Cap 17 – O Amor tem suas Vilezas


Alguns dias depois, Selma que tinha se instalado à cabeceira do tio doente, estava completamente por fora das notícias da mídia. Joana temia que o fim se aproximasse depois da discussão havida entre o velho Wanderley e a sobrinha que arrependida da discussão, velava-o incansavelmente, apesar da esposa e das técnicas de enfermagem que agora eram duas que se alternavam em turnos de 12h. O abalo emocional de conhecer Selma, de ver os traços que lhe lembravam a mãe, temperamento que lembrava em parte os Wanderley, outra parte atribuída à herança materna da moça, o encantaram completamente, fazendo-o antever sobrinhos-netos dela e do médico que sabia, tinha bom coração e estava com explícita adoração por ela, sim, porque dr.Leonardo dia a dia depositava maiores atenções a Selma, o que normalmente a irritaria, mas ali, era tido em grande conta, visto que todos os dias o médico se desdobrava a aplacar de alguma forma com medicamentos, pesquisando horas a fio novos procedimentos que aliviassem a tortura da doença que avançara significativamente no tio. Agora que as coisas aliviavam, Selma tinha sido levada pra casa pelo seu admirador para que descansasse e pudesse pôr em dias os próprios afazeres. Chegando à porta, nota um papel sob a mesma, puxou-o antes mesmo de entrar na residência:

“Querida Selma, você sumiu e não conseguimos te localizar de forma alguma. Estou preocupada. Me ligue. Mércia.”

“Hunf!”, foi a única coisa que o bilhete mereceu. Talvez se tivesse, ou melhor, se não tivesse descrido da palavra do tio sobre a família Marine, talvez, seu recente e amado tio não estivesse prostrado como esteve naqueles dias.

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A visita de Selma com dr.Leonardo à tarde daquele outro dia, foi altamente proveitosa e agradável, o doente melhorou a olhos vistos, pedindo reiteradas visitas da moça. Joana se mantinha praticamente escondida, já que até então, as ordens eram que não fossem revelados os laços consangüíneos que tinham, queria primeiro conquistar a simpatia da sobrinha, para depois revelar a intromissão que tinha feito com um investigador pra não apenas achar o paradeiro dela, assim como suas atividades, relações sociais, até finanças.

As tardes estavam quase sempre acompanhadas pelo médico que bancava o motorista pra buscá-la e deixá-la, por puro interesse em manter momentos a sós com a ela, sondar-lhe as aspirações, sonhos, desejos, bebendo-lhe cada palavra, cada sorriso, como se fossem um bálsamo que cessava a extenuante jornada profissional; por sua vez, ela, tinha a companhia sempre alegre, agradável, gentil de Leonardo como alento, já que não tinha mais contato com Marina, escasseado a amizade com Débora, agitada pelas perturbações de Marcus que de um lado espezinhava e do outro protelava a questão documental em juízo. Nesse ritmo, o que ela levava numa feliz amizade que podia relaxar sem preocupar-se que ele insistiria e apelaria pra mulher Selma, mas contentava-se – cria ela – em ser seu amigo, não era mais que o modo Leonardo de demonstrar que seus interesses eram os mais profundos, contando com a benção do tio. Mas seu Jorge não cria que tivesse tempo pra “lerdeza” do médico, resolvendo, ele mesmo expor os fatos, ao melhor estilo “delicado” dos Wanderley:

– Venha cá, Selma, e você também Leonardo. Joana! traga aquela caixinha que eu lhe pedi pra guardar no cofre.

Os dois se entreolharam sem nada entender do que viria a seguir. Qual surpresa quando a “escondida” Joana se mostrou à porta, cabeça baixa, estilo servil costumeiro, no meio do caminho estanca com a voz exaltada da moça:

– Peraí! Você! O quê.. quem é você? Esteve na creche outro dia me procurando, saiu sem deixar recado… O que significa isso tudo afinal?

Seu Wanderley que pretendia trazer o anel de família com as iniciais de Selma gravados, como era tradição, pra anunciar que ela era sua sobrinha que procurava fazia tempos e queria aproveitar pra emprestá-lo a Leonardo para que de uma vez o médico a pedisse logo em casamento que o velho tio já não tinha tempo suficiente pra esperar tanto pelos desejados sobrinhos-netos, ficou meio perdido, tentando remediar a situação. O médico que não entendera coisa alguma até ali, corria a checar os sinais do doente, que aparentava súbita palidez e falta de ar. Joana desatou a chorar, largando a caixinha nas mãos da técnica de enfermagem que entrava pra aplicar a medicação, saindo aflita pelos corredores ao que quando Selma tentou ir ao seu encalço foi retida pela mão do velho que segurou seu braço.

– Acalme-se Selma. Sua reação afligiu a saúde dele. Disse o médico.

