Cap 20 – Surpresas Impensáveis


Saulo tinha executado todas as recomendações de tio e sobrinha:  Marcus estava completamente envolvido com as novas ações que comprara de uma empresa estadunidense de biotecnologia, entusiasmado ao ponto de em tudo trabalhar para fixar residência lá, isso incluía encontrar uma cidadã daquele país disposta a dividir-lhe o teto e presenteá-lo com um Green Card, pra isso, participava de todas as feiras do setor, visando uma herdeira fútil que caísse em sua lábia. Definitivamente não queria saber nem da filha, nem de Gilda, que por sua vez, aparentava melhoras e era prevista alta pra dali a alguns meses, ao menos os médicos e a irmã estavam plenamente convencidos da sua franca recuperação, com isso já circulava pelos corredores e tinha acesso às notícias e a página de eventos do jornal diário que em uma daquelas manhãs tinham lhe inspirado a convencer definitivamente os profissionais sobre seu estado saudável.

Por conta do trabalho, a ausência de Selma na casa do tio era desculpada e com isso, mais e mais Leonardo se encantava com a nova postura de Joana, sob os olhos de seu Wanderley que abençoava o fato, convicto de que era questão de tempo pra dar o último suspiro, nem crendo poder ver a mostra da sobrinha que se daria em dois meses, já que o prazo dos dois anos requeridos por Mme. Petra tinham passado voando. O tio da pintora sorria de si pra si vendo o entendimento que crescia entre o médico e a esposa, estando certo que tinha tomado a decisão apropriada, mas a inocência entre os dois negava a crer nas desconfianças inevitáveis que surgiam vez ou outra sobre os interesses presentes nas longas conversas e nos pretextos criados por seu Jorge pra que mantivessem mais contato;  àquela altura, ainda que desrespeitassem sua presença, perdoaria, já que se sentia um vulto no mundo, ainda que tivesse “olhos” para checar até onde ia a fidelidade e o respeito de ambos à ele.

De fato, o envolvimento com o trabalho consumia Selma de tal forma que conseguia canalizar todo o sentimento por Tales em obras dia a dia mais primorosas, ora pintadas com esperança, ora com saudade, ora memoriais, os temas ficavam sempre sintonizados com sua inspiração e Monet deixara de ser seu ídolo para que desenvolvesse linha própria.  As correspondências com a marchand resumiam-se ao trabalho, apenas muito raramente trazendo meia ou no máximo uma frase sobre o sobrinho, porém sobravam parágrafos sobre a eterna lua-de-mel que vivia com o Embaixador teorizando que um afeto sincero e respeito mútuo podem sustentar por longo tempo uma relação firme, forte, estável mesmo que geograficamente distante: haviam estabelecido um prazo de cinco anos pra que acabasse a ponte aérea do namoro e estabelecessem residência juntos, depois de todos os anos que durava a relação.

D.Mércia cedera à vontade do moribundo sobre a compra do Sobrado e a renda do aluguel que Selma continuava pagando – desconhecia a surpresa que o tio lhe preparara – iam para o pagamento das funcionárias da creche que seu Wanderley instituíra pra cobrirem a ausência da sobrinha. Aquele homem meio misterioso em suas ações e métodos despertara a curiosidade da viúva que após inúmeras tentativas conseguiu enfim permissão pra conhecê-lo, criando visitas sazonais nas quais levava o consolo do Espiritismo sobre os eventos da vida e da morte. Quando houve espaço, o tio intercedeu pelo amor da sobrinha por Tales:  o assunto enervava a senhora, mas, uma vez que Marcus estava tão distante e compenetrado em seus novos objetivos, era semente que procurava adubar destacando os valores da pintora, que ela bem conhecia, mas nenhuma garantia que a idéia germinasse. Era uma via de mão dupla: ensinavam um ao outro as faces do Evangelho. Seu Wanderley procurava amolecer a visão de D.Mércia sobre uma possível relação entre o filho e Selma – que continuava afastada do contato com a pretensa sogra, restringindo-se ao essencial – e a senhora tentava convencê-lo dos valores que como cria, pertenciam à verdadeira vida. Ainda um muro de orgulho tinha que ser derrubado em ambos os casos.

Na creche, a pequena Júlia ia recebendo cuidado e atenção mais direcionados que a preparavam pra viagem longa que faria por sua educação sob as ordens do tio-avô. Enquanto as demais crianças estavam sendo beneficiadas com as consultas pediátricas regulares de dr.Leonardo.

