Cap 11 – Molhe a Flecha da Verdade no Mel antes de Lançá-la


 

No saguão do Aeroporto Internacional, D.Mércia espera ansiosa entre biscoitos e cafés a chegada da irmã. Era preciso que chegasse sem ser notada, sem que a imprensa soubesse de sua presença ali. Afinal, tinha antecipado a viagem por motivos familiares.

Enquanto isso, o avião se preparava pra pousar. Do lado do corredor, Mme. Petra pede um copo d’água pra aeromoça. Ficava nervosa com aterrissagens. Ao lado da janela, após o Embaixador, o sobrinho querido olhava para a cidade sob eles. O pensamento ia longe, ia dali alguns vários quilômetros. Estaria em questão de horas na possibilidade de ver Selma e não sabia absolutamente o que devia fazer, apesar de saber o que queria.

Chegaram, pegaram as bagagens. O Embaixador saiu por um portão tomando a atenção da imprensa, enquanto Mme. Petra discretíssima desembarcava com Tales no portão principal. Passados os abraços iniciais, o afago da mãe no filho estimado, como se ainda fosse um menino que voltava do acampamento em seus 10 anos de idade, as duas seguem na frente enquanto ele, em seu mutismo habitual, leva as malas.

O que não expressava ninguém sabia se na alma turbilhonava. Mas, por precaução, tia e mãe evitavam o assunto Selma próximo a ele, assim como procuravam apagar todos os rastros que dessem notícias da aspirante a pintora.

Seguiram pra casa. A conversa que aguardava os hóspedes se acomodarem e se alimentarem, já estava borbulhando na alma de D. Mércia, algo devia ser feito.

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– Sei que você adora dar voltas, mas vá direto ao ponto Mércia.

– Ah, então, como eu já comecei a explicar…

– Direto, Mércia.

– O nosso pai, seu avô, Tales, como você sabe, teve um segundo casamento. O neto dele da filha desta nova união, que pelo que sei, ela já partiu pra eternidade, bem, o neto dele é meu vizinho. E eu o convidei pra vir tomar um lanche conosco mais tarde pra expormos o assunto com ele. Então, vamos nos preparar pra ouvi-lo porque ele está numa situação delicada.

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Nesse meio tempo, D.Mércia havia se aproximado mais de Marcus desde o dia do incidente com Gilda. Tinha se certificado para que Antônia assistisse as necessidades da irmã. A pequena Júlia ela acompanhava na creche, era a menor de suas preocupações, já que Selma, sem saber, estava sendo fundamental em carinho pra meia-sobrinha que ela não tomara conhecimento dos laços que dividiam.

