Cap 14 – O Coração em Um Abismo


Muito pouco se sabe de um coração que se cala. Os dias passavam e o primeiro vernissage se apressava diante da expectativa geral. Mme. Petra já cuidava dos detalhes – os mais perigosos de serem esquecidos e que mais estragos podem causar – das mostras que ocorreriam sob sua tutela. Completamente assoberbada com as atividades, ninguém ousava lhe arrancar um minuto de atenção se não fosse ao bem dos projetos.

Selma acompanhava-a a praticamente tudo, quando não era designada pra cuidar de assuntos paralelos a outros que mais rápido se fariam se elas se dividissem. Eram tantas minúcias que Selma, a cuidar dos retoques do primeiro salão que abrigaria os quadros de marchand, não se deu conta que a decoração chegara. Tales adentrara o hall segurando um vaso médio de lírios brancos quando seus olhos estancaram ao ver a moça de costas discutindo pormenores com o maître. A mostra seria precedida por um jantar que destacaria Mme. Petra como oradora dando início à agenda de eventos que ela presidiria. Nada poderia tirar a atenção dos presentes quanto à oradora por conta da refeição, já que, como se sabe, jantares nesse estilo, são meras formalidades, ninguém deve comparecer pensando apenas no paladar, o jantar nada mais é que um acessório que permita a todos se verem, cumprimentarem, sem roubar muito do tempo e da direção a que tudo se destina. Afinal, a intenção é crescer o interesse para o leilão ao final, destacar os detalhes de cada obra de forma imprescindível pra que case com os interesses do colecionador ou eventual comprador.

Tales a observava entre encantado, surpreso e tímido. Queria dar de costas e sair do lugar, mas como que enraizado, nem conseguia dar de costas, nem continuar andando, não poderia vê-la, não poderia falar-lhe, não depois de sumir sem dar notícias! Não podia correr o risco de notar que ela o desprezava, não podia, não queria! Tinha seus motivos pra ter se afastado e cria-os no melhor bom senso que poderia ter, mas isso não mudava o fato de que tinha se afastado, calado, evitado qualquer contato com Selma. E o quê ela estava fazendo ali? Sempre quem cuidava do grand finale era a tia, como teria designado à Selma tal responsabilidade que ela julgava ser imprescindível antes da abertura do evento?! Tantas questões se avolumavam que mais o petrificavam ali, enquanto a moça em jeans e camiseta de cambraia lhe seduzia e lhe mandava embora ao mesmo tempo.

– Algum problema, seu Tales?

A voz rouca do jardineiro baixinho e atarracado tentava lhe tirar da hipnose do momento. Sem nada dizer, apenas empurrou o vaso pras mãos do seu único empregado, completamente desinteressado de saber se o velho poderia ou não carregar mais um, já que trazia outro nas mãos calejadas. Deu de costas como quem precisa salvar a pátria ao que o jardineiro boquiaberto diante da cena, ainda tentando se equilibrar com os dois vasos dá um tic no seu bigode grisalho quase totalmente branco que só aparecia quando ficava completamente perdido. O que lhe sobrava de boa vontade ao jovem Tales, faltava-lhe de senso de orientação em como proceder se o patrão não estivesse a ditar-lhe cada necessidade, tinha talento com a terra, não tinha uma que se mantivesse infértil com o seu trato, o mesmo não acontecia com a estética que algo como aquela situação pedia.

Ainda com o torso virado, Selma como que é fisgada a olhar à entrada, que só vê uma mão como última possibilidade de notar que Tales estivera ali. Nota o jardineiro, surpresa e acalorada com a situação que sabia, podia acontecer, se dirige ao velho, disfarçando o que notara:

– Seu patrão não veio, seu Antônio? Pensei que a presença dele era exigência de Mme.

– Ah, dona Selma, estranhe não – dizia o homem ainda estupefato da reação de Tales –, ele deve ter esquecido algo, tava pálido… depois, a tia dele é exigente mas tem devoção pelo único sobrinho… não acho que vai se aborrecer se ele não cuidar disso pela primeira vez…

-Sobrinho?

