Cap 19 – O Amor Trabalha Sempre


         A vida continuava a mil, Selma aplicava-se intensamente a um dos sonhos da sua vida: realizar-se fazendo o que gostava:  a pintura. Os dias corriam, as visitas ao tio escasseavam, por motivo plenamente justificado para ele, já que discorria horas e horas sobre o futuro promissor e famoso que imaginava, dourava e tricotava para a sobrinha, como a uma filha de ouro que muito esperara ter. Viam-se aos domingos. Dr.Leonardo era constante em cuidados ao doente, que apresentava uma melhora significativa, que não deixava que pensassem que podia ser uma dessas coisas que acontecem quando a pessoa está perto de partir… Mesmo atarefada com o relativo curto prazo dado pela marchand pra que se aprimorasse e trabalhasse, os domingos eram integrais ao tio querido, com idas e vindas por conta do médico.

Tinha mantido contato com alguns profissionais do ramo, para aprender técnicas e artifícios para ter o olhar do público. Dentre esses, mais um que tentava granjear a atenção da moça, que deslizava a pretexto do excesso de trabalho e dedicação, quando na verdade, sua vida e obras soletravam sua verdadeira inspiração que não apagava mas que cada dia longe dele, era encarado como “um dia a menos para revê-lo”. Poderia ser a eternidade, mas estava longe de ser birra ou uma insistência caprichosa:  da respiração às pinceladas, Selma transparecia seu amor por Tales.

 

 

Você Me Ganhou (tradução de You Got Me – Colbie Cailat)

Você está preso em mim e em meus olhos risonhos / Eu não posso fingir que eu tento esconder – Eu gosto de você / Eu gosto de você / Eu acho que eu senti meu coração saltar em uma batida / Eu estou aqui e eu mal posso respirar – Você me ganhou / Você me ganhou. / O jeito que você segura a minha mão é simplesmente tão doce / E aquele seu sorriso torto quebra as minhas pernas / Oh, eu só não consigo o suficiente / Quanto eu preciso para me encher? / Eu me sinto tão bem, isso deve ser amor. / É tudo que eu tenho sonhado. / Eu desisto. Eu cedo. Eu deixo ir. Vamos começar / Porque não importa o que eu faço, / oh (oh) meu coração é cheio com você. / Eu não posso imaginar como seria / Vivendo a vida toda nessa vida – sem você / sem você  uma olhada de você e eu sei que você entende / Essa bagunça em que nós estamos você sabe que é tão fora de mão. / Oh, eu só não consigo o suficiente / Quanto eu preciso para me encher? / Eu me sinto tão bem, isso deve ser amor. / É tudo que eu tenho sonhado. / Eu desisto. Eu cedo. Eu deixo ir. Vamos começar / Porque não importa o que eu faço, / oh (oh) meu coração é cheio com você. / Eu sei que nos deveríamos sempre seguir esse caminho / E em meu coração Eu Sei que Você sempre vai ficar / Oh, eu só não consigo o suficiente / Quanto eu preciso para me encher? / Eu me sinto tão bem, isso deve ser amor. / Eu desisto. Eu cedo. Eu deixo ir. Vamos começar / Porque não importa o que eu faço, / oh (oh) eu coração é cheio com você. / Quanto eu preciso para me encher? / Eu me sinto tão bem, isso deve ser amor. / É tudo que eu tenho sonhado. / Eu desisto. Eu cedo. Eu deixo ir. Vamos começar / Porque não importa o que eu faço, / oh (oh) meu coração é cheio com você. / oh Você me ganhou / oh você me ganhou.