Marcus, a despeito de seu orgulho contumaz, aceitava os mimos e cuidados que D.Mércia lhe dedicava. A maternidade saudosa do filho distante apossou-se em carinhos para o meio-sobrinho. Visitava Gilda eventualmente pra saber de sua saúde. Levava o nome de todos pro Centro Espírita pra serem postos em oração. Mas inevitavelmente sentia-se constrangida na presença de Selma. Tantas informações ali e não podia compartilhar com a moça. Como ela ia revelar-lhe que o ex-marido era seu sobrinho e que Julia era filha dele com a amante, que na verdade, era meia irmã de Selma?! Confiava que tinha que cuidar do seu sobrinho primeiro, que era o que mais precisava de ajuda, a seu ver, já que estava alvo de Gilda que desejava vingar-se dele a qualquer modo e, estava completamente perdido de valores morais pra lhe nortearem e mostrarem o bom senso que devia cumprir. D.Mércia preferia crer que Selma saberia lidar com a situação quando ela se manifestasse. Enquanto isso insistia nos temas de perdão, amor ao próximo, reconciliação com os adversários em cada encontro com Selma que surgisse brecha pra falar do Evangelho. Mas a aspirante a pintora estava tão profundamente amando Tales que qualquer notícia que a mãe dele trouxesse seria recebida de bom grado e esse mesmo amor a deixava imune às provocações de Marcus que continuavam, a guerra jurídica era o que menos lhe perturbava, claro que era ciente da dor de cabeça que viria, mas, aquele sentimento lhe preenchia com uma tamanha paz que se tornava fácil lidar com o resto. O que antes levaria meses pra digerir, agora se transformavam em algumas horas de aborrecimento que logo largava ao esquecimento e à Débora para tratar do que cabia à lei. O resto, as amolações, injúrias, mentiras, e tudo mais, nem gastavam as energias de Selma, tinha se decidido faz tempo a não valorizar o que não lhe era bom. E Marcus, definitivamente não lhe proporcionava nada de bom. Era assunto morto. Claro que quando ele agia, era tomada por breve raiva, tristeza, mas logo depois se recompunha. E Tales, bem, Tales lhe sorria mentalmente de forma que nada material lhe fazia diferença, Marcus se irritava ainda mais com a indiferença e calma de Selma que tomava por falsos, que na verdade, a ex-mulher, imaginava, estaria lhe aprontando uma cama de espinhos, sentia-se perseguido por todos os lados, não confiava em nada, em ninguém. Desferia veneno em todas as direções. E mesmo sabendo do paradeiro da filha, aquele era um assunto que não o interessava em definitivo. Queria cuidar das suas riquezas ou do que restava delas. Queria garantir que Selma não faria uso de um vintém sequer do que era dele! Marcus estava perdido o suficiente pra não ter noção de limites. E isso o enrolava ainda mais.

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Chegada a hora do lanche, a campainha tocou. Petra um pouco menos apreensiva que Mércia, cuidava pra que tudo deixasse o ambiente agradável. Mas o que seria uma boa tarde mudou para:

– O que ele faz aqui?

– Como assim, Marcus? Perguntou D.Mércia. – É meu filho, Tales. Prosseguiu.

– Eu não vou ficar no mesmo lugar desse cara que andou pegando a minha mulher! Esbravejou.

– Como assim? Emendou Petra.

– Esse cara! Eu fui até a casa da minha mulher e ele estava lá com ela! São amantes!

– Calma filho. Disse Mércia. – Você deve estar enganado. Tales estava na Europa com a tia, minha irmã. E como ele poderia conhecer Gilda?

– Que Gilda! Gilda não é nem nunca foi minha esposa! Estou falando da minha esposa Selma!

– Marcus, você está divorciado, você não tem esposa, tem sua companheira, Gilda.

– Você está defendendo eles! Por isso inventou aquela besteira de creche, tudo uma desculpa, não foi? Você armava pra eles se encontrarem, não é?

Mércia já estava aflita, a pressão parecia uma gangorra. Tales, sentado no sofá, apoiou os cotovelos sobre os joelhos, cruzou as mãos, onde descansou o queixo, olhos pra baixo, calado. Petra tomou a voz:

– Afinal, o que está acontecendo aqui?

– Estou falando desse cara com a Selma!

– Peraí! Selma? A Selma? Perguntou virando pra Tales que levantou, pediu licença pra sair e voltar depois.

Os planos secretos do moço em aproveitar um momento em que Selma não estivesse em casa, entrar pela porta dos fundos e deixar-lhe algo no jardim que ela percebesse que ele estivera ali, foram completamente abortados com aquela recepção. Selma deveria estar com Marcus e ele tivera passado esse quase um ano perdendo tempo lembrando-se dela! Certo estava em ficar em silêncio! Certo estava em ter saído da casa dela aquele dia e os deixado a sós.

Saíra pra caminhar um pouco, observar o movimento e refletir sobre a vida. O pensamento insistia em voltar pra Vila Roseta e como não lhe deixasse, dirigiu-se pra Floricultura:  Ia aproveitar pra ver como estavam suas plantas;  ao menos nelas ele podia confiar.

Enquanto isso, na casa de D.Mércia, Marcus se acalmara um pouco após a saída de Tales, enquanto as irmãs Marine se entreolhavam tentando entender a situação. Quando a tranqüilidade começou a se instalar, lancharam, conversaram sobre assuntos diversos pra distraí-lo e poderem entrar no assunto que os levara ali.