– Mas, mas… eu não entendo! Essa mulher! Aqui! O que EU estou fazendo aqui?! O que significa tudo isso? Eu vou embora.

– Por favor, fique. Eu vou explicar tudo. Sussurrou o moribundo quase inaudível.

O olhar de repreensão do dr.Leonardo fez Selma pregar na cadeira entre ressabiada e obediente à vista do estado que tomou seu Wanderley de repente.

Aplicados os medicamentos, alguns outros cuidados, um copo de água, o estado de seu Jorge começava a dar sinais de alívio.

– Selma, por favor, espere. Deve ser algo importante pra que ele tenha ficado dessa forma. Em todo o tempo que conheço meu paciente, nunca o vi se abalar dessa forma, muito menos, demonstrar abertamente afeto por alguém, como o faz por você, tenha um pouco de paciência e caridade, por favor, sim?

A moça que estava a um canto do aposento para que os profissionais tivessem espaço pros procedimentos que tinham sido necessários ao doente, apenas assentiu com a cabeça.

A noite chegara. Após a refeição frugal de seu Wanderley, ele novamente pede a caixinha e que ambos sentem novamente próximos a ele.

– Selma, minha filha, você sabia que seu pai tinha família em Pernambuco, não?  Pois eu o conheci, cresci com ele, depois que ele veio pra São Paulo, ainda fiquei um tempo lá na nossa terra, até que soube que ele enviuvou e estava completamente perdido, deixando os negócios naufragarem, enfim… Cheguei, ajudei-o a se reerguer, trouxe capital e injetei diversas ações pra que ele conseguisse preservar o suficiente pra lhe deixar essa renda que hoje lhe serve…

– Você sabe… como?…

– Deixe-me continuar, querida… antes que o “dotôzinho” aqui – disse dando um tapinha nos joelhos do médico, que baixou os olhos, rindo ao gracejo do velho – me diga “já chega por hoje!” riu magramente.

Nos seus últimos dias, ele tinha dois lamentos: ter brigado com você por causa da péssima escolha que você fez pra marido, diga-se de passagem… – falou azedo – e não ter se livrado daquela índia e da filha que tiveram… sim,sim, seu pai teve uma outra filha, ainda com sua mãe viva – disse torcendo o cenho – que eu desaprovei completamente, mas… o mal já tava feito e a mulher sumiu no mundo! Mas ele sentia que aquela menina ia trazer problemas, como trouxe, pra você…

Selma olhava meio petrificada, meio embasbacada, mas resolvera que melhor ouvir tudo primeiro, pra depois fazer perguntas, se é que restassem perguntas, mas pensava: “do que ele está falando?”

Continuou seu Wanderley:

– Selma, minha filha, você é minha sobrinha. E “aquele seu marido” – disse irritado visivelmente – foi logo se “enrabichar” justo pela filha da índia! Teve uma filha com ela! Não fosse pouca sua desgraça, você ainda ficou “catando margaridas” pelo primo dele! – a voz de seu Wanderley só se alterava, assim como seu humor – Então, – disse tentando se acalmar – a melhor coisa que você tem a fazer, ou melhor, você dr. Leonardo! – falou puxando o médico e um sorriso expresso – você vai pegar esse anel, que eu mandei fazer pra Selma se sentir da família de novo, vai pegar emprestado, hein?! Que eu não agüento mais essa sua lerdeza! Você vai pegar esse anel e pedir logo minha sobrinha em casamento que eu quero netos! Nem que sejam sobrinhos-netos! Disse eufórico.

Leonardo entusiasmou-se, sorriu agradecido e confiante, pegou o anel, ajoelhou-se – enquanto seu Wanderley fazia sinal pra técnica de enfermagem pra trazer o vinho que ele tinha dito pra guardar pra que “os noivos” brindassem – e quando levantou os olhos pra Selma perdeu o encanto com a cara de cera em que a moça estava, mãos geladas.

– Então, você é meu tio, isso? Irmão do meu pai… eu já deixei de usar o sobrenome de papai faz tempo… nem atentei quando se apresentou… mas isso não explica quem é aquela mulher.

-Ah! Aquela é Joana – disse com descaso – é minha mulher. Sim, sim, é mais jovem e tal… eu pretendia que fosse capaz de me dar filhos… bem, nem isso, nem conseguiu lhe dar meu recado pra vir até aqui me ver… é uma imprestável… apesar de ser trabalhadora… disse mordendo uns biscoitos próximos à cabeceira.

– Pelo menos isso tá claro… se bem que, eu nunca a tinha visto por aqui… de qualquer forma, não faz muita diferença… Mas, como é essa história de irmã, de Marcus ter uma filha, e primo… que primo?

Seu Wanderley irritou-se e bateu a mão na cama.

– Acorde menina! Você vai deixar o “dotô” aí de joelhos?! Isso não importa! Disse prosseguindo com o biscoito.

