo tempo e dedicação que dispensara ao falecido. Sentiam de fato e profundamente a passagem daquele homem que lhes servira de modelo, inspiração, fortaleza, caráter.

E enquanto alguns viviam seus próprios dramas e outros lamentavam a “perda”, seu Wanderley em espírito via a todos enternecido, passou por cada um beijando-lhe a cabeça ao que sentiam um súbito conforto e depois mais lágrimas. Ao último afeto que se despediu, o anjo que lhe acompanhava toma-o pela mão, dizendo:

-Está na hora, vamos? Você conseguiu na última etapa de sua vida na terra, construir e resguardar tudo o que as pessoas que ama precisavam, compensando toda a vida de avareza que passou angariando os recursos materiais que irá abastá-los. Você merece por agora, o “descanse em paz” que os “vivos” dizem repetidamente. Quem ama verdadeiramente, nunca está longe, nunca se separa em definitivo.

Seu Wanderley sorriu assentindo, de fato, sentia-se liberto e em paz por ter cuidado de tudo e se redimido das rudezas de toda a vida. Olhou uma última vez à D.Mércia, agradecido por ter lhe aberto a visão sobre a vida após a morte que agora encontrava:  aqueles conceitos sustentaram uma confiança que nos dias de desligamento do veículo físico, mesmo com as dores que sentira, dava-lhe resignada esperança e certeza que podia entregar-se tranqüilo àquela nova etapa da existência.

Desapareceram do ambiente em frações de segundo ao que seguiu uma onda de choros mais caudalosos dos presentes, como se pudessem sentir o que acontecera no outro plano.

……………………………………………………………………………………..

Muito distante dali, passeando por um parque, sem o menor interesse no tempo ou na velocidade a percorrer aquela distância, mas observando a revoada que lhe sobrevoava, sentindo a brisa gelada, mãos no casaco, Tales ouviu uma mãe declamando à filha adolescente, sentadas em picnic, uma poesia da sua terra. O sotaque brasileiro das duas tornava a cena ainda mais convidativa aos ouvidos, sentou-se num banco próximo para ouvir:

Soneto de véspera

Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou – fria de vida

Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida…

(Vinícius de Moraes)

Ao terminar, a mãe ainda folheou alguns outros versos do poeta, comentando com a filha que ainda que estivessem diante de todo o esplendor da cultura parisiense, sua “terra tinha palmeiras onde canta o sabiá”[1]. Levantaram-se e seguiram, provavelmente eram turistas, mas ele se deixou estar naquele banco, onde deitou e ficou a olhar pro céu cinzento. Seus olhos transmitiam saudade, dor, dúvida, resoluções racionais que o coração discordava, soltou um longo suspiro e deixou-se fechar os olhos a lembrar do que mais sentia falta na terra dos trópicos.

……………………………………………………………………………………..

 

Dali a duas semanas após o enterro de seu Wanderley, foi aberto o testamento, cumprindo todas as determinações exigidas. Leonardo e Joana constrangidos, a partir dali começaram a se evitar, tentando negar que tivesse surgido um sentimento ao leito do falecido, mas o constrangimento passou alguns meses depois natural e recíprocamente e em menos de um ano estavam casados, conforme o pedido de seu Jorge, que homenagearam respeitosamente dando-lhe o nome ao primeiro filho que lhes nasceu. Selma vibrou com os cuidados do tio à Júlia quando D.Mércia entregou-lhe as passagens já adquiridas pra que ela levasse a menina no seu próximo aniversário à Instituição européia determinada para que se seguissem os estudos da petiz. A pintora ainda fez mais:  nomeou-se tutora da menina para todos os fins de direito. Os demais, todos receberam conforme tinha sido estabelecido, seguindo suas vidas.

 

 


[1] Canção do Exílio (1843) foi escrita por Gonçalves Dias (Caxias, *10/08/1823 – Guimarães, +03/11/1864), cinco anos após ter partido do Brasil pra estudar Direito em Coimbra, Portugal. Inspirado no Mignon de Wolfgang Goethe. As obras deste teatrólogo e escritor tiveram boa parte de inspiração em Ana Amélia Ferreira Vale, sua musa, a quem a família da moça opôs-se veemente ao casamento pela origem mestiça do jovem, que era filho de uma cafuza com um português numa união informal. Ironicamente, foi o único óbito do navio Ville de Bolougne, que naufragou na costa maranhense, esquecido e agonizante em seu leito, já que retornava ao Brasil sem sucesso no tratamento de saúde que fora realizar na Europa.

O que isso lhe fez Pensar?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s