– Sim, seu Tales é sobrinho de dona Petra. Eu sei só dele comentar, que nunca que ela foi lá na floricultura não, é chique demais pra um lugar cheio de terra, disse gargalhando de sacudir os ombros. Aquele homem simples não podia compreender as sedas de um lugar como aquele e as pessoas que o freqüentavam, além do mais, olhava aquelas telas e não entendia como podiam pagar tão caro por um pedaço de chita pintado pior do que seu netinho de cinco anos seria capaz. Ao menos, era como lhe pareciam aquelas “artes”.

A fase de surpresas de Selma só começara. Não fazia a menor idéia que eram tia e sobrinha, isso explicava o carinho com que os vira despedindo-se na primeira vez, que ele não podia dizer não a um pedido da tia para atendê-la, mas por que Mme. teria tanta simpatia em lhe ocupar o sobrinho com ela? Não que houvesse sido ruim, mas, não deixava de ser surpreendente. Pensava: “Se eu pude contar com tal simpatia e nossa amizade cresceu ao ponto dela me chamar para ajudá-la no circuito, então… – a mulher apaixonada começou a falar mais alto dentro dela – então eu posso tentar saber mais da ausência dele, pela tia…”

Sorriu satisfeita, ajudou o homem com os lírios e continuou a organização. Ainda teria que deixar tudo encaminhado, correr para arrumar-se e voltar pra estar ali às 19h pontualmente, antes do primeiro convidado. Imaginando que Tales poderia prestigiar o vernissage da tia, seguiu numa felicidade incontida que acabaria à saída do último funcionário pronto pra fechar o lugar. Tudo correra em ordem, Mme. Petra estivera satisfeita com a autonomia de Selma, o jantar tinha suscitado elogios suficientes pra não ofender o Buffet, mas não exacerbados pra ofender a marchand e seus quadros. A venda tinha sido boa, mais que satisfatória, nenhuma obra havia ficado para a próxima. A crítica seria dourada no dia seguinte. A tia de Tales tinha agradecido o empenho da moça e se despedido dizendo que ela não precisava ficar até o fim, estava tudo em ordem, sem poder imaginar o que alicerçava Selma numa espera muda naquele salão, que foi vã:  Tales não voltara.

Seguiu pra casa, foi até o ateliê onde se jogou sem ligar pra roupa, pra nada, sobre a chaise, quando alongando os olhos ao cavalete notou um fresco lírio branco no suporte do móvel. Ergueu-se, segurando-se como se houvesse o risco de um tombo dum arranha-céu, observou a flor, que tinha certeza não havia chance de ter deixado ali. Por um minuto pensou se poderia ter sido Tales, mas, como? Como entrara em sua casa? Desfez essa idéia porque desacreditava que ele pudesse fazer isso, além do quê, a flor havia sido cortada… Tales nunca cortava suas flores, as mantinha sempre vivas até que a própria natureza se encaminhasse de desfazê-las. Pegou a flor, ficou a admirá-la, levou-a até o coração, com os olhos fechados aspirou o perfume do lírio ainda com orvalho, beijou suas pétalas como se pudesse agradecer a Tales aquela alegria. Não sabia se sorria de felicidade ou se chorava pela saudade, pela ausência, pela escolha de Tales de não se fazer presente como ela o desejava. Do outro lado da rua, ouve-se a partida de uma caminhonete. Selma abriu os olhos com o ruído, ainda foi até a janela, mas só ouviu ao longe o ronco típico do motor… poderia? Talvez nunca viesse saber. Cerrou a janela, desligou a luz, levando o lírio para adormecer com ela no seu quarto, colocou-a em água fria, num jarro transparente sobre o aparador onde pudesse vê-lo até que o sono a arrebatasse, já que seria um grande risco de amassá-lo se dormisse com ele… e não poderia correr o risco de passar menos tempo com o único resquício possível de seu amor além de suas lembranças. Tales era o sonho silencioso que lhe ocupava toda a alma. Não contara a ninguém, não poderia. Pareceria ridículo demais amar, sonhar, esperar por alguém que não dava notícias.