Selma olhou pra baixo, a mão estendida de Leonardo segurando o anel.

– Levante-se Leonardo. Isso não é necessário, até porque não aceitaria seu pedido. Disse secamente. Voltando ao tio, prosseguiu: – Estou esperando, “tio”. Disse com entonação na voz nada terna.

Leonardo sentindo-se completamente excluído levantou-se sentindo imenso peso sobre si com o fora duro e indubitável. Ia sair do quarto quando o tio gritou:

– Nem pense em sair daqui, “dotô”! Sente aí no canto e espere que não acabamos aqui! Essa menina não sai dessa casa antes de aceitar seu pedido! E você, mocinha, eu não vou deixar você estragar sua vida segunda vez!

O ruído do biscoito sendo roído pelo tio, só irritava mais a Selma que via a personificação ainda pior, mil vezes pior e mais severa do pai diante de si, pensava em como tinha feito bem em se afastar do pai, ainda que pela opção errada, avaliava. Com aquela mastigação que agastava a sobrinha, prosseguiu:

– Você pensa mesmo que eu “num” sei que você tava “ ’rrastando asa” praquele jardineirozinho de araque? E ainda levando a mãe dele pra tomar chá com você, só porque ela lhe arrumou um lugar pra morar?! Você “num” precisa disso, menina! Case com o “dotô” aí que eu dou uma casa boa, aqui perto e aquela “rendinha” – disse irônico – do seu pai vai “cubri” sua ausência naquela creche! Só o que faltava! Ainda cuidando da bastardinha! Cadê seus brios, Selma?! Você é uma Wanderley, ora essas! “Ficá” bancando a boazinha, vá lá… mas daí a levar a filha da amante do seu marido pra dentro de casa! Tenha dó, menina!

O biscoito não parava e a mente de Selma revolvia enquanto parada, estátua, tentava colocar cada peça no lugar. O tio continuava desdenhoso:

– Você passar o tempo com a tia do garotinho, lá, ainda eu entendo… “mulé” distinta… e pelos preços daqueles quadros… “num” deve ser um mau pedaço… Mas, voltando, você me entendeu, sobrinha? Aquele Tales é primo do salafrário do Marcus. A mãe dele, tia do outro, tá lá, passando a mão na cabeça dele porque a vigarista da bastarda da filha da índia com seu pai, “tentô” dar conta da vida dele e a irmã dela, empregada da tal da Mércia, “num dexô”. “Divia de tê dexado”.

Quando seu Wanderley começava a se agastar e bancar o rei do mundo, as raízes do sotaque começavam a aflorar e só iam piorando. Selma, esfregando as palmas das mãos suadas nas pernas das calças cáqui, como de hábito quando ficava nervosa, pensativa, moía tudo aquilo muda, o que só deixava ainda mais aflito ao médico que parecia uma criança de castigo, sentado no canto da sala, conhecia bem o paciente que quando começava… Estava na cara que a sobrinha era mesmo sobrinha, pensava Leonardo, via-se nas faces, que coravam com a raiva se apoderando, de quem não admite ser dominada, que se intrometam na sua vida, decisões. Lembrava do jovem na floricultura, associou imediatamente a figura ao caso em questão, viu que definitivamente ele estava sobrando ali, não fosse a necessidade de acudir a um dos dois topetudos que a qualquer hora podiam ter um AVC de raiva e aquilo não ia nada bem pra saúde do velho, que quando mais percebia que irritava a sobrinha, mais aproveitava pra destilar que ele tinha domínio de tudo, que nada lhe escapava, pior, que era o dono da razão! Definitivamente, os Wanderley eram ótimos em deslizar do mais gentil ao mais envinagrado trato em segundos, não importava a reação alheia. Selma provava do veneno que infligira por tantos anos aos outros… O tio era mil vezes pior que o pai, ainda mais que ela. Não poupava, não calava, ao contrário, aproveitava pra pisotear a miséria alheia com aquele tom irritante de “eu sei do que estou falando”. Ao perceber que a sobrinha estava à beira de retribuir no mesmo tom, mudou a voz, mais calmo, conciliador, até o sotaque foi sumindo.

– Largue de vez aquela criança, Selma! Você “num” precisa disso, pode ter filhos seus com o doutor ali… Esqueça o tal do Tales, não é homem pra você… sua vida pode melhorar tanto! E eu… eu preciso de você por perto, minha filha, minha saúde não é a mesma…

– Como você conseguiu todas essas informações?

O tom de desdém voltou com tudo.

– Com dinheiro, minha filha, a gente pode tudo! Disse triunfante.

Selma caminhou até a direção do médico que não fazia idéia de qual seria a reação dela e ficou esperando qualquer coisa.

– Leonardo, por favor, devolva àquele senhor o anel dele. Eu não quero nada daqui. Você pode me levar pra casa?