– Marcus, de onde você conhece Tales? Perguntou Petra.

– Da Escola. Estudamos juntos boa parte do tempo. Era um pateta.

– E por que essa raiva toda dele então?

– Eu fui até onde Selma está morando, cheguei lá, quase um ano atrás e quando conversava com ela, ele surge lá de dentro. Estavam me traindo com certeza!

– Acalme-se. Desconfio que não seja assim.

– Como assim?

– Eu conheci Selma, não fazia idéia de que vocês TINHAM SIDO casados. Ela tinha problemas em lidar com o jardim da casa e eu pedi a Tales, que tem uma floricultura pra ir dar uma ajuda pra ela.

– Eu sei. Já conheci a floricultura dele.

– Conheceu?

– Sim.

Petra percebeu que algo mais havia ali, mas tinha que ir devagar. Enquanto isso, Mércia controlava-se pensando que as coisas estavam mais difíceis do que imaginava.

– Meu filho, disse D.Mércia redirecionando o assunto, eu chamei minha irmã aqui porque queríamos lhe mostrar umas fotos.

Abriram um velho álbum, mostraram diversas fotos da juventude delas, outras ainda crianças, e página a página, Marcus ia se dando conta de que algo lhe passara despercebido, até que deu de cara com a foto do avô, onde pararam.

– Meu filho, o pai de sua mãe, era nosso pai. Nós somos as tias que você não conhecia. Petra mora na Europa, onde trabalha com arte. E eu, coincidentemente, quando enviuvei, me tornei sua vizinha. Só descobri aquele dia na sua casa, quando vi a foto dos seus pais, você e seu avô.

– Então, você quer dizer que eu sou PRIMO DO TALES?! Disse esmurrando com os punhos cerrados a mesa da refeição, levantou-se e ficou a medir a sala, mãos postas à cintura, cenho fechado.

– Também. Mas…

– Pois eu não tenho nenhum interesse numa família em que meu primo me trai com minha esposa!

– Sua ex-esposa, Marcus, ex-esposa. Você continuou sua vida, tem Gilda, tem uma filha, que eu já soube, e Tales com certeza não tem nada com Selma, pois ele esteve comigo esse tempo todo na Europa, trabalhando, e posso assegurar que não tiveram contato ESSE TEMPO TODO.

– Pois eu acho que eles já se encontravam antes…

– Selma já foi à Europa?

– Não.

– Pois bem, ele morou um bom tempo comigo, desde que terminaram a escola. Só voltou ao Brasil quando o pai morreu e só conheceu Selma quando foi atender a um pedido meu, como já disse.

– Que seja! Mas eles me traíram de qualquer forma! Nenhum dos dois presta! Ele esperou esse tempo todo pra se vingar das minhas brincadeiras na escola com ele! Quem manda ser como era?

Petra já estava impaciente com o descontrole do novo sobrinho, torcia a boca percebendo que não ia adiantar muita coisa àquele instante tentar fazê-lo entender. Ele fingia não compreender pra poder se apoderar ainda mais da posição de vítima que deixava D.Mércia enternecida e Marcus já havia percebido que podia manipular a boa senhora daquela forma e assim, vingar-se de Selma, sabe Deus por qual motivo. Mas Petra não deixaria que isso se estendesse a machucar o sobrinho amado, independente de Selma, da qual já ouvira algo sobre as turbulências do casamento, só não imaginava fosse seu meio-sobrinho o participante daquilo, mas não deixaria que machucasse Tales nem manipulasse Mércia daquela forma. Essa a parte mais difícil:  Sabia que a irmã era muito coração e se envolvia rapidamente em defesa de quem lhe conquistasse os sentimentos maternais e, os olhos de Marcus, à cópia dos do avô, pai delas, era o grand finale pra que ele a tivesse nas mãos. Afinal, nem elas nem Tales herdaram os olhos azuis do pai que idolatravam, mas Petra, mais racional, se amava o pai incondicionalmente, também lhe conhecia virtudes e defeitos, mas Mércia sempre arrumava desculpas pra todos os atos do pai, como arranjaria pra Marcus.