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Dali a alguns dias, receberia um postal caribenho, acompanhado da foto de Débora com Fábio numa praia, apesar do sorriso da amiga, algo parecia uma nuvem nos seus olhos sob os óculos de sol. Teria que esperar o retorno pra checar de perto se havia algo de fato a toldar-lhe o reencontro com o noivo ou não.

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Os encontros com Mme. Petra pra arranjarem as outras mostras estavam de vento em popa, aproveitava pra observar tudo, estar em contato tão próximo com a tia do seu amado, era como se pudesse ter um pouco dele junto a si. E não deixava de ter uma aura de esperança e felicidade nisso.

Por sua vez, a tia havia percebido a ausência do sobrinho desde o primeiro vernissage, com todas as entregas sendo feitos apenas pelo jardineiro da floricultura, estando ambos na mesma casa, já que hospedados estavam na casa de dona Mércia, sabia que o motivo não podia ser doença, afinal, o via em franco bem estar, algumas noites avivados por um brilho especial quando retornava da floricultura. Ninguém comentava, as irmãs se entreolhavam e nada diziam. Algo precisava ser feito, mas, quem interrogaria o jovem? Certamente nenhuma delas, porém, Selma poderia ser mais acessível. Para Mme. a moça parecia completamente envolvida e entusiasmada com o trabalho novo, dedicada, afeita a tudo que se fizesse necessário e definitivamente, não eram os olhos de veludo azul que não tinha que estavam deixando Selma entre esses momentos de felicidade indisfarçável e outros de olhar distante, triste, saudoso. Questão de tempo para notar que esses altos e baixos se faziam próximos às discretas e súbitas alegrias que inundavam o rapaz de um bom humor inegável, excedendo-se em gentilezas, não daquelas pedantes, mas daqueles que carregam o sonho na alma e se transbordam em bondades pros que os cercam.

Já que Tales não aparecia pra decorar os eventos, Selma aproveitava pra ser toda atenciosa em ajudar o jardineiro com o talento que lhe faltava, oportunamente, procurando perguntas que não levantassem suspeitas, mas que trouxessem notícias do seu amado, através do velho gorducho e fagueiro. Obviamente, a princípio passou despercebido ao homem o interesse da moça, mas nada que a experiência dos anos não lhe fizesse suspeitar do real interesse na ajuda que Selma lhe prestava. Por sua própria conta, eventualmente soltava notícias de Selma na floricultura, sempre relacionadas a algo que ela tivesse feito ou dito enquanto ele estivera entregando os arranjos. Notara que o primeiro comentário tinha feito Tales parar o que estava fazendo por segundos, estancar o olhar, pra depois seguir como se nada tivesse acontecido e aquelas fossem notícias triviais de um velho que deixara pra ser fofoqueiro àquela idade, como gracejava o moço brincando com seu empregado, que sorria de volta e contava mais situações que na sua simplicidade considerava esdrúxulas e desnecessárias pra umas pinturas que o netinho podia fazer melhor! Tales ria abertamente e dizia que qualquer dia ia levar então uma das pinturas do neto para sua tia avaliar…