 

Nesse ritmo, tela a tela, rabisco a rabisco, a vida ia tomando forma. Travava contato com o investigador pra saber da meia-irmã que não a interessava mais que o ponto do que aquela poderia fazer para atrapalhar-lhe os planos, aprendera com ele que era imprescindível o silêncio sobre sua vida pessoal que era consumida com mais e mais afazeres e ocupações. Tudo o que não podia falar, fosse por discrição ou prudência, pintava também, virava inspiração adjunta, correlata. Pensava afinal que se Gilda tinha se dedicado tão esforçadamente a planejar a destruição dela pondo fim ao casamento, sem alcançar o fim almejado, não seria impossível – ocorria-lhe – que se descobrisse o amor que tinha pelo arquiteto, primo de Marcus, sacrificaria tudo que pudesse por alcançar e seduzir, ou tentar, pelo prazer desditoso de vingar-se de Selma por algo, pode-se dizer, doentio, já que o ciúme por algo que fugia ao controle de qualquer uma delas tinha dado esse presente de grego. Selma agitava-se sobre essa perspectiva e tudo faria pra paz reinar, ainda que isso significasse mais tempo longe do seu amado.

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A vida ensinava-a o significado de “amigos do caminho”: pessoas queridas, importantes, mas que estavam destinadas a ficar tempo restrito junto depois seguindo sua própria estrada, desconhecida pra nós, assim como desconhecido era se voltariam a estar conosco na mesma trilha. Marina desaparecera qualquer contato. Vãos emails foram enviados, nada mais se sabia. Débora, estava noiva de Ricardo e montavam firma própria, como lhe era peculiar, sumia desde que a vida emocional estivesse cavalgante. A creche havia sido recompensada por seu Wanderley com duas funcionárias e as visitas semanais do médico Leonardo pra fazer acompanhamento pediátrico nos petizes, pela ausência necessária da sobrinha, o que naturalmente, incorporava o intento de mantê-la longe da sobrinha-neta, Júlia, mal sabendo que Selma tinha, de uma vez, abandonado a idéia de adotar a menina. A criança sofrera a ausência da pintora mas, como toda criança, se recuperava, ainda mais nos braços de d.Mércia que não deserdara das atividades. O contato entre ela e Selma haviam rareado; o mau estar diante das descobertas ainda não passara totalmente na pintora que tinha como vergonhosa a decisão da outra de escolher o sobrinho Marcus, afastando Selma pela decepção e ojeriza que mantinha pelo ex marido:  não queria ouvir nada sobre ele. Por consequência, afastar-se da tia de Marcus era também cortar contato com a mãe do seu amado, ainda que a boa senhora, não poupasse esforços em falar de perdão, reconciliação e todos os temas que tinham se tornado odiosos pra moça, não que guardasse rancores sobre tia ou sobrinho, já tinha superado essa fase mas, porque não queria toldar pensamentos, inspiração com esses assuntos. No fundo, nutria grande carinho por D.Mércia, por todo o tempo que compartilharam sobre o Espiritismo, sobre a convivência nas atividades da creche, pelas horas de conversa no sobrado, independente de Tales, porém, logicamente pesavam-lhe as novas circunstâncias e tentava trabalhar sua disposição sobre a mãe do seu querido, além das relações como locadora e locatária do imóvel.

Mme. Petra por sua vez, optara pela profissão à aventura de largar a Europa e voltar ao Brasil com o embaixador, o que só deu ao homem a opção de agregar alguma atividade que o dispusesse entre o novo e o velho mundo, onde faltando a oportunidade profissional, ficavam de namoro sazonal com as viagens dela ao Brasil ou passeios dele pela Europa, já que estava cansado do clima frio e não conseguia pensar em ficar mais tempo longe do tropical brasileiro. Por sua vez, as correspondências da marchand com Selma se restringiam a incentivo e cobrança do empenho da moça em desenvolver seu trabalho, como a melhor saída pra não se vitimar sobre as impossibilidades temporais do seu amor pelo sobrinho. Até discutiam a viabilidade de se aproximarem, a pintora e Tales, mas a situação não melhorara o suficiente pra dar qualquer sinal evidente de que isso pudesse acontecer, de forma que pela saúde emocional da moça, o melhor era canalizar todo esse sentimento para algo útil: telas e pincéis.

O que Selma sabia sobre Tales era apenas que sua rotina centrava em trabalho, casa, algum curso, casa, trabalho e mais trabalho. Diante da discrição absoluta do rapaz, a tia não sabia precisar à sua pupila se ele granjeara amores, paixões;  se tinha alguma, não tinha sido tão forte a ponto de levar ao conhecimento familiar ou transparecer pelas atitudes.

