Cap 16 – O Coração como uma Terra de Faroeste


         – Definitivamente Fábio, foi um erro.

– Ah, Débora, me poupe! Você acha que eu não sei que você gosta de me exibir? O que você é afinal? Uma advogadazinha que talvez tenha talento, mas não tem status, veja só…

– Como?! Eu cheguei aonde cheguei graças ao meu trabalho! Hoje sou sócia de uma firma boa de advocacia e você seu vagabundo?!

– Vagabundo?!

– Sim, encostou-se a vida toda em papai e mamãe, não soube aproveitar tudo o que podia pra crescer, pra ter uma profissão e ainda acha que tem dezoito anos! Olha pra você, Fábio! Vê se cresce! Você ainda fica em jogos, apostas, conquistas pra quê?! O que você ganha? Nada! Sabe por quê?! Porque é um perdedor nato! E é o que você fez pela segunda e última vez:  Perdeu! Me perdeu, ouviu bem? Basta, Bastos!

– Se é assim… azar o seu, minha querida! Ou você acha mesmo que não tem outras mulheres que adorariam minha companhia, meu nome e ainda pagariam por isso bem melhor do que você?!

– Então, foi isso, hein?! Eu “paguei” pela sua companhia… Bom saber disso! Devia ter exigido nota fiscal pra poder devolver o produto defeituoso! Agora vai embora Fábio Bastos que você não tem dinheiro pra pagar meus honorários então, me economize que eu não sou uma advogada de caridade! Vá! Não perca o meu tempo, vá!

Fábio saiu espumando de raiva. Bateu o portão da casa de Débora onde terminara de deixá-la de volta da viagem. Ela correu pro quarto com as mãos no rosto pra chorar sozinha a lembrança de encontrar Fábio aos beijos com uma turista no quarto deles do hotel enquanto ela fechava a conta da hospedagem. Tinha notado sim que ele paquerava umas, flertava com outras, mas enquanto não era escancarado, ela podia tolerar, até pelo menos o fim da viagem, depois, quando voltassem, marcaria logo o casamento pra ter como “colocá-lo na linha”, imaginava. Débora insistia em mudar o “imutável”. A natureza não dá saltos, não tem como querer dominar alguém ou tentar modificá-lo se a vontade deste não for imperiosa pela mudança. Fábio tinha imenso prazer em ser quem era, queria o conforto do dinheiro de Débora, via que ela ainda alcançaria muita coisa na vida e ele a manipulava a bel prazer, como a um joguete. Qualquer coisa nele tinha tal fascínio sobre ela que não lhe importava o que era, apenas aproveitava-se disso. Ele a provocava sendo íntimo ao falar com outras mulheres em sua presença, mas ela fazia questão de “ser superior” e ignorar, ele não entendia como alguém tão cheia de si, podia se rebaixar àquela situação, tanto melhor pra ele! Isso era o visto pra que ele continuasse abusando dos sentimentos dela. Amava-a? Alguma vez a tinha amado? Fábio não fazia idéia e achava desnecessária completamente essa ilusão chamada amor, como cria. Importante eram entrar em consenso. Não fosse a apresentação do seu pai sobre ela naquele escritório onde eram clientes, ela não teria como ter se desenvolvido, então, era mérito dele! Acreditava. Tinha “direito” sobre as conquistas dela. Débora não fazia idéia dos pensamentos sórdidos do rapaz sobre si, sobre ela, sobre tudo, se negava veemente a enxergar o que a magoaria ao âmago. Aquela hipnose que ele detinha sobre ela, da qual no fundo não queria se desvencilhar, sendo completamente envolvida por ele, pelo charme que lhe impunha, pela sedução que lhe arrastava, pelo charme sobre corações como o dela: um coração inseguro do próprio poder.