– Claro Selma! Disse olhando rapidamente pro doente, esperando consentimento, que veio pela virada de cabeça do velho que com a postura da sobrinha, sentiu-se fracassado.

Tudo aquilo foi encarado por Selma como uma leviandade do tio, para massacrá-la, nada respondeu. Saíram dali e chegaram ao sobrado sem uma palavra de Selma, não que faltassem tentativas do médico, mas, o máximo que conseguia eram resmungos monossilábicos. Leonardo entendeu que nada conseguiria àquela hora, mas, se voltasse à sua tática, talvez ainda conseguisse não perder a amizade e a confiança que a moça lhe depositava, afinal, ainda confiou nele pra pedir que a levasse pra casa, ponderava, com toda a história que seu Wanderley soltou sobre a família de Tales, ainda que este contasse com o afeto de Selma, analisou, as coisas estariam no mínimo abaladas. E nesse ritmo ele a deixou em casa, abraçou-lhe ternamente e afagando seus cabelos sorriu em despedida.

– Não pense duas vezes em me ligar se sentir vontade, não importa a hora, não importa se for só pra conversar, não importa nada, viu? Ainda que na hora eu esteja costurando alguém – riu – eu retorno pra você assim que puder. Até mais.

Beijou-lhe a testa e Selma abaixou a cabeça em sinal de concordância com a proposta afável. De fato, nos dias seguintes os ouvidos atenciosos e a companhia amiga de Leonardo seriam requisitados.

– Obrigada, você é um bom amigo que aquele velho não merece ter.

Leonardo não respondeu. Seu Wanderley continuava sendo seu “adotado” pai e a confiança em ter lhe entregado a sobrinha em casamento sem cerimônias, o fez sentir ainda mais querido pelo velho. Não podia integrar-se à raiva presente da moça. Saiu.

Dessa forma, no dia do fim do circuito de mostras de Mme. Petra, encontrar Tales de braços dados com uma moça que se declarava amiga de Selma, só podia lhe dizer uma coisa: juntos não estão. A saúde de seu Wanderley só piorara depois da discussão com a sobrinha e os sinais lhe estavam tão baixos que rogou a Leonardo que fosse buscar Selma pra se despedir e que ela aceitasse o anel de família que lhe encomendara como sinal de seu amor tio-paternal.

A culpa na cabeça de Selma fez o resto, a fez abraçar Leonardo em desespero, agarrar o anel, sair puxando-o pra verem o mais depressa o tio, não podia deixar o seu último parente morrer como o pai: brigado com ela. Além do quê, não bastavam as notícias que o tio dera, que primeiro revolveram em raiva, em acusações solitárias à d.Mércia, a Tales, a Marcus, considerava anulada de vez a possibilidade de adotar Júlia, revertera todo o ódio sobre as ações da meia-irmã na pequena, não podia nem sequer imaginar o que faria se tivesse a tal irmã frente a frente e d.Mércia sabia de tudo e nada lhe tinha dito! Com certeza tinha sido ela que informara a diretora sobre o histórico familiar da menina, querendo envolvê-la em ainda tomar parte daquele teatro horroroso, o que explicava aquelas intermináveis conversas sobre perdão, amor ao próximo e tudo mais. Oscilava entre o desprezo e a saudade dos bons tempos que passara com a pretensa sogra. E Tales? Bem, a atitude de Marcus com ele naquele dia dizia ao menos que não se davam bem ou teriam confabulado juntos pra rirem dela.  Ah! O coração ferido doía e amava, mas resolveu que ia colocar a máscara e continuar com suas responsabilidades com Mme. Petra, ao menos, em todas as verdades que o tio tinha dito, ela estava isenta. E ainda queria encarar uma vez o florista, ver nos seus olhos se descobria a razão do sumiço, que agora podia ser que de fato, houvesse um mal estar entre os primos ao ponto dele ir embora…

O que o tio não tinha dito era que Marcus, tinha integrado o ninho Marine a pouco tempo, que as notícias tinham sido súbitas. A falta de confiança na alma de Selma, que d.Mércia demonstrara, teria só piorado a confusão em que se afundou o que explica o desprezo atribuído ao bilhete da senhora.

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“Vou cuidar da minha família, d.Mércia, como a senhora cuida da sua” pensou categórica como quem tem certeza que quer esmagar o inseto já morto sob os sapatos. Viu a luz da secretária eletrônica piscando, ligou:

– Selma, é Débora. Mudei às pressas pra Europa. (risos) Novo amor, nova paixão, transferência da empresa. Me manda email. Ah, Ricardo vai cuidar dos seus assuntos agora, passei pra ele. Beijos.

