Cap 13 – Preconceito é uma Idéia que não foi Estudada


Dali a dois dias era seu aniversário, pensava Selma: 30 Anos. Como esperara por esse dia! Eram seus novos 18. Mas o que lhe esperava em algumas horas era rever sua adolescência quinze anos depois. A Festa de Egressos seria em 4 horas. Tinha que se arrumar, embelezar, perfumar, adornar e pegar a estrada.

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Um tempo depois, no auditório onde reuniriam os ex alunos pra uma palestra com a palavra a alguns dos que mais se destacavam no cenário atual, o mestre de honras passa o microfone ao diretor que saúda as turmas formadas nos últimos anos. Primeiramente separados em blocos os cursos, acenavam de longe uns para os outros. A descontração era geral, assim como as surpresas. A maioria era facilmente reconhecível, mas mudanças eram inevitáveis.

No canto esquerdo, ao meio do grupo, uma cabeça não sossega observando e procurando aflitamente por Selma, era Rogério. Já com um sorriso de canto de boca, Eduardo ria de si pra si, imaginando que era uma espera infantil, já que tinha certeza que Selma lhe acompanharia no decorrer dos cerimoniais. Mas nenhum deles tinha visto a moça ainda.

Uma hora depois de começado o evento, uma sombra mediana, usando saltos adentra silenciosamente o salão, ocupando o primeiro lugar livre que encontra, não ligando se estava ou não no assento designado.

A cruzada de pernas no vestido tubo de veludo vinho, chamava atenção indo ao delicado camafeu que ornava o colo. Brincos longos com uma pérola à ponta despontavam a atenção ao penteado que prendia parte da ondulada cabeleira castanha, farta. Uma mini tiara prendia ao centro da cabeça, deixando escorrer pelos ombros as madeixas. Com uma maquiagem discreta que salientava os olhos de um escuro intimidador, os lábios em forma de coração sorriam à noite sob o gloss perolado. Selma tinha coordenação na aparência, impecável, sempre. Sem ostentação, imperava onde chegasse pela postura firme, decidida, ainda que extremamente orgulhosa, porque era seu escudo e também porque ali era um terreno que bem conhecia, nada podia sair do seu controle, sentir-se novamente num ambiente que ela podia conhecer cada pensamento, prever cada ação, era uma sensação de poder que sobrepujava todas as boas aspirações a que tinha se proposto. No íntimo observava tudo aquilo e um vazio se apoderava da alma, porque não fazia sentido. Tinha consciência de que tudo era efêmero, tudo era aparência, verniz, acabada a noite, nada restaria, voltariam às suas rotinas, alguns com a enganosa sensação que ainda podiam conquistar o mundo, outros, que pensavam haver conquistado, irritaria uns, encantaria outros, mas todas aquelas almas medíocres seriam o nada ao amanhecer. Era tudo um grande engodo social, pensava. Nesse momento, cedia da atitude imperiosa pra uma sombra a cobrir-lhe o olhar com uma dor saudosa de que aquele era o último lugar em que queria estar, ainda que fosse a única alternativa pra tentar esquecer por momentos, a figura do florista. Recompôs-se, novamente vestiu a máscara psicológica que a ocasião pedia e dirigiu-se ao salão, rogando silenciosamente encontrar alguma companhia que lhe salvasse a noite de ser disputada por aqueles dois adolescentes reprimidos.

Ao longe, braços abertos, baixo, de cachos abaixo dos ombros, aquela figura morena mnemotécnica estava com um largo e aberto sorriso esperando-a. Ela sorriu, apressou a passo e abraçou efusivamente o amigo de longa data! Não mudara nada! De braços dados com Gustavo, seu amigo gay da época escolar, Selma poderia enfim relaxar, rir, lembrar histórias, rir das piadas antigas e se livrar da companhia dos dois homofóbicos que lhe perseguiriam qualquer oportunidade nas próximas horas e definiria os próximos dias, já que não conheciam ou respeitavam as palavras “somos apenas amigos”. Posicionaram-se no fundo do salão, ao centro, o lugar perfeito pra verem, serem vistos, mas não serem importunados, já que boa parte das pessoas teria que atravessar os dançantes pra chegar até ali. No oposto à esquerda, Rogério e Eduardo fingiam amizade pra vigiarem-se mutuamente. Notaram Selma, notaram Gustavo, desgostaram, mas não sossegariam tão facilmente. Num relance ela observou e percebeu que procuravam um meio de livrarem-se um do outro pra estarem com ela que se atracou ao braço de Gustavo ao sondar o pensamento dos dois. Pronto, o circo estava armado, caminhavam juntos em direção a ela, disputando o passo mais apressado, atropelando uns, ignorando outros que os cumprimentavam durante o caminho, Selma sussurra com um sorriso social a Gustavo:

-Nem pense em sair daqui.