Continuaram a conversa, falaram do pai, avô de Marcus, contaram histórias, fizeram tudo pra que ele se sentisse recuperando as tias que não tinha conhecido. Mércia completamente entregue, pensava que depois conversaria com Tales, se antes já não achava bom que ele se interessasse pela moça divorciada, tanto mais agora que sabia que o ex marido era primo dele:  Era inaceitável. Tinham que ser amigos, irmãos, unha e carne. Por mais carinho que tivesse por Selma, não deixaria que ela “destruísse” os elos – imaginários – entre os primos. Por um instante, desconfiar-se-ia que ela amasse mais ao novo sobrinho do que ao filho, o que não era verdade, possivelmente os amasse em igual conta, mas, motivos juntados, Selma devia ficar fora da história.

Já Petra, não desconfiava que o sobrinho fosse de fato sobrinho, já que a essa altura, já tinham ido inclusive ver as fotos que ele tinha do avô, apresentou os pais e tudo mais, por fotos, naturalmente, isso era ponto passivo e já tinha notado que as afinidades que pudessem ter seriam de outra natureza, porque até ali, nenhum sinal de que ele soubesse o grau da sua influência no mundo cultural, porque já percebia a índole do rapaz:  uma vez notasse e pudesse se aproveitar disso e das relações dela com o embaixador, ele faria e mais:  não deixaria que Selma alcançasse sua estrela e isso não era justo dentro dos conceitos da marchand.  Não acreditava em inocentes, cria que todos tinham sua parcela, mas isso não devia dar espaço a injustiças. Uma coisa era a Selma, ex-esposa de Marcus, outra, a Selma pessoa, profissional, ainda mais agora que dentre as correspondências que trocavam, ela tinha a própria idéia sobre quem era a moça e ainda tinha o conceito que Tales lhe passara sobre o potencial artístico da moça e ela era profissional o suficiente pra não confundir família com negócios. E ainda tinha Tales:  Conhecia o sobrinho o suficiente pra notar que haviam coisas ali que não foram ditas. E estava claro que Marcus não era exatamente um santo. Já o primeiro sobrinho, ela conhecia e era notório que tinha uma natureza bem diferente do outro. Mas onde se encaixava Selma na vida dos dois? Optou pela observação.  Em alguns dias seria sua chegada oficial, antes disso faria contato com a moça, já a tinha convidado pra participar das mostras, pra ajudá-la nos preparativos e tudo, teria tempo e oportunidade pra ir pelas bordas e saber mais, afinal, até ali, Selma já tivera oportunidade de perguntar-lhe pelo sobrinho, no entanto, as conversas nunca o mencionavam além do discreto email que comentava o fim das atividades do rapaz no jardim.

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Pagou o táxi. A situação não tinha permitido utilizar o carro da mãe pra ir até a Vila Roseta, mas sua caminhonete de entregas estava na floricultura, tinha como voltar pra casa depois. No terreno tinha uma pequena casa que mantinha pra sua presença ali, já que quando se enfiava na estufa, não tinha hora pra sair. Logo, tinha casa, roupas, tudo que precisava pra dormir lá. Foi pro seu lugar preferido pra pensar, trabalhando suas plantas. Debruçou-se a preparar um arranjo, uma peça que brindava aos olhos do cliente mais observador, que desenhava um “S” entre as flores escolhidas, com muito cuidado e visível carinho e que facilmente podia disfarçar atribuindo ao equilíbrio yin-yang ou qualquer coisa dual que lhe viesse à mente.