Trancada no quarto, desligou celular, fechou as janelas, persianas, tudo. Queria se isolar até que se sentisse melhor. Sabia o tempo todo quem ele era, mas se negara a ver isso e mesmo com os avisos de Selma, ela insistiu… Ligou o cd player na música do Roupa Nova que sempre ouvia quando precisava ter forças:

 

Coração Pirata

(Nando – Aldir Blanc)

Quando a paixão não dá certo / Não há porque me culpar / Eu não me permito chorar / Já não vai adiantar / E recomeço do zero sem reclamar / O meu coração pirata toma tudo pela frente / Mas a alma adivinha / O preço que cobram da gente / E fica sozinha… / Levo a vida como eu quero / Estou sempre com a razão / Eu jamais me desespero / Sou dono do meu coração / Ah! O espelho me disse / Você não mudou… / Sou amante do sucesso / Nele eu mando, nunca peço / Eu compro o que a infância sonhou / Se errar, eu não confesso / Eu sei bem quem eu sou / E nunca me dou! / Quando a paixão não dá certo / Não há porque me culpar / Eu não me permito chorar
Já não vai adiantar / E recomeço do zero sem reclamar / Quando a paixão não dá certo / Não há porque me culpar / Eu não me permito chorar / (Já não vai adiantar) / E recomeço do nada sem reclamar / As pessoas se convencem
De que a sorte me ajudou / Plantei cada semente / Que o meu coração desejou
Ah! O espelho me disse / Você não mudou / Sou amante do sucesso / Nele eu mando, nunca peço / Eu compro o que a infância sonhou / Se errar, eu não confesso / Eu sei bem quem eu sou / E nunca me dou! / Quando a paixão não dá certo / Não há porque me culpar / Eu não me permito chorar
Já não vai adiantar / E recomeço do zero sem reclamar / Quando a paixão não dá certo / Não há porque me culpar / Eu não me permito chorar / Já não vai adiantar / E recomeço do nada sem reclamar / Faço porque quero, estou sempre com a razão / Eu jamais me desespero / Sou dono do meu coração
Ah! O espelho me disse / Você não mudou! / Você não mudou! / Não mudou…

 

A música dizia bem como era aquela alma: conseguia o que queria acreditando em si mesma e as coisas funcionavam assim, exceto pra essa terra desconhecida que é o coração. A luta interminável nas almas que acreditam que a razão move tudo é facilmente vencida, ainda que novamente a razão se levante com todo seu ímpeto pra dominar os índios selvagens que representam os sentimentos nesse faroeste. A razão vem pra dominar, mas o grande conhecimento dessa terra está no instinto, nos sentimentos e quando eles aparecem, derrubam rapidamente porque conhecem cada dobra, cada curva, cada pedra, cada árvore dessa terra desconhecida. O ideal é que nativos e conquistadores convivam em harmonia, cedam no que não podem lutar contra, aceitem o que desconhecem pra que se possa colher o melhor dos dois mundos. O fato de ser desconhecido ou não ser aceito não anulará a existência do que se despreza, do que se quer manter longe, ao contrário, funciona como alimentador dessa força estranha que é a busca interminável do ser humano pra amar e ser amado.

……………………………………………………………………………………..

 

Fim do dia. Débora estava quase inteira:  tomou um banho, maquiou-se, pegou umas peças de roupa, sapatos e seguiu com o carro pra Vila Roseta.

– Nossa! Que surpresa!

– Vamos, Selma, não me enrola. Pra onde nós vamos hoje?

– Vamos? Como assim?

– Sim, hoje é dia de sair e aproveitar a vida, a liberdade, e tudo mais.

– Bem, se você quiser aproveitar enquanto eu trabalho… Hoje é a última mostra do circuito de Mme. Petra, quer?

– Serve. Depois arrumamos algo pra amanhecer, que tal?

– Nossa! Esses pés estão implorando pra fechar uma “disco” hoje, é? Disse sorrindo.

– Por aí… A não ser, claro, que haja companhia masculina mais interessante entre seus quadros! Disse astuciosa.

Selma sabia bem o que tinha diante de si:  Certamente a viagem não saíra como imaginado, mais uma vez a coisa tinha degringolado com Débora e Fábio e ela entrara em uma fase autodestrutiva pra esquecer a situação. Não era hora de conversar, tinha que deixar a outra gastar toda a explosão que estava dentro de si pra que pudesse ouvir. O que a assistente da marchand não podia imaginar é que o choque entre dois átomos carregados de energia pode criar o inesperado…

Arrumaram-se. Seguiram. Tudo começou como normalmente, tudo transcorria como o previsto, não fosse o que viria a seguir: a chegada de Mme. Petra, com Tales acompanhando.

Aproximaram-se e a comerciante fez as devidas apresentações, uma vez que se lembrava de Débora.