Já havia virado parte da sua rotina o caminho pra capital passar pelo sobrado, ao menos pra um olhar de relance, outros, quando a rua silenciava e a noite pedia romance, estacionava e ficava observando o vulto de Selma pelas luzes da residência, lendo, andando, penteando-se. Depois ia embora. Nunca mais arriscara entrar e deixar um lírio ou outra flor qualquer, uma atitude temerária já bastava. Contentava-se em saber o carinho que Selma dispensava às flores que ele mesmo havia montado e que seu fiel jardineiro relatava, como ela parava, observava, fechava os olhos e aspirava o frescor e o perfume dos arranjos, como se todo o movimento ao seu redor acabasse e estivesse numa outra dimensão, quando fazia aquilo, era como se pudesse abraçá-lo, senti-lo na brisa que a circundava repentina, um daqueles dias ele fora silencioso e observava-a enquanto o jardineiro fazia as entregas e procedia como de hábito. Seus olhos fecharam-se junto com os dela e se ela pudesse ouvir seu coração, teria escutado “como eu gostaria de estar com você, Selma!”, abriu de súbito os olhos e sem observar nada arrancou dali antes que fosse insuportável estar com ela no mesmo ambiente sem tomá-la  e levá-la pra um lugar bem distante do trabalho, da família, dos deveres, de Marcus, de tudo. As notícias corriam na casa de d.Mércia, inevitavelmente ele ouvia vez ou outra as atitudes bárbaras do meio-primo pra ofender a moça, como a provocava, irritava, por questões ridículas. Marcus tinha tudo o que exigira, mas por um motivo desconhecido, talvez até pro próprio Marcus, não deixava Selma seguir seu caminho. As irmãs Marine evitavam o assunto próximo a Tales, mas algumas vezes, ele surpreendia trechos das conversas disfarçadas quando notavam sua presença no recinto. Pelo mesmo princípio, evitavam colocar Marcus e Tales frente a frente disputando o mesmo ambiente, apesar de separadamente, tentarem convencer a um e a outro que deviam se aproximar, diminuir as diferenças, afinal, eram parentes. Usavam apenas este pretexto, não podiam colocar o grande “x” da questão assim sobre a mesa. O que todos sabiam era que as questões da infância de longe nada tinham a ver com a presente repulsão que sentiam um pelo outro, aliás, Tales nunca ligara muito pras atitudes imaturas de Marcus no colégio, atribuía à natureza bestial que o outro ainda carregava em si, tentando impor sua “soberania” no grupo, através das atitudes ridículas. Tales era de outra natureza, seus horizontes eram outros. Entre continuar sendo tido por “saco de pancadas” do primo e perder a paciência e socá-lo, como algumas vezes fora a vontade que tivera, ele preferia a paz, sempre e essa mesma preferência, afastava-o da mulher que amava, pra não entristecer a mãe, a tia, ao pai – se estivesse vivo, como a mãe não deixava de lembrá-lo –, pra evitar que Marcus descarregasse em Selma a raiva por ele, pra enfim, manter a paz. Selma por sua vez pensava eventualmente que ainda que seu amor fosse correspondido, seria muito sábio e de muito bom senso da parte de Tales, manter-se longe dela, afinal, quem precisava daquele inferno em que Marcus transformara sua vida? Quem em sã consciência, se envolveria com ela, sabendo que teria que enfrentar dia sim, outro também, aquela presença infame?

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Outro evento, outro leilão, sentada numa poltrona afastada do centro da festa, cansada, Selma entretinha-se brincando com a taça de água fria que lhe acompanhava nos últimos quinze minutos. Pensava em como tudo aquilo era tão envolvente, era tão o que ela queria, ao mesmo tempo que era nada diante da saudade e do amor que nem podia dizer que crescia, posto que ocupava já tão grande extensão dentro dela, que não poderia mensurar e até nem preferia pensar na possibilidade de que pudesse aumentar ainda mais, a vaga idéia de que ainda que permanecesse daquele tamanho, poderia não ir embora nunca, já faltava-lhe o fôlego tal imaginação. Presa nesse momento, senta-se a seu lado um senhor, pele corada, viço juvenil a desafiar os músculos, os cabelos, que entregavam que ia pra lá dos seus cinqüenta anos, ainda que sólido.

– E quando será o seu?

– O meu o quê, senhor?

– O seu quadro a estar sendo exposto assim?

Selma riu.