Selma comprimiu os lábios em raiva, o recado parecia declarar verdadeiras as afirmações recentes do tio que teve que deglutir em silêncio:  “Sua “melhor amiga”, a advogada, está com “seu amor” na Europa desde o dia em que você a levou pro seu trabalho… que belas peças lhe cercam!” Resmungara seu Wanderley, sentindo o fel da própria atitude, porém sofrendo pelo que a sobrinha passava, mas se era pra tê-la longe, ao menos, que ela fosse ciente de tudo, pensava.

“Vou checar tudo”, pensou paciente. Seguiu pra próxima:

– Selma, por favor, ligue pro escritório. Preciso de uma procuração sua pra continuar as atividades, a audiência com Marcus já foi marcada. Ricardo.

“Tudo que eu precisava agora… será que isso não acaba nunca?!” Resmungou.

Novo Beep:

– Selma, é Petra. Eu notei que algo aconteceu na última noite, vi você saindo apressada e chorando com o rapaz de branco. Me diga o que aconteceu. Seu pagamento está depositado, mas quero acertar novos pontos com você. Preciso do seu trabalho e tenho outras coisas que queria falar antes de viajar. Só eu e você. Tales já voltou pra Europa… não esqueça de me ligar assim que ouvir isso.

Ao menos essa notícia precisava ser conversada, não estragaria seu futuro por conta de todas aquelas pessoas. E o comentário da marchand sobre Tales ter viajado somava fator comprobatório sobre ele e Débora. Que ele, ela, Marcus, a tal irmã, a sobrinha-quase-enteada, a creche, tudo saísse de sua vida, ia provar pro tio que não precisava de esmolas, de pena, de família, de nada, que podia dar a volta por cima sozinha, estava ao leito dele todos aqueles dias, mas no íntimo não perdoara o tom que o tio usou pra tentar impor-lhe a vontade, puro orgulho, já que a simpatia que adquirira desde o primeiro instante que falara com ele no vernissage, não tinha fincado raízes profundas nela ao ponto do perdão imediato. Mesmo doendo ouvir que seu amado tinha ido embora, novamente e agora acompanhado, pensou: “De que outras provas eu preciso de que nada significo pra ele?” Foi tomar um banho, trocar de roupa. Ao menos, precisava revigorar as energias… uma coisa o tio tinha razão: Leonardo de fato cuidava muito bem dela, buscava agradar-lhe em tudo, por que não devia se dar uma chance? Avaliou.

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Algumas horas depois, campainha toca. Era Ricardo, terno e gravata, pasta na mão.

– Desculpa a invasão, Selma. Peguei seu endereço no arquivo. Preciso acertar logo com você, a audiência será a dois dias.

Fez menção pra que ele entrasse e se acomodasse no sofá.

– Toma algo, Ricardo? Posso lhe chamar de Ricardo?

– Sim e sim. Eu ainda me considero jovem. Gracejou.

Selma mediu o rapaz alto, magro, mas sem ser desengonçado, cabelo arrumadinho, dividido sobre a sobrancelha à esquerda, óculos elegantes, voz firme, a visita do advogado não poderia ter vindo em melhor hora, pensou. Estendendo o copo d’água que ele aceitou, envenenou:

– Me diga Ricardo, por que Débora sumiu assim de repente?

O rapaz ficou desconfortável, ajeitou-se no sofá, era evidente que o assunto perturbava-o.

– Não costumo falar dos meus colegas de trabalho, Selma. Ética profissional.

Selma riu. Era ridículo que ele preferisse ser pisoteado por aquela pirata a crucificá-la, jogando todo o ciúme e raiva que devia estar arrebentando-o dentro daquele terninho engomado.

– Não estamos falando da sua colega, dr.Ricardo, falamos da minha amiga, que sumiu enquanto eu cuidava de um parente doente.

– Ah, por favor, Selma, não seja maldosa. Desconheço qualquer problema que possam ter tido.

– Ricardo, eu vou dizer porque eu insisto no assunto. E não, não temos nenhum problema, eu descobri recente que tinha um tio, não comentei com ninguém, ele agravou a doença que tem e o desespero me isolou do mundo, dediquei-me exclusivamente só a ele esses dias. Como deve ter notado, eu estava incomunicável… Voltando: Não houve dia mais radiante pra Débora do que o posterior à festa de sócios, quando vocês foram “elevados” de cargo, por assim dizer e… não era por se tornar participante da firma… Depois, ela fez a idiotice de voltar pr’aquele ridículo do Fábio, o ex-noivo, por medo de se entregar a algo mais forte do que já experimentara, mas, viu que a vida não estava ali. Veja bem, Ricardo, Débora é minha amiga – quase engasgou nesse ponto, a “amiga” tinha fugido de braços dados com seu amor – e o que mais quero é que ela seja tão feliz ou mais do que a madrugada e o dia que esteve com você. Ela me contou, não precisa ficar tímido. Disse levantando-se pra não intimidar o rapaz que ficava corado, dividido entre raiva e alegria.