– Boa noite, meninas! Débora, não é? Lembrei seu nome?

– Sim, Mme. Como vai? Belo evento, hein? Parabéns.

– Deixe os parabéns pro final e pra sua amiga que tem sido meu braço direito e me deixado aproveitar mais a minha família brasileira. A propósito Selma, se você lembra de Tales… É meu sobrinho. Nós prezamos pela discrição quando trabalhamos juntos, mas já que por motivo desconhecido ele resolveu me abandonar…

– Que é isso, tia?! Por acaso, você mesma não passou boa parte das suas responsabilidades pra sua assistente? Por que eu não poderia fazer o mesmo?

A frase saiu venenosa e Selma sentiu a flechada sob as costelas do Cristo com o tom de voz do rapaz ao chamá-la “assistente” ao invés do nome. Entendeu na hora que não podia ousar – apesar de querer – ser mais íntima com ele, como quando estavam a sós, cuidando do jardim. Um rápido pensamento lhe ocorreu:  “Meu tio está certo… lamentavelmente…”. Era como se os bons tempos entre eles não fossem voltar nunca e ela chorava intimamente não tê-los aproveitado mais… A situação poderia ser completamente diferente se ela… Bem, o que poderia ter feito?

Tales foi completamente formal com Selma, de uma formalidade que chegava a doer, frases curtas mas com toneladas de peso, como se ela o tivesse ofendido profundamente. A moça catou todos os brios que tinha e se manteve numa postura educada, discreta e duvidosa entre aproveitar a primeira oportunidade pra se desculpar pelo que fosse – e queria saber o que era – ou aceitar o comportamento dúbio do rapaz. “Mais fácil isso ser a melhor desculpa que ele encontrou pra não ter que explicar seu sumiço… nem me fazer interrogar pelo lírio, por estacionar em frente à minha casa e nada dizer!” Pensou agastada. Não seria muito mais fácil que dissesse o que estava acontecendo? Não podiam sair dali felizes e de braços dados ao invés do clima que se instalara?

Mme. Petra chamou Selma para ver alguns assuntos e tudo o que a moça não podia imaginar era o que se seguiria.

Ainda no hall do salão principal, Débora e Tales travavam alguma conversa, ela completamente elevada já pelo champanhe, animada, alegre, radiante ao melhor modo etílico, sem ser vexatória. Fazia Tales dar risada. Fazer uma pessoa rir é um dos primeiros passos de uma conquista, se a situação estiver favorável – e no caso estava quase totalmente e seria decidida com o próximo ato –, o sorriso é a confirmação de que você pode continuar e a advogada percebeu isso quando o sobrinho da marchand estancou quando os olhos foram de encontro ao convidado que acabava de chegar. A ocasião pedia smoking e dr.Leonardo ficara uma presença indisfarçável com o modelo branco que usava. Na cabeça de Tales, era como se o médico quisesse exibir e parecer superior em sua profissão. Parecia-lhe óbvio o que significava a presença do “concorrente” ali. Leonardo por sua vez, mesmo lidando com muitas pessoas todos os dias, era ótimo fisionomista, notou Tales que o encarava sisudo, a moça que “o acompanhava”, como supôs e Débora se fazia parecer, afinal, não era apenas o belo porte do sobrinho da marchand que chamava a atenção, mas a qualidade que o sangue lhe proporcionava na ocasião e ela não deixaria de ser vista no jornal do dia seguinte como parceira da noite do rapaz, o que inevitavelmente seria um tapa em Fábio Bastos. Aproximou-se o médico de ambos:

– Então, você é o Tales, sobrinho da Marchand Tableaux que gerencia o evento? Selma falou que provavelmente teria sido você quem me orientou na floricultura outro dia. Parabéns e obrigado! Sua sugestão caiu como uma luva!

O sorriso do médico não poderia ter sido tomado de outra forma a não ser como uma bela bofetada ou provocação nos ânimos do florista, que ficou ainda mais azedo interiormente.

– Ah, então você é o cara da floricultura? Atalhou Débora para o rapaz.

Tales, mudo, alternava o olhar entre seus interlocutores e o chão. A essa altura, a advogada já se apropriara do seu braço, ato que ele deixara, meio desinteressado, mas deixara.