De Tales, as notícias eram as de sempre: casa, trabalho, trabalho, trabalho, casa, cursos. Nada denunciava o interesse do jovem sobre uma vida a dois, ao contrário, tornavam-se mais constantes suas frases de repulsa sobre casamentos e filhos a cada vez que era indagado por mãe ou tia. Continuava gentil e atencioso, mas sem exageros.

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Acabado o prazo, a marchand tableaux retornava ao Brasil pra preparar um circuito que seria aberto pelas obras do novo talento que descobrira: Selma Araújo. Eram os destaques dos cadernos de sociedade e cultura dos periódicos. Gilda, já em casa, parecia a mais calma das criaturas, realizava os serviços domésticos enquanto a irmã ia trabalhar, mas ainda dispondo de muito tempo pra sair, ver coisas, lugares, pensar… Como diz o ditado: Mente vazia, oficina do Diabo. Nenhuma atitude denunciava em que andara trabalhando sua mente nos últimos meses, aparecendo a ocasião perfeita para concretizar. Informou à irmã que conseguira um trabalho temporário em um Buffet, dessa forma, dizia, podia começar a organizar a vida pra buscar sua filha da creche, o que deixava a meia-irmã completamente crente na sua recuperação e bons interesses, mal desconfiava de que a última coisa que lhe interessava era Júlia, a sorte da petiz era de fato, o carinho que Selma lhe depositava ao ponto de mover o tio-avô a cuidar do seu futuro sem que do próprio passado e dos genitores.

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Tudo era festa: o sorriso de Selma iluminava mais que as jóias da avó materna que herdara. Não comparecia aquela noite como visitante ou como assistente da marchand, mas como estreante. Seu tio também cuidara de cativar a publicidade da imprensa sobre ela, sem que desconfiasse. Claro que ajudou, mas de fato, seus quadros despertavam interesse, olhares atentos e demorados, opiniões positivas dos críticos presentes. Negou-se definitivamente a ter qualquer notícia sobre em que circunstâncias se deu a ornamentação do lugar, apesar de notar que o visual era completamente outro, mais moderno, trabalhando outras tendências bem diferentes de quando acompanhou a comerciante na qualidade de assistente. Luzes, tecidos, brilhos no salão principal:  a sobriedade ficara apenas aos corredores das pinturas, pra que nada tirasse o foco dos clientes.

Mme. Petra abriu o jantar com breve discurso, sacudiu a tensão da novata com algumas piadas inteligentes e culturais para os presentes, pra enfim com todas as pompas e o carinho que desenvolvera pela pupila, chamá-la ao microfone pra apresentá-la oficialmente. Meados do discurso, o estopim do tiro retumbou no salão, partindo a estátua logo atrás e um pouco recuada de Selma. O alvoroço foi geral. A multidão não sabia se corria, se deitava no chão, se era assalto, atentado terrorista ou qualquer coisa! Mil idéias fervilhavam e comentavam sem entenderem o que se passara com os outros dois sonoros estampidos que se seguiram, até notarem que uma garçonete caída em sangue segurava na mão sob a bandeja um revólver e um homem de postura assertiva e firme se dirigia até o local, guardando uma pistola. Os fotógrafos aproveitaram o furo ainda sem nada saberem, mas não podiam deixar de publicar algo daquele gênero, raríssimo de ocorrer em terras brasileiras num ambiente como o em que estavam. Os repórteres tentavam obter declarações daquele homem todo vestido de preto e cenho fechado, mas a polícia já chegara ao local e fechara o cerco para analisar a “vítima” e afastar os curiosos. Saulo havia sido o único a não esquecer que Gilda era um potencial perigo e tinha acompanhado todos seus passos mesmo dentro do hospital, até os planos que ela traçara pra liquidar a meia-irmã demonstrando sua total incapacidade emocional e psicológica que redundaria na morte ou ao menos num grave acidente pra pintora que mal havia sido apresentada. As credenciais anteriores pela Inteligência renderam a Saulo contatos suficientes para armarem o cerco pra falsa garçonete, por isso a rapidez da polícia ao local. Sem declarações, a publicação do dia seguinte restringiu-se a noticiar que uma paciente de determinado hospital psiquiátrico havia fugido e atacara os presentes do vernissage. Até na discrição havia a mão do investigador que assim como apareceu, desapareceu da cena sem rastros, pra ir entregar seu relatório ao tio que acompanharia o evento apenas pelos relatos de dr.Leonardo e Joana que foram representá-lo na ocasião.