– Por que ela foi embora, então, Selma?! Não entendo…

– Débora é uma covarde, Ricardo. Tem medo de ser feliz. E aposto que essa ida pra Europa foi mais uma fuga… diferente do que viveu com você… aquelas sim, foram emoções sinceras.

“Essa vigarista ainda vai me dever a felicidade dela!” Pensou vingativa.

– Eu, ah… não sei… não entendo.

Selma aproximou-se de Ricardo, segurou-lhe o queixo, como se faz a uma criança, procurou o olhar mais doce que tinha pra aplicar ao moço e deu o tiro de misericórdia:

– Você vai deixar que outro bon vivant roube a vida da Débora só porque você não tem coragem de ir atrás do amor que está emoldurado nos seus olhos, cherry?

Soltou o queixo dele suavemente, como a ternura da mãe que afaga o filho machucado, cada palavra saiu pensada, calculada, armada, disfarçada e estava óbvio que aquela alma cheia de música clássica e livros era completamente inocente das vilanias que uma mulher é capaz quando ferida. Selma não pensava momento sequer que nunca tinha confidenciado seus sentimentos à Débora, ainda assim, a outra não tinha o direito – argumentava pra si mesma – de denegrir sua imagem com a tia do rapaz, justificava seu ódio. Serviu uns bombons de chocolate que Ricardo pegou automático como quem processa a emocionante informação recebida, ainda em nuvens, saboreou o doce como quem sentia “salvar sua princesa” das garras daquele “aproveitador”. Ricardo nada sabia da vida de Tales, mas pelas manchetes, era um playboy que só destruía corações, imaginava. Selma não raciocinava um minuto em que podia estar criando problemas pra Tales, que Ricardo pudesse ter alguma atitude impensada, pouco importava, olhava pro advogado e concluía que era um banana que se deixava enredar pela carinha ingênua de Débora, aquela carinha que todos se rendiam… Quem além dela e da própria advogada sabiam que na verdade, nunca se devia colocar uma oportunidade nas mãos da amiga? Que ela usaria, manipularia, venceria, como a única coisa que sabia fazer na vida: conquistar e dominar, pra se sentir mais viva do que a existência lhe proporcionava. A sorte de Fábio – pensava – era ser impassível a esse controle de Débora e que era muito bem feito que ela fosse completamente enlouquecida por ele, que na verdade, o que a prendia era o fato dele ser imune ao poder dela de submeter as pessoas à sua máscara de candura.

– O que eu devo assinar? Perguntou Selma, enlaçando a questão.

– Ah, sim… pegue. Abriu a pasta enquanto a moça ria intimamente que alcançara seu alvo, Ricardo estava completamente envolvido e dominado pela idéia de bancar o príncipe. Só bastava trabalhar um pouco mais pra inserir de uma vez a resolução que o moço precisava.

Assinou, despediram-se.

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Dia da Audiência. Sem dizer palavra, Selma encarou friamente e com desprezo a Marcus, assinou tudo, não questionou ou vociferou coisa alguma, impassível. O tal domínio que o sentimento de vingança lhe dava impôs-se tão forte que o ex-marido ainda tentou arrumar confusão, sem sucesso, calando-se obediente à soberania que ela exalava. Terminados os protocolos, Selma jogou os papéis assinados à frente dele, dizendo:

– Faça bom proveito, Marcus e NÃO ESQUEÇA DE SUSTENTAR SUA FILHA QUE ESTÁ NO ORFANATO E DE CUIDAR DA SUA MULHER ATORMENTADA, pelo que eu soube, vocês devem estar mesmo precisando desta miséria, não vá perder tudo com outras amantes.

Cada fonema saíra frisado. Virou e foi-se, deixando o juiz, Marcus, seu patrono, boquiabertos. Ricardo se segurava pra não rir da expressão geral enquanto abria a porta pra sua cliente sair, ela, percebendo o que causara a Ricardo e que os olhos sob os óculos penetraram furtivamente o decote vermelho proposital, emendou:

– Pode fazer a gentileza de me levar pra casa, senhor advogado? Gracejou.

Nem de longe, tinha interesse em despertar olhares de Ricardo pra ela, ficava agastada com essa mania masculina – diferente de Tales, que fugia os olhos se ela usava uma camisa mais ousada, shorts mais curtos – mas a percepção do olhar dele ao decote, era a verdade que ela tinha notado, deixou-o constrangido e desarmado pra receber qualquer sugestão dela, sem enfrentamentos, como a desculpar-se pelo “mal entendido”.

– Tire os olhos, doutor, não fica bem. Disse séria. Pronto! Agora ele estava rendido absoluto com as palavras dela, tudo faria pra desfazer a situação embaraçosa.

O que Selma se esforçava pra ser uma boa cristã se revelava muito mais forte quando esquecia os ensinamentos do Evangelho, de Kardec, as reuniões passadas no Centro Espírita – que já não freqüentava a despeito de d.Mércia, a traidora, como chamava – e passava como avalanche sobre todos, esmagando, fria, congelante, sem alma.

