Cap 15 – A Vida numa Grande Roda do Destino


 

Tales estava em um bom humor inominável, ou melhor, sim, seu bom humor tinha nome. Ter podido ver sua amada mesmo que longe, por segundos, era bem melhor do que apenas ver seu vulto pelas janelas fechadas do sobrado, era melhor que os sonhos que lhe povoavam, estar com ela, apesar de parecer impossível devia ainda ser bem melhor, pensava e intimamente ria e xingava ao mesmo tempo Marcus, por ter desprezado uma mulher tão encantadora. O que era sua sorte era seu azar ao mesmo tempo. Se a tivesse conhecido casada, teria se condicionado a respeitá-la e lutar por esquecê-la, mas essa ponte entre Selma ser livre, mas ter resquício de corrente a atormentá-la justo com seu primo… Ao menos se tivesse sido esposa de outro homem qualquer no mundo! Mas, a vida tinha proposto-lhe essa sinuca de bico que não conseguia desvencilhar de si. Enquanto não sabia o que fazer, já que sabia que ela o amava – pois tinha visto seu quadro no ateliê quando deixou o lírio pra ela e ninguém pintaria um retrato sem ser solicitado por nada, é lógico. Se ela o tinha retratado daquela forma, em cada pincelada dava pra ver os sorrisos trocados, as conversas ocorridas, a conexão que se fizera nos dias que cuidava do jardim enquanto ela pintava. Definitivamente, ele fazia diferença na vida dela pra que o pintasse, era uma declaração não-pública, mas evidente, pensava – iria saborear cada momento envolto de romance e sonho;  ao amanhã, o amanhã, por hoje, contentava-se com ter a certeza que ela o amava, mesmo com o tempo, ou teria se desfeito da tela, ou ligado pra polícia pra notificar que alguém entrara em sua casa e lhe deixara um lírio, tudo bem que não era um crime, não havia subtraído nada, mas ela poderia alegar qualquer coisa, mas não, entendera que era o modo dele de dizer que estava ali, isso justificava as perguntas ao jardineiro, o interesse pela floricultura na sua ausência, as rondas eventuais que ela fazia ao seu lugar de trabalho enquanto ele estava fora e que o seu empregado notava e nada dizia pra não constranger a moça. Enquanto sorria incontentável…

– Ontem um homem passou mal durante a mostra.

– E como foi isso? Atropelou dona Mércia entre assustada e curiosa.

– Não sei ao certo, foi socorrido por alguém que parecia entender de medicina ou de enfermagem, sei lá. Hoje quando for tratar dos próximos trabalhos com Selma, vou checar tudo, já que ela acompanhou pessoal e proximamente todo o ocorrido e o tal “médico” lhe deu seu cartão antes de ir… Imagino que ela possa me inteirar da situação…

Tales que ouvia atenciosamente, quase engasgou com o pedaço de melão que mastigava, disfarçou e já sem o sorriso, ouvia o restante do relato, que a tia ao notar que sua frase de efeito tinha cumprido a meta, prosseguia:

– Nossa, mas e o doente? Eu entendi que o tal homem grudou os olhos na sua assistente pelo tom da sua voz, mas isso é o de menos, não? Ela não é solteira? E gente livre tem mais é o direito de ser feliz, encontrar alguém e cuidar da vida, não acha meu filho?

Dona Mércia não podia ter sido mais infeliz no comentário, na opinião silenciosa do filho, que nada respondendo, apenas olhou pra mãe ao tomar seu leite e despedir-se pro trabalho beijando mãe e tia à testa.

– Você só vai comer isso, Tales? Insistia a mãe.

– Já tô atrasado, mãe. Tiau, tia!

– Tiau meu filho! Bom trabalho. Encerrou a tia com Tales já fechando após si a porta.

– Nossa… tava tão sorridente e de repente…

– Mas como você é tonta, hein minha irmã?! Não notou que ele tirou o sorriso do rosto depois que eu falei que o tal “médico” ou sei-lá-o-quê deu um cartão pra Selma?!

– Ah, mas ele precisa abandonar essa idéia! Eu até pensei que ele já tinha esquecido isso depois desse tempo viajando… Não pode! Selma é mulher do Marcus, que é primo dele… não! de jeito nenhum!