Marcus havia conseguido a liberação para administrar sem Selma os investimentos que levara ao jurídico, porém agora, insatisfeito com qualquer coisa, tentava provar que tinha direito sobre a herança da moça:  a pensão vitalícia do pai. Esforços conjugavam-se para que ele não soubesse do tio Jorge ou seria mais um motivo pra adoecer o velho e torturar Selma em troca dos cifrões que brilhavam nos seus olhos. Também nisso o investigador estava instruído a trabalhar.

O biênio passava num piscar de olhos, o coração entre ansioso, feliz e entusiasmado, refletia nos afrescos o seu pulsar e um observador mais atento, notaria, em cada obra, indicações sobre aquele que inspirava Selma: Tales.

Leonardo estava aprendendo semana a semana que com algumas coisas não se tem como competir, até porque elas não entraram em disputa, estavam sólidas e soberanas além dessas conjecturas. Não era apenas o destino da saúde do seu paciente que não encontrava doadores compatíveis, apesar de todo o dinheiro empenhado para;  o outro ponto era participar mais intimamente da vida da sobrinha de seu Wanderley além da amizade que obteve. Porém o contato diuturno na residência do doente, vinha fazendo crescer a admiração pelo desvelo com que Joana monitorava à cabeceira do esposo, todos os átimos e respirações, assim como a administração dos negócios, poupando o velho de dores de cabeça desnecessárias, apesar da rabugice deste, compreendida agora, como insatisfação com a saúde. Era uma boa desculpa pra não se melindrar pela personalidade do pernambucano. A mulher de aparência servil, vinha compondo sua armadura forjada na dor antecipada e na certeza que a cada dia que passava, era mais provável perder aquele que havia sido seu protetor, tirado-a do trabalho oficial pela oportunidade de dedicar-se a ele por satisfação, afinal, aquele homem, ainda forte e de aparência viril com quem casara, parecia um baluarte que despertara seus jovens anseios femininos, paulatinamente minados na convivência e na falta da paixão pela cobrança dos herdeiros que nunca vieram, porém, dia a dia, aquela frágil servilidade ia criando calos que a deixavam mais senhora de si, o que já trazia algum respeito aos olhos do esposo. A tomada das obrigações e responsabilidades, a dedicação a estudar na madrugada sobre temas que a ajudariam a resolver as questões financeiras dos bens do marido e a  atenção que ainda conseguia render a tomar ela mesma cuidados com ele ao invés de meramente confiar nas técnicas de enfermagem contratadas, redobravam o valor daquela mulher simples e de caráter louvável que já contava também com a admiração da sobrinha de seu Wanderley, que destacava a Leonardo os louros que deviam ser dados à Joana. Sem perceberem, isso despertava algo mais no médico, porém, não havia passado despercebido à Jorge, que como homem, mesmo doente e até pelos vários anos a mais, notava o interesse crescente porém ingênuo que fazia Leonardo mudar o alvo do brilho de seus olhos da sobrinha para a esposa do pernambucano, que sem sentir ciúmes, ciente de que era uma questão de tempo para desencarnar, estava certo que se ele não havia sido bondoso e amável o suficiente ao que Joana merecia, Leonardo podia dar-lhe isso, além de ser honesto o suficiente pra mesmo quando percebesse que vinha nutrindo afeição diferente pela esposa do seu paciente, não ousaria desonrar a confiança e a casa do velho homem.