– Aproveita menina! Os bofes estão te disputando a tapa e tu vai ficar comigo?!

– Ótimo! Fica com os dois, então!

Sorriram animadamente com as ironias ditas e fingindo não perceber o cerco.

Eduardo começou:

– Oi Selma. Oi Gustavo.

O cumprimento a Gustavo mal saiu, foi uma educação forçada do tempo em que a pintora exigia respeito às escolhas do amigo. Não precisavam ser íntimos, mas Rogério devia ter respeito pela pessoa de Gustavo. Afinal, a quem interessava as inclinações emocionais dele? Ninguém absolutamente, assim como toda e qualquer escolha, só recai responsabilidade sobre seu autor e agente, não havia senão que mandasse à corte marcial o rapaz. Não podia nem ser acusado de ser afeminado, já que só ficava mais à vontade na companhia de Selma e ainda assim, precisava ser um bom observador pra notar as opções sexuais dele.

Eduardo cumprimentou com a cabeça a dupla, estendendo a mão e alcançando do garçom duas taças de champanhe, que ofereceu em brinde à Selma. O amigo gay da moça prendeu o riso, pela afronta galante que tingia de raiva as expressões de Rogério.

– Você está ótima, Selma, como sempre. Beijou-lhe a mão com todas as pompas que pareciam estar um século atrás. Esse era o grande diferencial entre Eduardo e Rogério. Enquanto um era culto, educado atemporalmente, o outro optava pela vida mais agitada possível, completamente imaturo nas ações, ao que Selma meneava a cabeça em desaprovação. Podia aceitar aquele comportamento em alguém que saía da adolescência, não num homem de 33 anos.

Olhares que tentavam seduzir Selma, silenciosos, mas mordazes e mesmo discretos não passavam despercebidos ao rival, que deslanchava em palavras desconexas, numa frustrante tentativa de engatar conversa.

Gustavo sorria ora sim, ora não, observando o movimento do salão, acenando, cumprimentando os que passavam, mas completamente ligado na situação tensa que se apresentava a Rogério, já que a cada desconforto demonstrado por esse, Eduardo sentia-se mais perto do troféu que ambos buscavam naquela noite. Selma não largava o braço do amigo gay por nada, ele nem pensasse em sair dali. A moça inventou uma desculpa e saiu exuberante ao lado de Gustavo, desdenhando na atitude a disputa dos dois.

– Mas, me diz, por que não, Selma?

– Como?

– Não disfarça que você me entendeu. Quem é?

– Quem é o quê? Sorriu.

– Quem é o poderoso que não está aqui contigo, pelo visto nem na sua vida, mas que consegue me manter grudado a você? Ironizou Gustavo num sorriso mordaz.

– Não seja assim…

– Então, não vai mesmo me contar?

Selma gargalhou!

– Você teria que entrar nos meus sonhos, cherry!

– Hmmm….. já gostei! Ao menos, esse, seja quem seja, foi capaz de tirar sua viseira daquele Marcus! Disse com um tom de raiva na voz.

– Marcus já tinha saído da minha vida, meu caro…

– E você ainda perdeu seu pai por aquele crápula!

Selma suspirou.

– É… eu não pude me despedir dele… e agora… Bem, agora é continuar, não é? Disse a moça na frase hiperbólica que desceu dolorosa pra depois subir forçando a alegria que a noite pedia.

– É… vamos lá. Já deu pra retocar o make-up, lindinha.

Sorriram. Voltaram ao lugar. As músicas iam e vinham e ao aproximarem-se do lugar que definiram pra si, Gustavo teve que pôr a mão na boca pra segurar a gargalhada que não podia sair diante da cena que aconteceria.