– Ex-mulher, você quer dizer.

– Mas tá na cara que mesmo o Marcus tendo tocado a vida com a Gilda, ele não quer abrir mão do título de marido dela, né?…

– Olha, pois pra mim, a gente tem que ir devagar… Esse tempo todo longe, sem trocar notícias, contato e esses dois ainda ficam sonhando um com o outro, Mércia! Será justo a gente ficar vetando o menino desse jeito? A Selma dá mais atenção às flores do que a qualquer outra coisa nas minhas mostras, que eu já deixei gente observando, que eu procuro estar fora nessas horas que é pra não ficar na cara, né? E essas variações de humor dos dois, sempre correspondente… não sei não… a floricultura fica ali a dois tempos do sobrado.

– Ah, mas não pode Petra! Isso ia ser muito complicado e o que ele tem que fazer é se ajustar com o primo que precisa dele agora, aliás, precisa de todos nós e Selma também tem que ser mais solidária a Marcus! Imagina! Alguém que conviveu com ele tanto tempo, que o conhece bem, ah, não, eu me nego a crer que ela não sinta o mínimo de carinho por ele, se não tem amor de homem-mulher, ao menos, um carinho, oras! Alguém não passa na vida da gente assim, com um papel tão importante sem deixar vestígios.

– Diga-se de passagem que nenhum bom vestígio, né Mércia?!

– Mas o menino tá perdido… sabe-se lá o que a Gilda fez e disse pra deixá-lo dessa forma…

– Mércia, pára de desculpar as atitudes do Marcus. É meu sobrinho também, mas eu não posso passar a mão na cabeça, se Gilda conseguiu, é porque ele deu brecha.  Está na cara que as intenções dela não eram as melhores, por mais que depois ela possa ter se apaixonado de fato por ele, se é que é assim… A gente gosta, tenta ajudar, mas daí a prejudicar seu filho também, não, né?

– Tales tem o mundo pela frente, Petra. É um rapaz bonito, inteligente, gentil, que moça não se apaixonaria por ele? É um achado, meu filho! Não, não, não… ele pode ser muito feliz num amor sereno do que nesse turbilhão que seria entrar na vida da Selma e do Marcus. Não pode!

Essa última frase foi dita pondo tempestuosamente a xícara na mesa. O assunto atormentava demais d.Mércia, nos seus conceitos era bem difícil admitir a possibilidade de Selma e Tales se envolverem, até poderia ceder fosse ela divorciada de qualquer outro homem, mas não do primo do filho. Petra sabia que ia ter que ir devagar com a irmã, assim como ia com tudo.

– E Júlia? Selma já sabe?

– Não, quer dizer, sabe o básico, a história. Quem é a mãe, o pai, nome aos bois, isso não, nem é necessário, né? Se ela quiser mesmo adotar Júlia, não vai ser isso que vai impedi-la.

– Eu se fosse você não estaria tão certa. Tu ias conseguir adotar uma criança, que ia te dizer toda hora nos traços, no jeito, que a mãe é a meia-irmã que seduziu o seu marido e teve um filho com ele? Ah, eu não… eu não acho que agüentaria isso.

– Mas ela não ama Tales? Se o ama de fato, Marcus é o que menos importa.

– Veja bem, Mércia, uma coisa é ela estar desligada de Marcus, outra coisa é ter esfregado na cara a toda hora o que passou… é bem diferente. A pessoa tem brios, ora! A menina não é Madre Teresa.

– Bem, esse assunto já basta, não?!

O assunto foi encerrado sem resposta. Mme. Petra tinha acertado no que poderia ocorrer com a reação de Selma sobre Júlia, mas o quê Selma faria, como se sentiria quando soubesse que era a única que não sabia de nada ali?  Isso ninguém considerava. Até então, não havia obrigação de Mme. Petra informar a assistente dos seus laços consangüíneos com o florista, isso era passível, mas d.Mércia, espírita, que Selma admirava e compartilhava as atividades da creche, que lhe freqüentava a casa e tudo mais, quando ela soubesse que essa mulher por quem tinha tamanha afeição sabia de Júlia, da meia-irmã, que era a amante do marido, que era pai da menina que queria adotar e tudo mais? Saber que o infame Marcus que lhe atormentava os dias era sobrinho daquela mulher e que ela sabia de tudo e não lhe dissera nada, absolutamente… Como seria?