No caminho, sem muita conversa, o constrangimento do advogado que mal ousava olhar pra ela a mantinha com uma pose de diva, como se o mundo devesse ladrilhar-lhe o caminho. Falou assertiva:

– E quando você viaja?

– Como? Assustou-se o rapaz.

– Não me diga que você vai mesmo perder a chance de viver o “amor da sua vida”.

– Ah, Selma, não sei… afinal ele não a forçou a viajar.

– Ele a embriagou, Ricardo. Eu estava lá, eu vi.

– Como?! Disse irritado.

Um largo sorriso abriu-se na alma da moça. Não tinha tempo pra torturas menores, precisava encerrar o assunto o quanto antes.

– Bem, existem algumas vantagens em ser amiga da sua amada, sabia? Gracejou estendendo-lhe uma passagem aérea.

– O que é isso, Selma? Você não…? Você não pode!

– Calma, cherry, calma… não se preocupe. Apenas aproveitei as milhas acumuladas que Débora havia me dado, está aí, como um grito de socorro da sua querida. Pegue.

Nisso, estacionaram, haviam chegado. Saiu do carro evitando que Ricardo se demorasse, falou-lhe pela janela:

– O Vôo é em duas horas. O boy da empresa, que me conhece, fez reserva de hospedagem pra você, falei que Dra.Débora estava irritada porque não conseguia localizá-lo pra que marcasse a viagem, o hotel e tudo mais pro dr.Ricardo que precisava entregar documentos urgentes pra ela, então me pedira pra resolver isso e que ele retornasse pra secretária dela dizendo até que horas deveria esperar pelo sócio.

Ambos riram.

– Eu nunca teria pensado nisso.

– Eu sei, cherry, por isso que você vai me agradecer quando voltar. Dica: leve os chocolates preferidos dela, compre um vinho no caminho do aeroporto pro escritório. Cheque seu email antes de embarcar. O boy vai mandar as informações sobre o carro que vai lhe buscar, a reserva do restaurante. Aqui, tome, neste papel estão as marcas do chocolate e vinho que ela gosta, compre rosas, ela ama rosas (blargh!) – riu – e… vamos ver se estou esquecendo algo… ah claro, considere pago meus honorários depois dessa. Riram.

– Obrigado Selma! Obrigado mesmo!

– Não a mim, ao escritório que vai custear tudo isso graças ao cliente super-hiper-vip que vocês vão tentar angariar… Sorriu e piscou em sinal de entendimento do pretexto pra conseguir toda essa movimentação.

– Já vou pensar em arrumar um bom contrato pra justificar voltar ao Brasil sem um cliente novo… Riu.

– Ou arrume um no avião! Nunca se sabe… Bem, se eu lembrar de mais alguma coisa, eu lhe mando um email.

Subiu para o sobrado confiante, plena, em êxtase! Conseguiria livrar com golpe de mestre seu amado da amiga: Já havia contatado a secretária de Débora com a notícia que dr.Ricardo ia chegar no vôo tal, hora tal e tinha uma notícia muito importante e grave da família dela, então, que arrumasse uma desculpa mas não deixasse que a advogada saísse do prédio antes do sócio chegar, nem alardeasse nada, pra não preocupar antes da hora a chefe, era imprescindível pra saúde dela que nada fosse adiantado e que ligasse pra Sr.Tales pedindo que se dirigisse pra lá, que chegasse uns dez minutos depois de dr.Ricardo, porque seria muito bom que Débora pudesse contar com o apoio do namorado – odiou essa palavra – num momento como aqueles. A contratada já temerosa e conhecendo o temperamento da chefe, seguiu passo a passo as instruções da “melhor amiga”.

“Essa pirata ainda vai me dever esse dia da vida dela! Que nem pense em me convidar pra ser madrinha! hunf!” enquanto dizia isso de si pra si, uma voz ecoou-lhe na alma: “E Tales, Selma? E Tales?”

Um leve peso na consciência apoderou-se dela, mas era tarde, desligou-se, era o mínimo que ele podia receber por ter sido tão covarde em não falar-lhe abertamente o que se passava! E que fosse grato por ela ainda amá-lo!

Com gratidão ou não, era impossível que deixasse de amá-lo. Largou-se na chaise, mão esquerda no ventre, direita na testa que queimava tamanha excitação de planos. “Tudo tem que dar certo!” Ficou vibrando em tal intensidade nesse pensamento que adormeceu.

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Débora estava de costas quando um vento frio adentrou a sala, virou-se e tal não foi o susto:

– Ricardo?!