Altivo, elegante, com aqueles óculos que davam um ar altamente sensual pros padrões da Selma adolescente, por entre os dois disputantes, atravessa o espaço Miguel. O moreno alto a quem todos os outros estudantes homens queriam ser iguais e as estudantes queriam um momento a sós, sorria estendendo a mão à Selma:

– Me dá a honra?

Selma sorriu assentindo. Largou o braço de Gustavo e sem ao menos pedir licença dos presentes, abandona a cena deixando Eduardo e Rogério visivelmente contrafeitos. Gustavo não segura a gargalhada presa. Ri a balançar os ombros diante das caras pasmas e enraivecidas dos dois, para os mais irritar.

Miguel e Selma teriam sido o casal modelo da escola, não fosse o orgulho de ambos. Despeito e atração que não conseguiam se alinhar, ninguém se atrevia a chegar perto quando estavam juntos. Qualquer namorado, namorada, fã, paquera, ninguém existia quando estavam um diante do outro disputando quem tinha razão pra conter um desejo reprimido. Ele havia pedido-a em namoro, teria sido seu primeiro namorado, mas ela desdenhou por ciúme e pra testar até onde ia sua perseverança, que não agüentou o ultraje e na semana seguinte apareceu desfilando com todas as opções disponíveis a provocá-la. Ele tinha tudo que uma estudante desejaria pra namorado: bonito, inteligente, invejado, líder da equipe de handebol, o primeiro na feira de projetos… Defeito? Orgulho, presunção. Selma, por sua vez, tinha a fama sem ter a experiência. Era esnobe a tal ponto que fazia todos os rapazes se sentirem inferiores a ela, nenhum digno o suficiente. Não poupava palavras rudes incrementadas com um sorriso gentil que arrasava as aspirações de qualquer um. Exceto Marcus, que havia sido persistente o suficiente pra não aceitar suas negativas, pra acercar-se dela de todas as formas, ao ponto dela acreditar de fato que ele a amava acima de si mesmo, inclusive.

A deficiência emocional de Selma com relação à figura paterna estremecia todo o seu mundo com os homens, ela tinha que provocá-los, irritá-los, testá-los até os limites da paciência de um monge pra acreditar que podia confiar num mortal. Marcus tinha engolido todos os testes a seco e isso ela encarava como o sumo da devoção que alguém podia lhe ter. Ledo engano! Ali, diante de Miguel, que fitava durante a dança imaginando as mudanças que podiam ter ocorrido se ela tivesse sido menos exigente com o mundo, perpassava-lhe à mente que tinha adotado uma filosofia completamente falha pra se assegurar dos sentimentos de alguém. Ironicamente, sem uma ação sequer, Tales lhe dominara de tal forma, que ela entregava sua alma de bandeja, sem questionamentos, sem medos, sem reservas. Faria qualquer coisa, acreditava plenamente no caráter do moço, iria pra qualquer lugar desde que fosse pra ficar na companhia do florista, enfrentaria lugares desconhecidos, sairia da sua zona de conforto, enfrentaria o desconhecido, o inadmissível, o impossível tornaria realidade, porque o amor que lhe carregava era mais forte e mais profundo que podia atirar-se de olhos fechados àquele oceano sentimental, como narciso[1] se atiraria àquele lago calmo em busca de encontrar a imagem perfeita da irmã-companheira amada. Tinha certeza de quem ele era, tinha certeza do que queria como jamais tivera. Subira ao altar sim, com Marcus, mas nunca se convencera de que seria feliz com ele. Nesse momento, olhos que saíram da direção de Miguel e contemplavam o teto iluminado a imitar a abóbada celeste, sorriso pleno e eterno nos lábios, tornava-se encantadora e irritante ao mesmo tempo ao convencido Marcus que falara até ali, destilando toda sua oratória a seduzi-la, pra convencê-la a rever o tempo, descompromissadamente…

– Esse sorriso é um “sim”, Selma?

A pergunta irônica lhe tira dos pensamentos. Sorriso desfeito, olhar surpreso, desconfiado até, aturdida de como havia sido levada a tão longe sem errar os passos da dança.