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Tales seguiu atormentado para a floricultura. Acompanhara a vida de Selma meio de relance nesse ínterim e não tinha notado nada que lhe causasse ciúmes e de repente a tia lhe joga a possibilidade de outro homem cortejá-la, aproximar-se dela e ele ali, impotente por causa de Marcus e da mãe, enquanto o outro era “livre”, livre pra namorá-la porque não tinha a “sorte” de ter nascido parente do ser abjeto que era o recente primo! Isso o atormentou todo o dia e os dias posteriores, o mau humor apossou-se, como uma febre na alma, não conseguia achar o sono, ainda que mantivesse aparente calma no trato com todos, o que se notava, isso é, se alguém notava, era o mau humor e desprezo pela situação demonstrados pelo canto da boca torcido que passava por um sorriso a um observador menos atento e que o desconhecesse. Falava menos ainda, respondia com olhares, ao invés dos monossílabos costumeiros, ao invés de indicar um trabalho, ia ele mesmo fazer, mantinha-se ocupado todo o tempo possível, nenhum entretenimento dos que lhe eram familiares e costumeiros conseguia prender sua atenção, passava ainda menos tempo em casa, foi rever amigos da juventude, que eram poucos, mais trabalho, cursos que no fundo não lhe significavam tanto, apesar de estarem ligados às suas atividades e interesses. O jeito de Tales de deglutir algo, de desanuviar era ocupando-se e passando o mínimo de tempo possível em casa, onde o assunto poderia vir mais à tona. Deixou de passar pela frente da casa de Selma, deixou de prestar atenção nas conversas do jardineiro, tudo lhe era profundamente irritadiço, não dera férias ao empregado porque precisava dele pra substituí-lo na entrega dos arranjos pra tia. O mundo de Tales desabara quando descobriu amar a ex-mulher do seu ex colega de escola que lhe afrontava, que pra completar era seu primo, agora, passava um trator sobre os escombros que tentava manter organizados, com a realidade de que Selma poderia envolver-se com quem lhe aprouvesse e ele, nada podia fazer, porque não conseguia ou não devia fazer o que ela mais queria. Tudo isso passava e perpassava naquela alma causando um turbilhão que ninguém notava. A mãe achava que ele tinha resolvido ter mais vida social, que era bom estudar, conhecer gente nova – leia-se nas entrelinhas: outras mulheres além de Selma – de tão preocupada que se mantinha com Marcus, que por sua vez, aproveitava os cuidados da tia, sem retribuir-lhe o carinho em ao menos, respeito. Falava com um carinho teatral da ex-mulher, que levava d.Mércia a crer que ele a tinha em grande estima, mesmo que tendo cometido erros, discorria sobre todos os “projetos futuros” pra filha que estava na creche-orfanato, que não podia reconhecê-la por motivos sociais – injustificáveis, diga-se de passagem – mas que daria todo o suporte pra que nada lhe faltasse e todo um repertório que faziam Tales embrulhar o estômago, aviltado com as mentiras escancaradas do primo, mas que nada podia dizer à mãe pra evitar que ela sofresse. Ver a manipulação que Marcus fazia com a sua mãe, dava-lhe idéia do que causara à Selma, apesar de no fundo, seu grande receio até então, era que ela tivesse uma recaída pelo ex-marido com todo aquele palavreado doce, isso o irritava ainda mais, porque quanto mais enrodilhada lhe trazia d.Mércia, mais ela se esforçaria pra manter a moça longe dele e não poderia entristecer a mãe desrespeitando sua vontade.  Tudo isso era odioso e dolorido, mas ele não via alternativas entre o coração da amada e o da mãe. Se d.Mércia não notava que o novo comportamento do filho era uma fuga ao que a realidade lhe trazia, Mme.Petra estava muito envolvida com a aposentadoria do embaixador, o circuito de mostras dos seus quadros mas percebia a mudança do sobrinho, notava-lhe algo, uma tristeza, entendia e nada podia fazer, afinal, nem a ela ele dava abertura pra uma conversa com esse tema.