– Não era nisso que pensava aqui distante enquanto todos se divertem? Gracejou aquele homem, que lhe parecia um velho conhecido, mas que não se lembrava de onde pudesse tê-lo visto antes.

– Não, não… quero dizer, sim! Também! Riu.

– Então, você pinta, minha jovem?

– Ah… eu tento… no tempo livre…

– E o que falta? O que falta pra profissionalizar-se?

– Um Mecenas? Riu-se.

– Hmm…. eu não sou exatamente uma pessoa letrada, minha jovem… mas imagino que isso queira dizer… financiamento?

– Também… quer dizer, sim, mecenas seria um patrocinador, mas não é apenas isso que me falta… bem, mas eu devo voltar às minhas atividades.

– E o quê exatamente você faz aqui?

– Ajudo Mme. Petra a organizar tudo. Não sei se isso teria um nome específico… Riu, já ficando sem graça.

– Vá, jovem, vá. Eu vou ficar um pouco mais por aqui. O ar livre que vem da porta me ajuda com a saúde… eu nem devia estar aqui.

– O senhor precisa de ajuda? Sente-se bem?

– Ah… estou com meu carro, mas meu médico ainda está entretido procurando algo que lhe agrade pro consultório…

– O senhor quer que eu o chame? Como é o nome dele? Garçom! Por favor! Um copo d’água pra este senhor!

– Agradeço… dr. Sevilla, Leonardo Sevilla Matos.

– A água senhor.

– Obrigado.

– Por favor, garçom, pode ficar de olho nele enquanto eu procuro pelo médico que o acompanha?

– Sim, dona Selma.

– E quanto ao senhor… qual o seu nome mesmo?

– Wanderley. Jorge Wanderley, como no anel, vê?

– Espere seu Wanderley, vou achar já seu médico. Fique tranqüilo.