– Desculpe Miguel, eu relembrava tantas coisas que, desculpe sinceramente, eu perdi uma parte da conversa…

– Imagino que eu não estava nesses pensamentos, afinal, você me tem aqui, diante de você. Imagino ainda que nada tem a ver com aqueles dois que lhe importunavam. Devia me agradecer por salvá-la deles.

– De fato, Miguel. Disse contrafeita. Obrigada! Desculpe minha indelicadeza, meu caro! Sorriso amolado, lhe solta a mão. Você já me honrou tempo demais com essa dança, certamente deve ir fazer a felicidade das outras presentes.

– Você sempre assim…

Tentou consertar o ocorrido. Afinal, quando a veria novamente? Não fazia a menor idéia de como encontrá-la e verdade seja dita, ele não ia atrás das mulheres, deixava que elas aparecessem.

Selma sorriu em despedida. Ele segurou-lhe a mão e com um sorriso galanteador envolveu-lhe a cintura com o outro braço trazendo-a bem para junto de si.

– Não se vá minha querida, afinal, quando poderemos nos rever novamente? Nem sei ainda onde encontrá-la… Continuou a embalá-la na música.

Visivelmente irritada com a ação de Miguel que evitava uma cena apenas porque não queria mais uma vez ser deixado no vácuo diante de todos por ela, impõe-se:

– Por favor, eu preciso voltar à companhia de Gustavo, vou com ele pra casa.

– Ainda é cedo… Por que pensar em casa? Ou melhor, até pode pensar, mas, por que sozinha? Sugeriu com um sorriso sedutor que se tornava cada vez mais irritante pra Selma que parou a dança e retrucou:

– Volte pra sua família, Miguel. Eu soube que sua esposa está com um bebezinho recém-nascido. Não perca seu tempo comigo, que não vou aceitar seu pedido, nem se corrompa com uma das presentes que adoraria dizer sim à sua proposta, mais pelo prazer de humilhar sua esposa do que pela sua companhia.

Ele estancou com as palavras da moça. A atitude que soava ríspida pra ele, cheia de um conteúdo moral que ele detestava, era ainda pior vinda do desdém de Selma, a quem nunca conseguira se acercar além de um beijo em cujo momento ela teve certeza que nada tinha a ver com ele. Num simples beijo, toda a tensão que havia entre eles desapareceu pra Selma que dera de costas sem dizer palavra, deixando-o sozinho na escadaria do teatro.

Selma voltou pra onde Gustavo estava. Rogério e Eduardo já tinham ido granjear a companhia de outras egressas ao que ela pediu:

– Por favor, me acompanha até lá fora? Eu vou pegar um táxi, mas não quero sair sozinha… Não quero que ninguém mais me irrite hoje, pode ser, cherry?

– Com esse jeito manhoso… está bem… Sorriu Gustavo, saindo de braços dados com ela, gargalhando às piadas da noite que observara.

Táxi parado, abraça o amigo, trocam números de telefone. Selma apóia as mãos nos ombros dele, olha em seus olhos com ternura e diz:

– Se cuida, tá? Foi muito bom te encontrar aqui. Nenhuma daquelas pessoas lá dentro me entende ou aceita, só você.

– Pra isso que servem “as amigas”, gracejou Gustavo querendo refrear os olhos marejados. Selma era a única que o aceitava sem preconceitos, de alguma forma se entendiam, provavelmente porque eram desentendidos pelo resto do mundo, cada um com suas deficiências emocionais que se projetaram na vida de formas diferentes, mas tudo reflexo da carência afetiva de dentro do lar, a falta de compreensão, de diálogo, de referência. Abraçou-a forte e longamente. Olharam-se novamente, tocou-lhe a face e sorriu em despedida.

Do táxi, Selma jogou-lhe um beijo que ele retribuiu simultâneo. Apesar de terem trocado números, sabiam que tão cedo não se veriam. Tinham tomado caminhos muito diferentes pra se aproximarem mais do que algumas horas naquela festa, mas ambos tinham a certeza que sempre poderiam contar com a amizade um do outro.