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Manhã após o episódio no vernissage, Selma esperou o relógio marcar 9h pra poder ligar pro médico e ter notícias de seu Wanderley. Algo prendia sua atenção àquele senhor, tinha que saber se ele estava bem. Pensava em que circunstâncias teria morrido o pai e ela não estava presente pra lhe segurar a mão… tinha que ter notícias do bem estar do velho do anel JW.

– Bom dia, por favor, dr.Leonardo Sevilla?

– Pois não?

– Olá… É Selma, a moça que estava no vernissage ontem quando seu Wanderley passou mal, lembra-se? Acompanhei vocês até o carro e pedi seu cartão pra ter notícias dele.

– Ah, Selma! Amiga da Paz!

– Como?

– Seu nome. Selma significa Amiga da Paz[1]. Ele está melhor, Selma, apesar de ter uma situação delicada;  aposto que seu Wanderley ficaria muito feliz se você o visitasse.

– Visitá-lo? Ele está num hospital?

– Na verdade, ele já adaptou a própria casa pras necessidades que lhe são inerentes…

– Não acha que…

– Nada de não, Selma, me diga, onde posso buscá-la pra fazermos uma visita a ele? Se não tiver problemas pra você, às 15h tenho que vê-lo, é minha passagem diária pra ver-lhe o prontuário, que tal? Espero que não me dê um não. Afinal, parte do bem estar dele atual é graças a você, que ajudou quando ele começou a passar mal – atalhou o médico.

– Ah… bem, ah…

– Ele mora nos limites da capital, é longe pra você?

– Eu moro em Vila Roseta.

– Ah! Que bela cidade a sua!

– Você conhece?

– Não na verdade – disse sorrindo – mas tenho certeza que pra você escolhê-la, deve ser um bom lugar pra morar, me parece ser uma pessoa de muito bom gosto.

– Menos, doutor, menos… Disse Selma rindo e entrando no clima alegre pertinente a todas as conversas do médico.

– Vou buscá-la, está decidido! Às 14h eu pego você na rua… em que rua de Vila Roseta você mora?

Selma rendeu-se ao bem estar que o médico causava a todos que travavam conversa com ele, sentia-se meio constrangida por ligar em horário de trabalho, não queria atrapalhar, mas ele muito gentil, disse que quando precisasse, se precisasse, avisava e desligava, era bem consciente das suas responsabilidades, que ela deixasse pra ele essa preocupação. Marcaram o horário, ela indicou o endereço, deu o ponto de referência, tudo que ele pudesse precisar pra chegar ao local aprazado. Leonardo estava satisfeito de ouvir a voz musical da moça além de saber que seu paciente iria ficar muito bem com a visita. Ligou pra residência dos Wanderley, informou que na sua passada habitual iria levar-lhe a sobrinha junto e que ele aproveitasse logo pra ser gentil e contar à Selma que era seu tio. Se Leonardo estivesse frente a frente com seu Jorge, lhe receberia um raro abraço, um tapa nas costas e aquele olhar apertado que faziam seus olhos sorrindo sobre o bigode marcante.

Ordens foram dadas na residência pra que se preparasse um farto lanche, com todas as opções que fossem possíveis, sucos naturais, enfim, que tudo saísse o melhor pra chegada da sobrinha, mas que ninguém dissesse nada, cabia a ele a notícia, sorria satisfeito! Joana que havia saído pra fazer o pagamento dos funcionários na fazenda distante vários quilômetros dali, não fora comunicada de nada disso, aliás, Joana não tinha conta suficiente com o marido pra que ele lhe participasse as coisas, exceto, as ordens que a ela incumbia.

14h. Selma olhava pela janela, ansiosa e temerosa, afinal, não entendia direito porque tinha aceitado o convite e se não fosse médico de verdade e se aquilo tudo fosse, sabe-se lá… um seqüestro! Não, não tinha dinheiro pra um seqüestro, pensava, estava nervosa, e nenhum carro aparecia frente a sua porta.

Na entrada da cidade, não muito distante da casa de Selma, Leonardo pára numa floricultura pra tomar informações sobre o endereço que procurava, entrando, se encantou com os arranjos ali e primeiro se inteirou de algo pra levar à Selma:

– Boa tarde! Tudo bom, campeão?  O que você me indica pra levar pra uma moça encantadora, gentil, amável que socorre desconhecidos no meio de uma festa? Disse sorrindo.