– Débora, não fuja mais. Chega de perder tempo, chega de enganar-se  – falava aproximando-se passo a passo, cerceando-a contra a mesa. Eu te Amo mais do que qualquer outro poderia, se você quiser ficar aqui ou voltar pro Brasil, pouco importa, eu ficarei com você e não deixarei que nada mais nos afaste!

Rosas numa mão, bombons na outra, vinho também, largou tudo sobre a mesa junto com o paletó, envolveu-a e lhe deu um beijo quente, longo, a que ela se rendeu completamente, era o tipo de cena que ela secretamente queria, sentir-se de tal forma amada que alguém fosse capaz de atravessar o Atlântico pra buscá-la e tirá-la daquela insanidade. O desprezo que Tales discretamente lhe infligia, o descaso, estavam minando sua alma, com ódio por ter se deixado levar pela bebida e ter sido inconseqüente nas escolhas. Aquela de certo não tinha sido a vingança mais doce que poderia infligir a Fábio, que já sabia, estava de casamento marcado com uma herdeira industrial. Apesar da chance de trabalho, Europa era pra passeio, frio demais, francês demais, nada ali lhe parecia o romantismo que esperava, ainda mais com o sobrinho da marchand enfiado em projetos e mais projetos, sempre sem tempo, sem telefonar se ela não ligasse, enfim… e não tinha cara pra voltar “com o rabo entre as pernas” para o Brasil como uma fracassada! Aquela era a salvação pra sua vida, profissional e amorosa! Sabia que Ricardo ia arrumar um pretexto bom o suficiente pra que ela pudesse desculpar-se com os demais sócios. Num lampejo tudo isso lhe ocorreu, abraçou a sua tábua de salvação demorando ainda mais no beijo que não ouviu a maçaneta girar. Tales chegara, silencioso, como de seu feitio, abrira a porta e vira a cena. Os dois enamorados terminaram o beijo fitando um a outro nos olhos, com um sorriso dos céus, quando Débora deu-se conta do vulto à porta:

– Tales?!

– Eu tinha vindo aqui mesmo pra dizer-lhe isso, Débora.

– Como assim?!

– Foi um erro, Débora, não fez nenhum sentido pra mim, em nenhum momento, graças a Deus esse rapaz veio me resgatar desse buraco negro.

Dando um tapinha nas costas de Ricardo:

– Boa sorte, campeão. O problema não é ela, sou eu, que queria ter a sua coragem pra ir até a mulher que eu de fato amo.

Baixou os olhos por um momento, deu de costas, ergueu a cabeça sorrindo como a “providência divina” tinha livrado-o do fardo de sua precipitação! Deveria ter aquela coragem, pensou, “deveria…”. Baixou novamente os olhos no elevador, suspirou, elevou-os e disse pra si mesmo ouvir:

– Deveria…

Apertou o botão pro térreo, colocou o casaco, mão nos bolsos caminhou pelas ruas francesas como se pudesse respirar depois de longo tempo sob águas pesadas. Aquelas duas semanas foram-lhe martírio, não tinha mais desculpas pra dar evitando a advogada que lhe parecia extremamente pedante, com os insistentes pedidos de shoppings, lojas, teatros… Entendia sua sede pelo Velho Mundo, curiosidade de turista, mas, definitivamente ele não tinha nem talento, nem paixão que o fizesse bancar o guia. Tinha era um calor no peito, a saudade apertava da sua terra, das suas flores, de sua Selma que – imaginava – deveria estar odiando-o depois das notícias de sua “fuga” pra Europa com a melhor amiga… Sentia-se um crápula. Não tinha sido muito diferente de Marcus em seu juízo. E do que importava Marcus agora?! Tinha o médico… o quê afinal aquele médico tinha ido fazer ali naquela noite? Ouvira apenas um breve comentário da tia, com a mãe, que cessou quando o viram próximo: “…ela só agarrou qualquer coisa que ele segurava e saiu apressada, puxando-o, com olhos encharcados de lágrimas…”

Como estava Selma era a dúvida que lhe afligia agora. Já nem lembrava Débora, ou escritório ou beijo… nem se sentia traído, nem nada, nem o alívio de entregar aquele fardo lhe dava paz, sua paz estava em Vila Roseta, se ainda estivesse…

Enquanto isso, piscou email novo no computador que Selma deixara ligado. Abriu:

         “Obrigado! Tudo certo! Ricardo”

Sorriu e voltou a se esticar na chaise, olhou o quadro de Tales de relance e disse em voz alta:

– Você me deve essa, garanhão!

Sorriu e fechou os olhos pensando que grandes emoções nos últimos dias havia tido:  Menos Marcus, menos Débora. Menos a briga com o tio. Menos a creche, menos Júlia. Isso lhe dava um leve aperto, mas estava decidida. Apertou o botão do controle do som, era só relaxar agora.

         “Aquela biscate ainda me deve a alma dela pra ser feliz e estar em plena pseudo lua-de-mel num restaurante francês essa hora…”  

 

 

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