– Sim, ele é ótimo! Acertou em cheio o que agradaria Selma.

– E você conhece a Selma? Prazer; sou Débora, amiga e advogada de Selma e não se surpreenda em como ele acertou:  trabalhou um bom tempo no jardim da casa dela, inevitável não saber o que a agradaria.

– Leonardo Sevilla, médico e “procurador” de Selma – falou rindo.  Notando que aquilo tudo trazia desconforto a Tales e juntando ao episódio da floricultura, não foi difícil que o médico desconfiasse que algo ligava o rapaz e Selma, mas considerava a atitude da jovem, amiga da sobrinha do seu “adotado” pai que forçava mais intimidade com o florista do que este demonstrava acolhimento. Decidiu-se a deixar a caridade para os pacientes, não para o seu visível concorrente, que o álcool não deixava a advogada perceber ou se sabia, não importava por algum motivo, a cena toda parecia estranha, mas deu total razão às preocupações de seu Wanderley: Selma precisava ser salva dali. –; sou procurador porque estou à procura dela. Concluiu sua frase com o típico sorriso cativante que abrigava e que irritava a Tales sem reservas naquela hora.

– Ela foi com Mme. Petra cuidar de alguns detalhes. Seguiu por aquele corredor, doutor. Disse Débora sorrindo e levantando a taça como a dizer: “Aproveite e corra atrás…”.

Tales permanecera calado em tudo isso. Perguntou se a moça precisava de mais alguma coisa que ele estava indo buscar. Deixou Débora ali enquanto procurava algum lugar solitário pra respirar. Aquilo tudo lhe oprimia o peito e nada podia fazer. Subiu para o outro andar apoiando-se numa janela que dava para o jardim, aspirou longamente o ar fresco até se sentir menos pior, caminhou até onde podia observar todo o movimento no salão em que os quadros estavam expostos. O intervalo entre ter deixado Débora, ter ido ganhar ar e voltar pra observar dali de cima, não poderia quantificar. Seus olhos passavam distraídos, notou que Débora observava as obras, que a tia cumprimentava os clientes cativos e num canto, o que via? Não podia ser! Ou melhor, podia! Estava sim vendo o médico abrir uma caixinha com um anel dentro. Selma de costas aos olhares de Tales, não podia imaginar a observação. Lançou-se num abraço profundo a Leonardo diante do que ele falava ao que ele permaneceu segurando a caixinha, os olhos fechados e a resposta cheia de paixão que o médico retribuiu ao ato de Selma não passaram imperceptíveis ao rapaz. O que ele ignorava era o conteúdo da conversa, que anel seria aquele e muito menos o motivo pras lágrimas que escorriam pela face da moça que desatando-se do abraço, colocou ela mesma o anel no dedo e segurando o braço do médico puxou-o pra longe do alcance dos olhos de Tales.

Esmurrou o corrimão em que se apoiava. Como havia se iludido! Estava mesmo certo em tratá-la com frieza! Estava certo Marcus em desprezá-la e não deixá-la em paz… Agora ele sentia o veneno que o amor por Selma infligia, pensava. Estava certa a mãe em considerar que ela não era companhia pra ele, estava certa a tia em insistir que ele a acompanhasse no fechamento do circuito;  se não tivesse vindo, não teria visto aquela cena e continuaria sofrendo por uma mulher que não o merecia de certo – concluiu pela enganosa cena. Virou de costas pra multidão, duas lágrimas furtivas traíam seu jeito sempre contido. Isolou-se boa parte da festa aparecendo somente quando recomposto atou-se deliberadamente aos braços de Débora.

A tia que nada entendia dos últimos acontecimentos, frustrava-se por dentro, não havia sido exatamente isso que havia imaginado pro fim da noite, mas notou que Selma chorava, então não podia ser uma notícia das melhores que levava aquele homem a tirá-la do evento.

Enquanto isso, no carro a caminho dos limites da capital, Leonardo alternava entre mudar o câmbio e segurar a mão de Selma que chorava desconsolada.

– O que vou fazer Leonardo? Foi minha culpa! Minha!