Foram diante dessas circunstâncias que seu Wanderley pediu a presença do advogado e do tabelião para em particular, fazer seu testamento. A pretexto de assuntos de outra ordem, ninguém além daqueles profissionais, o padre da paróquia local e do caseiro mais velho na função entre os seus empregados – que foram chamados pra testemunhar -, desconfiava que o velho estava ciente e conformado com o que lhe aguardava o futuro próximo. Dessa forma, destinou a Joana a direção dos seus bens, uma porcentagem ao médico pela dedicação prestada (e a benção de tomar-lhe a viúva por esposa, como pedido de honra que não poderia negar ao paciente), uma outra parte como rendimento de fundos de ações pra que contribuísse pra creche, como beneficiária a sobrinha-neta Júlia, que enviava a um colégio interno, já subsidiada sua manutenção por essa ordem até o ensino superior no exterior pra que tivesse futuro e cultura bem diverso do da mãe dela (mais por saber que deixaria Selma feliz do que por consciência e dever familiar, dessa forma, a instituição seria beneficiada enquanto gerisse o bem estar da menina). Como não poderia deixar de ser, metade de seus bens foram destinados à Selma, mesmo sob gerência de Joana, já que como vislumbrava como promissora a profissão que a sobrinha abraçava, sabia que ela não teria tempo pra ficar in loco cuidando de coisas que desconhecia o exercício. Naturalmente, brindou as testemunhas:  um prêmio pro funcionário pelos anos de dedicação e que seriam entregues diante do zelo pra que o testamento fosse cumprido (apenas tomaria posse do valor se tudo fosse como a vontade do moribundo) e nos mesmos termos, outro benefício pra paróquia, na pessoa do padre. Seu Wanderley era o tipo de homem prático e realista que sabe que as pessoas costumam decepcionar e por isso se deve amarrar todos os pormenores de forma a mesmo que fosse achado um meio de ser desvirtuada sua vontade, daria ao menos, algum trabalho até que o conseguissem, ou seja, tomava precauções e medidas que garantissem ao máximo que seu desejo fosse cumprido. Deixou nota de pedido de compra do sobrado por uma boa quantia – super estimado o valor do imóvel -, à d.Mércia, como pedido do doente que ela não podia negar ainda mais com todas as dores de cabeça que seu sobrinho Marcus tinha causado à sobrinha dele, Selma. Uma carta para a Marchand Tableaux em compra da primeira obra que sua sobrinha tivesse composto, independente de qual fosse e que só fosse entregue à Selma ao fim da sua primeira exposição no exterior, que ele juntamente patrocinava, não sabia o valor que isso custava, mas, devia dar ao menos pra que ela participasse juntamente com outros pintores, emendava na narrativa;  e uma última carta, sem qualquer valor monetário, que fosse entregue apenas depois do seu enterro:

“Caro Tales,

         Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente, mas a julgar pelo tempo que você exerce fascínio sobre minha sobrinha Selma, deve ser alguém digno da minha benção. Então seja homem, não fuja da única coisa que de fato faz da vida algo com sentido, como eu fiz. A felicidade não está no dinheiro, apesar que ser rico, dá grandes facilidades. Case por amor e não por conveniência, posição, herdeiros ou pra agradar a sua família. Diante da morte, todos os nossos conceitos tornam-se sem sentido e a única coisa que desejamos é a mesma da qual nos arrependemos: não ter permitido a felicidade dos que amamos e a nossa própria, termos nos escondido sob inúmeros disfarces pra justificar o que não tem desculpa: a covardia diante de seguir nosso instinto imortal: amar.

         Se você quer descobrir, por cada dia que viver, a maravilhosa pessoa que é Selma e sentir-se rico por tê-la a seu lado, como sua companheira na curta jornada que é a vida – apesar que digam não acabar com a morte -, a certeza está aqui, no presente, então, desafie a si mesmo, desafie os conceitos dos que acham estarem sempre certos, siga seu instinto, seu coração, escreva sua história, tome as rédeas do seu futuro, tenha a honra de ser a primeira pessoa que ela vai ver a cada amanhecer e a última que ela vai ver antes de dormir todas as noites, tenha a coragem de amá-la diante de todos, apesar de todos, ao invés de continuar fugindo. Não espere que as coisas estejam bem, elas nunca estarão bem o suficiente se nos escoramos nessa desculpa. Seja feliz, filho! Seja feliz com Selma. Com filhos ou sem filhos, cachorro ou gato, no Brasil ou nessa Europa que parece que você adora (ao menos pra se engavetar da vida), mas permita-se ter o amor de minha sobrinha nos seus braços e você não se arrependerá de ter ousado. E quanto à sua mãe, ela vai ver que você cresceu e fez o certo quando ver o quanto minha Selma o faz feliz. Tenha coragem, filho! Além do quê, se o sobrado que seu pai construiu é importante pra você, mais um motivo pra você ficar com minha sobrinha:  ela é a nova dona do lugar. Não se preocupe com Marcus, esteja certo que cuidei pra que ele não perturbasse mais.