– Tales virou-se lentamente pra ver quem lhe interpelava. Deu de cara com um sujeito um pouco mais baixo que ele, tipo físico um pouco mais robusto, mas de uma afabilidade que crispou-lhe a face por associar o relato da tia à pergunta do homem à sua frente. Contido, respondeu:

– Do que ela gosta?

– Ah, não sei… a conheci ontem e numa situação não muito boa. Eu sou médico, meu paciente foi socorrido por ela… vou buscá-la agora pra visitá-lo.

O xaxim que Tales segurava rachou com a força da frustração e raiva que o florista não demonstrara na aparência. Pousou-o numa mesa ao lado e ficou tentado pra levar o médico às rosas – sabia que ela odiava rosas –, mas não achou justo com sua amada, além do quê, o médico seria facilmente perdoado e ela receberia as rosas pela gentileza do homem que mesmo desconhecendo seus gostos, tentava agradar… além do quê o que podia fazer? Se não estava namorando Selma, o “doutorzinho” ali não tinha culpa… mas também não o levaria aos lírios. Parou em narcisos. Titubeou, afinal, quando ela visse a embalagem da floricultura, poderia perguntar algo e indiretamente, ele lhe mandaria flores… Seria justo? Seria certo? Não devia dar-lhe a chance de conhecer uma pessoa simpática e aparentemente de bom coração? Pra não ser injusto, disse que ia pedir pra outro funcionário vir atendê-lo e que seria por conta da casa, afinal, não é todo dia que se quer agradar uma moça tão solidária a um desconhecido, não era mesmo? Falou ao médico. Enquanto dava de costas, Leonardo disse:

– Só mais uma coisa, por favor, este endereço está longe daqui? Falou segurando-o pelo antebraço e estendendo-lhe o papel onde anotara.

“Tudo o que eu precisava” pensou Tales, “ainda entregar de bandeja pro concorrente, onde encontrar a “minha mulher””. Nem se dera conta do que tinha pensado, em como tratava como se possuísse Selma, como se ela fora um objeto. Ao rever o pensamento enquanto pegava o papel, balançou a cabeça em auto desaprovação, envergonhado, enquanto o médico não entendia o movimento. Responde como deveria fazer para chegar ao endereço.

– Eu pensei que você não soubesse o endereço… meneou a cabeça…

– Não, é que… não é nada, lembrei de, esqueci de – pensou em falar sobre tomar um comprimido, mas estava diante de um médico que poderia lhe fazer perguntas que não saberia como responder, emendou: – esqueci de ligar pra minha mãe… aniversário dela e melhor separar umas flores pra ela também. Falou dirigindo-se até os lírios, adequando-os na embalagem apropriada e entregando-os ao médico, recusando qualquer pagamento.

– Já disse, por conta da casa. Leve.

A última palavra, não fosse a contrariedade disfarçada em sorriso de canto de boca que Tales lançava toda vez que desaprovava algo, mas disfarçava, teria feito o médico entender que já havia se demorado muito à sua frente.

– Sente-se bem, meu jovem?

“Pronto!quanto mais eu tento me desvencilhar… não tem como ter raiva desse cara!”, pensou irritado, sem demonstrar.

– O senhor vai perder a hora, doutor.

– Claro, claro… Disse o médico sem entender bem o que se passara ali. Mas estava tão entusiasmado pra rever Selma que não se demorou em tentar descobrir o que se passava, perguntara unicamente pelo seu ofício, não havia qualquer pessoa que passasse em seu caminho que deixaria sem auxílio se fosse o caso.

14:30h. Sai do carro com um vaso nas mãos, sorridente a tocar a campainha. Pelo atraso, Selma já arranjara algo pra fazer, atribuindo o atraso a um cancelamento da tal visita, ao que o toque da campainha lhe pegou de surpresa. Foi à porta, sorriu satisfeita quando deu de cara com os lírios, levou-os ao nariz pra aspirar-lhes o perfume. O médico enternecido com a cena comentou:

– Esse não é mérito meu. Um rapaz muito simpático, apesar de parecer meio… confuso, talvez, disse que era por conta da casa. Eu parei lá pra pedir informações do endereço, aproveitei pra trazer-lhe algo e ele ofereceu como presente da casa pra moça que salvou meu paciente! Disse radiante.