Selma seguiu pelo salão perguntando dos presentes pelo tal dr. Leonardo que era um guaicuru[1] neto de paraguaios que fixaram-se em Dourados, por parte de mãe, qualquer coisa por parte de pai, que acompanhava o tio da moça desde o início da sua enfermidade, se tornando quase um médico particular, já que a amizade que o prendia àquele homem nem sempre bem humorado, contrabalanceava com o jeito faceiro e bondoso do médico, um jovem lá pelos 38 anos, dedicado, que passara desde a residência médica em hospitais públicos, onde atendera seu Wanderley pela primeira vez, não que este não tivesse condições para manter um plano de saúde, mas na cabeça daquele homem sovina, era um desperdício!  Quando realmente precisasse, confiava que receberia tratamento igual na rede pública ou privada, o que precisava era de um bom médico e um médico bom, diga-se de passagem, afinal, não é pra qualquer um aturar o gênio do cinqüentão. Depois de alguns atendimentos iniciais, a solicitação de exames mais apurados, não havia muito a ser feito além de procurar as alternativas disponíveis até o momento para o caso: leucemia. A compleição do homem lhe permitia ainda tentar umas extravagâncias e não se render facilmente à doença, mas dia a dia, ainda mais com o mau humor reinante, a tendência não era melhorar. O médico de pele clara, cabelos levemente ondulados castanhos, com entradas, já, olheiras e uma tez que aspirava por descanso, dos plantões virados e horas vagas ao lado de seu Wanderley, demonstravam a dedicação ao ofício a que se propunha, sem pensar no retorno financeiro. De família simples, mas trabalhadora, estudara em colégio público, frequentara a Universidade Federal da Grande Dourados e dali a seguir praquele Oeste Paulista, nem ele mesmo conhecia o motivo da trajetória. Coisa de jovem idealista? De jovem rebelde? Busca de sentido na vida? Sentir-se parte de um lugar? Mais provavelmente. Tudo o que Leonardo sabia do pai, que partira quando ele ainda tinha uns cinco anos, é que era um ex-combatente, que dizia ter vindo de São Paulo e depois que se formou, aproveitou da carreira, para ir de cidade em cidade do Oeste Paulista a procura de suas raízes. Avô e avó haviam morrido e a mãe voltara pro Paraguai revoltada com a procura do filho, contraíra novo casamento com antigo namorado da juventude, filho de amigos dos pais e desligara-se quase totalmente de Leonardo, que tinha a figura do pai gravada em sua fisionomia. Com o tempo, aquilo perdeu o sentido e a dedicação aos doentes sem família foi se tornando um lema. Ter encontrado seu Wanderley, foi mais a idealização da imagem de pai que projetava, então, silenciosamente, adotara-o pra pai do coração e mesmo o velho sendo rabugento muitas vezes, esse era o retrato que a mãe pintara do seu genitor, o que só fazia que ele mais se apegasse ao tio de Selma do que se afastasse, ainda mais sabendo que aquele senhor praticamente não tinha família, por isso resolvera acompanhá-lo à vernissage, a saúde inspirava cuidados, mas queria conhecer a sobrinha que nem sabia de sua existência, quando a reconheceu, das fotos que o detetive que contratou para encontrá-la deu-lhe, mandou o rapaz dar uma volta no salão pra que ele tivesse um pretexto plausível pra puxar conversa com Selma. Assim sendo, sem tirar os olhos do “adotado” pai, era bem discreto pra perceber que a moça havia ido procurar algo, notando-a passar rente a ele, imantou-se nos traços dela que diziam de longe haver ligação com seu Wanderley, apesar de parecer muito mais simpática que o seu doente e seu perfume, como que de um anjo extremamente feminino e sedutor na sua candura, fixara total atenção do médico à jovem. Voltando os olhos a seu Jorge, notou que lhe faltava ar e correu a acudi-lo, checar-lhe os sinais, o que a fazer apressadamente, foi impossível que Selma não notasse que o homem que correra ao velho, fosse provavelmente o médico. Ela correu de volta onde repousava seu Wanderley e nesse tumulto, foram as apresentações entre ambos. O cuidado que a moça dispensava ao desconhecido senhor, despontaram o encanto que faltava pra que sua figura não saísse da memória do dr.Leonardo, mesmo atendendo seu paciente. Levaram-no pro carro e Selma meio aflita, pediu o cartão do médico e a autorização para que ligasse depois pra saber da saúde daquele senhor que fora tão simpático conversando com ela e aquela sensação de familiaridade que a visitava:  conversar com aquele homem lembrava-lhe os tempos em que ainda morava com o pai e a mãe, não sabia dizer o motivo, mas isso a confortava da solidão que lhe afligia de sentir-se só no mundo.

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Mme. Petra muito atenta ao acontecido, mesmo que a maioria dos presentes não houvesse notado, entretidos com a diversão, ela se desdobrara em ser cativante para que um mal súbito não estragasse o clima do lugar e criasse desconforto ao homem que necessitava de atendimento. Sabia que nessas condições o mais típico é que as pessoas amontoem-se em volta do necessitado, roubando-lhe o ar que lhe falta, então, pro bem de todos, melhor que não notassem. Mas não apenas isso:  vira que mesmo no tumulto, o homem que socorrera – desconhecia que fosse médico – encantara-se com sua assistente, o que ainda não sabia se era bom ou ruim pra família Marine, mesmo que de cara fosse notável que não era bom pra Tales, mas o que ele poderia saber sobre ser bom ou não pra ele? Jovens apaixonados não necessariamente são sábios e até então, ela e a irmã desconheciam se ele travava ou não contato com Selma. Certamente, na primeira oportunidade, iria se aprofundar no assunto com a assistente, mas teria que esperar o fim do circuito pra estar mais tranqüila pra abordar o tema, também pra caso surgisse desconforto entre ela e Selma, não perderia a assistente no meio do caminho. Tinha que ser o que lhe era típico: racional e calma. Mas uma coisa podia fazer ao café da manhã e faria.

 


[1] Mato-grossense-do-sul

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