Me dê sua palavra, jovem Tales, que honrará minha confiança em gastar tempo lhe escrevendo quando as forças já me são poucas, que eu possa chamá-lo filho com motivo e abençoá-lo quando enfim meu coração conheceu a importância de fazer o bem.

Jorge Correia de Araújo Wanderley,

Tio de Selma.”

 

Ao terminar a missiva, seu Jorge suspirou profundamente, enquanto duas lágrimas desciam quentes do olho esquerdo, enquanto o direito insitia em reter o brilhante líquido. Esperava sinceramente que ajudasse de alguma forma a confusão que imaginava atormentar o rapaz pra ir refugiar-se tão longe. No alto dos seus mais de cinquenta anos, sabia que um homem só se afastava tanto de uma mulher daquela forma se seu caráter não permitisse ser um cafajeste com ela, se o sentimento fosse maior que o desejo, se tinha certeza que nada podia fazer pra não macular a dignidade da amada. O que seu Wanderley não entendia de romantismo, entendia de pensamento de um homem de fibra:  Sabia que o rapaz estava longe de ser um doidivanas, que se mantinha graças ao próprio trabalho, que era honrado e que não dava motivos pra um senão na sua história, mesmo dividindo alguns cromossomos com Marcus, estava longe de ser como o crápula do primo. A vida da família Campelo era bem conhecida do velho homem através do seu investigador:  um snipper no mundo profissional, personalidade firme, assertivo, breve em palavras, olhos de águia, discreto como um ofídio, só era notado quando era tarde e nada mais podiam fazer seus alvos ou nem nessas horas. O contratado do velho Wanderley, afilhado por religião, era filho de um de seus empregados;  de menino notava-se pelo seu comportamento a que eram direcionados seus instintos, de forma que ganhou estudo e formação pro que queria: ser um agente da inteligência nacional. Um problema cardíaco tirou-o da ação, mesmo tendo sido operado pelos melhores profissionais, não sendo readmitido pela burocracia, passando a trabalhar avulsamente. Quando o doente resolveu procurar a sobrinha, não teve outra idéia e não teve outra resposta a não ser a promessa do afilhado de que sua sobrinha estaria em segurança, com o empenho da própria vida. Saulo não deixara-o na mão até ali e já tinha feito fortuna o suficiente para não falhar com seu Wanderley, com seus trabalhos particulares de investigação comercial, industrial, guarda-costas de figuras ilustres do território nacional ou de investidores estrangeiros de grande capital;  o seu cartão de visitas ia de Israel à Espanha, lugares em que obtivera cidadania inclusive, fincando residência naqueles arredores, quando surgiu o pedido do patrão de seu falecido pai. Se do velho Wanderley tinha obtido os recursos pra chegar onde almejara, do pai tinha herdado o caráter sólido, perseverança, fidelidade cega aos que lhe inspiravam respeito, admiração ou agradecimento, no caso do tio de Selma, esses três adjetivos mais alguns outros.  Em qualquer conversa que a pintora já tinha tido com o investigador, não fazia idéia de que estava diante de um homem que sabia sobreviver no deserto ou no pantanal, que tinha atuado em diversas frentes, em diversas circunstâncias, hábil estrategista e de um tiro à altura  de sir Allan Quatermain[1]. A ele cabia entregar em mãos a missiva e discretamente, como era de sua abordagem, garantindo sua leitura pelo destinatário, pelos meios que fossem necessários – ordens do sr.Wanderley. Também à Saulo cabia levar informações “por acaso” a Marcus que despertassem seu interesse comercial para outras regiões distantes, porém de lucro certo, que consequentemente, ganhasse a confiança do ex marido de Selma, de forma a tê-lo sob os olhos em qualquer circunstância, mantendo-o afastado do Brasil, da Europa e isolado na sua avareza pra não perturbar a paz dos demais Marine, muito menos de Selma. O olhar perspicaz de seu Wanderley sabia que pessoas como Marcus, não mudam, apenas fingem e seguem o próprio interesse acima e antes de qualquer coisa, sendo o dinheiro seu único apêgo. Não lhe faria diferença tornar o sobrinho-crápula Marine rico, desde que isso trouxesse segurança e tranquilidade à sua família. Além do que Saulo já tinha pelo próprio trabalho, a recompensa pra efetivar as ordens do pernambucano lhe dava, antes dos trinta e cinco anos, a garantia de uma aposentadoria sem aperreios.