– Tales disse isso? Perguntou encantada.

– Tales?

– Sim, pelo que vejo, o senhor comprou-as na…

– Não, não comprei…. – riu, interrompendo-a -. Você conhece a floricultura?

– Sim, digo, bem, o senhor entendeu…

– Me chame pelo nome: Leonardo.

Selma corou com a frase. Sentiu a vibração daquelas palavras. Constrangeu-se de estar namorando as flores que um homem amável tinha lhe trazido com todo seu carinho, direto do homem que ela amava e que nada tinha cobrado pra enviar-lhe. De certa forma, era como se Tales tivesse feito o pobre médico de entregador e dr.Leonardo não podia imaginar o enredo em que estava entrando.

– Não fique corada, Selma. Eu não sou velho assim pra me chamar de senhor… além do quê, lhe conheci fora do hospital, então, vamos deixar os formalismos, tudo bem? Disse disfarçando seu interesse que ficara – na opinião dele – visível pra ela. Era visível sim, mas Selma não costumava corar por isso, a grande implicação ali era Tales, seus lírios, de graça, pelo médico, pra ela.

Continuou discorrendo como fora o diálogo depois que ela explicou que era sua floricultura favorita, que o proprietário havia lhe ajudado um tempo com seu jardim, a pedido da sua nova chefe, Mme.Petra, a marchand que leiloava os quadros no vernissage, por isso sabia seu nome, já que não tinham muitos empregados… Leonardo pouca atenção deu a isso, se deliciava em ouvi-la, a voz dela lhe parecia música, tão distante das mulheres frias e sem pudor, em sua maioria, que trabalhavam nos hospitais. Raras eram as de boa reputação, talvez pelo excesso de jornada de trabalho, atribuía. Mas enfim, o que importava era que a mulher ao seu lado, a sobrinha do seu “adotado” pai, era divina aos seus olhos e de repente fazia sentido ter saído de sua cidade, conhecer seu Wanderley, simpatizar com ele, pra estar ali, com a sobrinha perdida do velho paciente.

Leonardo era dado a idéias românticas, como todo habitante do centro-oeste brasileiro, um romantismo rasgado como frisam as músicas sertanejas, sem uma dose de drama, de impossibilidade, de casualidade, não teria encanto. Elevava por conta própria sem ter a menor idéia de quem era de fato Selma, sua essência, suas idéias, a um pedestal que ela detestava. Não fosse a amabilidade do médico, Selma o acharia pedante, mas dizia de si pra si que devia ser menos exigente com as pessoas… Tales estava na sua imaginação, nos seus sonhos, nas suas idéias, na sua alma, no ronco de uma caminhonete que vez ou outra ouvia quando a noite estava silenciosa, possivelmente estava no lírio deixado no cavalete – e ela sabia que se ele estivera ali, tinha visto seu quadro pendurado na parece do ateliê que ficava bem aos olhos dela quando sentava pra trabalhar –, “Tales sabe que o amo, mas se cala” e nesses rumores internos, sem se dar conta da conversa do médico, ligada no automático a maior parte da viagem, depois que ele tinha dito tudo o que acontecera na floricultura, ela se fechou ao diálogo sincero, ficando com suas conjecturas, das quais saiu ao sentir o veículo estacionar.

– Chegamos.

– Ah, que bom!

Saíram do carro, subiram a escadaria da grande casa sendo recebidos pelos empregados com pompa, que Selma atribuía à qualidade de médico que Leonardo era, não pela sua pessoa, afinal, era uma desconhecida, pensava.

O que aconteceria no decorrer daquela tarde poderia fazê-la sair completamente da constante lembrança de Tales, ao menos pelas próximas horas.

 

 

 


[1] Os árabes, de onde se origina esse nome, dizem que a mulher Selma sabe o que quer da vida, e também como chegar lá, tendo grande habilidade para envolver as pessoas que podem ajudá-la a tocar e realizar seus projetos. Possuindo uma sensualidade que não passa despercebida por ninguém, aprendeu a se valer desta arma. Mas ser dominadora pode se lhe tornar um grande perigo.

 

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