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Quando o táxi dobrava a rua pra chegar ao sobrado, Selma avista em frente de sua casa uma caminhonete que parecia conhecida. As parcas luzes da casa, já que não estava presente, iluminava muito pouco pra ter certeza. Quando pediu pro taxista acelerar porque achava que tinha visita esperando, a uns 200 metros, o veículo deu a partida alcançando o cruzamento deserto e seguindo. Retirou o pedido ao motorista, recostou-se no banco imaginando se seria uma grande coincidência ou de fato, seria a caminhonete de Tales, o que ainda assim, não poderia dizer que era ele, apesar de ser o mais provável e o mais improvável ao mesmo tempo.

“Não devia ter ido àquela festa!” resmungou consigo contrafeita. Era tarde, mas não podia lamentar pelo que não tinha certeza.

Pagou a corrida, subiu até o portão do sobrado, ainda olhou mais uma vez até onde a vista alcançava, mas, nada. Abaixou a cabeça, virando-se pra entrar.

Tales, que apenas dera a volta na quadra, apertado de vontade de vê-la, tinha desistido de ir embora pra voltar e esperar que ela retornasse pra casa. Não podia estar com ela, não devia falar com ela, não resistiria… Ainda conseguiu notar que ela entrava em casa. Sorriu, suspirou, entristeceu-se. Notara como ela estava linda e arrumada, mas nem por um momento pensou aonde ela teria ido, com quem teria estado pra trajar-se daquela forma. Ciúmes não lhe tomavam, não podia ter ciúmes do que não tinha como cobrar, tinha tristeza sim, por não poder ir até ela. Recostou a cabeça no apoio do banco da caminhonete, acertou o teto do veículo com o punho fechado, canalizando a raiva e a frustração de não dever se aproximar da sua amada. Deu a partida no carro, que desacelerou ao passar pelo terreno do sobrado, observando o vulto da moça pela janela do quarto entre o balanço das trepadeiras que a brisa soprava anunciando que podia trazer uma chuva praquela madrugada. De fato a chuva veio, acompanhando o olhar preso no teto sem repouso de Tales, na sua cama, na casa da mãe, sem conseguir dormir, ao som de uma música sertaneja que tocava do celular ao lado do travesseiro. Respiração forte, que expulsava tudo que não punha pra fora de raiva, de frustração, de impotência diante dos fatos. Não tinha nem conseguido ir passar a noite na casinha da floricultura… Não queria e não podia correr o risco de ceder à tentação de bater à porta dela no meio da madrugada. Acompanhando a chuva, Selma chorava silenciosa, agarrada ao travesseiro, segurando o avental que ele deixara na última vez que estivera lá e na saída brusca, esquecera. Ela guardara e dormia abraçada com a peça sempre que a saudade dilacerava-lhe a alma inconsolável.

 

 


[1] Várias versões contam a morte de Narciso, neste caso, a mitologia se refere ao conto de Pausânias, que diz que Narciso tinha uma irmã gêmea, com quem tudo fazia, em que tudo se imitavam, inclusive nas vestes. Quando a irmã morreu, Narciso foi tomado por tal desgosto que fingiu que o reflexo no lago era ela, entregando-se à morte pra encontrá-la, restando no lugar, a flor que leva seu nome. A imagem mais conhecida provavelmente é o quadro de Caravaggio, Narciso (1594-96). ). A ironia aqui é que a flor Narciso é auto suficiente, para se manter e preservar sua continuidade. No Islã, é associada ao homem reto e honesto no Hadith; outra visão associa a flor à transformação da vaidade e auto-centrismo na humildade de um ser mais individualizado e espiritual, pois o caule se inclina antes do nascimento da flor, de forma que ela nasça inclinada para a terra e assim preserve-se; essa figura concorda com a teoria de Andrew Morrison de que existe a necessidade de algum narcisismo pra que o indivíduo equilibre sua percepção em relação às próprias necessidades e as de outrem, onde seu excesso – quando a pessoa passa a necessitar da aprovação e admiração dos demais em exagero – gera uma insatisfação insaciável, tornando-se condição patológica; porém segundo Houser, o narcisismo atua como protetor do psiquismo, promovendo a constituição de uma imagem de si unificada, perfeita, cumprida e inteira, quando ultrapassa o auto-erotismo pra fornecer uma figura positiva e diferenciada dos demais, sendo altamente necessária pra um bom desenvolvimento emocional do indivíduo.

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