A essa altura, o pároco já estava boquiaberto e invocando todos os santos diante da surpresa do tamanho da herança que o homem chucro, com botas de espora e chapéu de vaqueiro que nunca entrava na igreja, nem dava ofertas ou contribuições revelava, mas o benefício da igreja tinha sido suficiente, inclusive a parte particular pelos “serviços prestados” pelo padre, para que não causasse objeções. O patrimônio de seu Jorge estava muito bem distribuído em várias frentes de empreendimento e mesmo deixando apenas uma porcentagem pra Joana, com o tino que ela vinha mostrando pros negócios, em uma década possivelmente ela já teria novamente alcançado seu montante, assim como Leonardo poderia ter junto a ela, a clínica que tanto queria pra atendimento aos estrupiados da região, principalmente pros acometidos de Pênfigo, o popular “Fogo Selvagem” que surpreendia em número de casos naquela área que seguia pro centro-oeste do país, ao contrário das demais regiões.

Nesses termos, encerrou-se o testamento que estava destinado a ser aberto após o enterro daquele tio que aparecera de súbito na vida de Selma e ao qual ela queria dar orgulho com seu primeiro vernissage, ainda que fosse o tio ignorante do assunto. Foi lavrado distante do conhecimento dos beneficiários que achariam um absurdo as conjecturas determinadas pelo velho ali, mas seu Wanderley ficou em paz. Tinha cuidado do futuro de Selma, de Joana, ajudado Tales e o médico a enfrentarem a opinião do resto da sociedade pra fazerem felizes as mulheres que importavam em sua vida. Tinha cuidado ainda da inocente Júlia, assim como do funcionário fiel, da paróquia (pra não dizer que não tinha direito ao céu, como um católico à antiga – cria), do protegido Saulo, afastado Marcus sem causar mal. Poupado d.Mércia de continuar se agastando – como ele via – com o sobrado (não era do feitio de seu Wanderley entender esses apegos emocionais, talvez em outras circunstâncias, essa mulher tivesse lhe ajudado a crescer as boas intenções que moravam naquele coração, apesar de serem bem camufladas). Cria não ter esquecido de ninguém e assim adormeceu.

 

 


[1] Personagem de King Solomon’s Mines ( As Minas do Rei Salomão) de H. Rider Haggard (1885). Inglês, de mira excepcional,  filho de missionário que passa a vida na África Selvagem. Destaque para sua vida solitária (enviuvou duas vezes e seu filho morreu de varíola, ainda jovem), é um caçador que ao fim da vida, exerce sua atividade por necessidade, já que é ciente que ajudou a devastar o continente que ama, mesmo não sendo seu berço. Na falta de familiares, Macumazahn (apelido que significa watcher-by-night, pelos instintos aguçados e hábitos noturnos, posteriormente Macumazana, “aquele que se destaca”) conta com poucos amigos, que lhe acompanham até o fim de cada história, fiéis, independente da situação. A obra de Haggard sofreu algumas falhas de continuidade, trazendo divergências sobre o personagem que não tiram o principal, mas tornam imprecisa a narrativa.

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