– Não veja assim, Selma! Eu, em seu lugar me culparia menos, não foi uma situação das mais agradáveis…

Selma não conseguia estancar o choro, lembrava do pai, de como não fazia idéia dos seus últimos dias, da doença, de nada… Pensava que errara duas vezes, por um motivo de mesma raiz, causando dor a inocentes por sua insensatez. Pois tinha tido prova de que se errara na primeira vez, errara talvez pior na segunda, pois se tinha enrodilhado e perdoado as atitudes “indesculpáveis” daquela família e a troco de quê? De mais sofrimento, concluía.

Não julguemos Selma. Só poderíamos entender as profundas cogitações da moça se soubéssemos o que houve na tarde em que visitou seu Wanderley, nos dias que se seguiram, o que explicava a intimidade que o médico a tratava, assim como seu choro, o anel e tudo mais.

Enquanto isso o evento continuava, como encerramento, um baile, Débora e Tales dançaram boa parte da noite, com a coroação da frase:

– Vou voltar pra Europa em algumas semanas. Poderíamos nos ver mais enquanto não volto? Quem sabe, não te convenço que o Velho Mundo é melhor que essa terra de gente vil…

A última sentença saiu tomada de um ódio mudo, revolta, dor, que a advogada não poderia perceber, encantada e alcoolizada que estava. Só tinha entendido uma coisa: fugir dali. Fugir com uma boa desculpa que ainda pareceria estar ela por cima da carne seca, como se diz. Poderia aceitar o posto no exterior que a empresa ofertara. Vingaria de Fábio que certamente teria notícia do “envolvimento” dela com Tales, sua mudança pra Europa e tudo mais. Além do quê, mesmo calado, neutro, na maior parte do tempo, Tales não era uma companhia odiável, ao contrário, era fácil estar ao lado dele. Seria perfeito. Seria perfeita nos próximos dias, tinha o álibi perfeito pra largar tudo e recomeçar.

Em resposta, deu-lhe um abraço e um beijo inesperado, devidamente registrado pelos fotógrafos de plantão e que constaria na página de fofocas do jornal no dia seguinte.

Tales afastou-se, surpreso, deu um riso sem graça e continuaram dançando, com ela repousando a cabeça em seu ombro.

“Me precipitei!” Pensou. Mas era um homem de palavra, não podia voltar atrás agora. Depois, quem não garantiria que não havia sido a coisa certa a fazer? Se ela fosse tão amiga de Selma assim, não deveria ter se comportado daquela forma, afinal, a pintora deveria ter comentado com a outra sobre ele, ou mesmo, teria visto o quadro. Não, não devia sentir culpa! Selma saíra arrastando o médico depois de um anel! Nem se conteve a esperar o fim do evento pra comemorar! Enquanto essas alfinetadas lhe perfilhavam as idéias, fechou os olhos, com o queixo recostado no ombro da advogada, não era a posição mais confortável pela diferença de altura, uns 30cm, mas, queria sentir-se querido, e desconforto por desconforto, sua alma estava ainda mais desalojada. Infelizmente não sabia que era uma questão de tempo pra que sentisse o “coração pirata” da advogada.

Tales não podia, nem queria imaginar outras hipóteses pra não correr o risco de sentir-se ainda pior ou ser tentado a correr pro Sobrado pra ficar à sua porta até quando ela o atendesse e a arrancaria do médico! Ela não poderia ser daquele outro, vociferava internamente. Não era a Leonardo que ela amava… Ou era? As idéias lhe davam vertigens. Seria justo detê-la da tentativa de ter alguém que a protegesse do cafajeste do Marcus? Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas… Se não se sentisse tão obrigado moralmente a proteger a mãe de mais abalos… Poderia ter ousado, enfrentado… mas como? Sofria. Qualquer um que não estivesse em seu lugar poderia chamá-lo covarde, mas quem entenderá as implicações dos laços de família?

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Selma seguia com os pensamentos inflamados de culpa, de remorso, de dor… Nem de longe poderia imaginar que seu silêncio sobre Tales à amiga lhe traria surpresas dolorosas. Não tivesse escondido com todo cuidado o quadro e os resquícios de felicidade que tinha na companhia do florista… talvez, apenas talvez, tivesse lhe poupado do que saberia depois, mas as próximas horas, quiçá dias de Selma, seriam bem abarrotados pra ter tempo de saber das novidades.  Só conseguia recostar a cabeça no ombro de Leonardo enquanto não chegavam ao destino.

 

 

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