Mme. Petra estarrecida, mal acenou para que a banda entretivesse os convivas que eram chamados ao salão anexo enquanto a cena era “limpa”. Selma foi levada a uma sala contígua, estava como que fora de si:  o rosto como em cera, sumia todo o sangue que podia haver em seu corpo, ainda não entendia o que tinha passado, muito menos quem seria o autor do atentado, quando diante de si, sentou-se Saulo que pedira privacidade para falar à moça: mãos cruzadas entre os joelhos, olhava a ela de modo firme de quem diz “Acabou.”, lábios franzidos um contra o outro, diz-lhe:

– Agora você não tem mais com que se preocupar.

– Como assim? E… o que você faz aqui? O que houve afinal, Saulo?

– Gilda.

– Como?!

– Não se desgaste, tem que se recompor pra voltar pra sua noite e dar orgulho a seu Wanderley. Eu já cuidei de tudo.

Pegou o braço da moça, aplicando-lhe um injetável para acalmá-la. Nada tinha de médico ou algo do gênero, mas fazia parte dos seus conhecimentos, caso fosse necessário. Levantou-se e nem o som dos coturnos ouvia-se. Era silencioso como uma sombra, um ninja.

Selma retornou ao salão no espaço de uns quarenta minutos, Mme. Petra já tinha cuidado pra que o bom humor voltasse, adiantara o baile pra que todos se distraíssem e sem maior balbúrdia pudesse continuar o evento. A estreante circulou um pouco entre os convidados, o suficiente pra ser conhecida, notada e transparecer uma figura forte e determinada que nem diante do ocorrido tinha desistido do seu sonho. O retoque da maquiagem contribuía pra disfarçar o susto que ainda lhe prendia o fôlego. Arrastou-se entre presentes até o fim da noite, sem transparecer a tempestade interna que a afligia. Boa parte de suas obras tinham sido adquiridas por quantia na média ou algo acima da média para um iniciante, o que era considerado positivo pela marchand que ofereceu-lhe mais oito meses para que compusesse algo mais para os planos que traçava em mente.

Saindo dali, ainda atordoada, foi levada pra casa por Leonardo e Joana, que a direcionou pra cama, deu-lhe um chá e confortou-a até que pegasse no sono. O médico havia sido informado do injetável que havia sido aplicado nela, medicou-a de acordo pra que relaxasse e tivesse um sono tranqüilo e se recuperasse do susto. Com todas as provas e influências de Saulo, fez-se desnecessário sua presença em delegacia, depoimentos e coisas do gênero, ficando a cargo de Ricardo, que ainda respondia como advogado de Selma, os pormenores.

A manhã seguinte despertou-a com a campainha e uma entrega de azaléias de matizes rosa, parabenizando-a não apenas pelo desempenho, mas como pela fortaleza de espírito demonstrada diante da situação e que de alguma forma, causaria repercussão ao seu nome e levaria curiosos a buscarem saber e conhecer quem era Selma Araújo, por conseguinte, seu trabalho. Com um conteúdo desses, natural reconhecermos que o presente vinha da marchand, que já marcara ponte aérea para a cidade em que combinara refugiar-se uns dias com o Embaixador, em solo brasileiro, distante dos holofotes e que ele se aplicaria a distraí-la de todas as formas possíveis, ainda que tivesse que tentar cantar Carlos Gardel[1] ou dançar hula[2] pra lhe arrancar risos, disfarçando o medo que lhe apertava de ter podido perder seu amor de décadas.

Selma acordou entorpecida pelos medicamentos, ainda não atinava ao certo o que tinha acontecido, quando o telefone tocou pedindo que se vestisse que Leonardo estaria passando em uma hora pra buscá-la pra ver o tio.

 

 


[1] Tacuarembó ou Toulouse, *11/12/1890 – Medellín, +24/06/1935. O mais conhecido cantor de tango argentino confessava ter nascido em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade, descartando maiores informações sobre quem seriam seus pais ou se era uruguaio ou francês. O cantor que começou nos cafés de subúrbio saiu do anonimato com “Mi Noche Triste”(1917), chegando a apresentar-se no Teatro Nacional de Corrientes. Gravou mais de 900 canções entre fox-trots, fados, pasodobles, músicas folclóricas além do tango, atuando ainda em mais de 11 filmes, dentre eles o conhecido El Dia que me quìeras. Ele e seu parceiro Alfredo Le Pera, morreram num acidente de avião e seus restos mortais estão no cemitério La Chacarita na capital argentina. A pedido do governo uruguaio, sua voz foi gravada pela Unesco no Programa Memória do Mundo.

[2] Dança havaiana passada de geração à geração desde o Período Histórico Matriarcal. Interpretação de poesia, do mele, nascem movimentos variados em significados, sendo mais que uma dança, uma religião pro seu povo baseada em lendas de orações e amor à Mãe Natureza.

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