Arrumar uma desculpa pro S do arranjo era o de menos. O que fervia por dentro de Tales sem trair suas expressões, a não ser ao observador mais astuto que notasse o franzido no canto direito dos lábios que podia ser facilmente chamado de sorriso, era na verdade, o ar de desaprovação que lançava quando não podia ou não devia expor o que pensava, mas que nem por isso, lhe passara incólume. Irritava-se do fato daquele moleque da escola que vivia lhe incomodando, importunando, provocando, sem causas reais, não suficiente ter sido marido da mulher que amava, ainda era seu primo, poderia aturá-lo como primo, poderia aturá-lo como ex marido dela, mas, as duas coisas juntas… Resultariam num belo, inflamado e longo discurso de sua mãe. E ele podia fazer qualquer coisa, menos se permitir magoar a mãe, abalar-lhe a saúde que andava capenga. Não havia ninguém que tivesse o merecimento de ouvir-lhe as conjecturas pessoais, as únicas pessoas com quem ficava mais à vontade eram seu fiel jardineiro e Selma, cada um no seu patamar e com assuntos diferenciados, não podia segredar a nenhum e por mais que amasse e confiasse em sua tia, era família, e bem, já tinha família demais nesse angu.

O olhar desceu tristonho a formar o próximo vaso, pensou na surpresa que queria fazer a ela, pensou em todos os momentos que relembrara dos momentos que tiveram, raros, poucos, únicos. Apoiou as mãos na bancada de ofício, com a cabeça virada em 90 graus à sua direita, lábios presos, lia-se a frustração e os entraves que lhe perpassavam as idéias. Ainda que Marcus e Selma não estivessem juntos, não mudava que ela havia sido casada. E isso era intocável pra mãe. No que dependesse dela, os dois ainda se reconciliariam, pois não se acaba um casamento assim, pensava ela. Tales desconhecia os agravos da história. Não fazia idéia de quem era Gilda, nem de Julia, nem nada. Só sabia que o traste que lhe tirava a paz escolar, era seu primo e ex-marido de sua amada, e isso tia Petra até contornava, mas mamãe Marine… Mércia Marine iria incomodá-lo ainda que Selma tivesse sido casada com um esquimó que houvesse sido engolido por uma orca. Ser divorciada em si, já era causa suficiente pra desaprová-la… Se ao menos a mãe a conhecesse como ele a conhecia… se ao menos… Bem, era muita coisa que deveria ser diferente pra que ele enxergasse o caminho como possível. Só uma coisa não era possível, só aquilo a ausência, a distância, o tempo, não mudaram: a forma como ela estava cravada em seu espírito.

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Selma que saíra pra caminhar perdeu a noção de tempo, seguiu e seguiu até que a noite se fez quando ela estancou ao perceber que instintivamente tinha caminhado até a Floricultura. Notou as luzes acesas, notou que alguém trabalhava na estufa, mas definitivamente, não tinha o perfil do jardineiro com quem habituara a conversar e visitar esporadicamente, toda vez que a saudade apertava demais. Puro pretexto pra estar no ambiente de Tales, pra poder sentir sua presença, seu jeito, tocar as coisas que ele manuseava, como se pudesse tocar-lhe as mãos naquele gesto. O coração apressou-se e perdeu o ritmo, a respiração opressa, mãos frias, suando. Seria Tales? Como? Ele estava viajando! Provavelmente, não viria apenas para formar a ornamentação das mostras de Mme. Petra, pensava. Não seria ele… E se fosse ele? Quando chegara? Por que não dera notícias? Em pensar que a última vez que falaram, Marcus atrapalhara totalmente o assunto! Como? Como saberia se era ele? Não poderia simplesmente ir até ali… E se fosse um ladrão? Bem, um ladrão não ficaria na estufa e uma floricultura fechada, definitivamente, não seria alvo pra um ladrão. Só se fosse um ladrão de flores! Riu-se. Aproximou-se um pouco mais, arrumou uma posição mais cômoda de onde percebesse melhor o vulto, podia ser obra da sua imaginação, mas entregar-se-ia àquele sonho enquanto pudesse. A lua subiu e optou por voltar pra casa, mãos de musicista dentro do moletom. Aquela certamente seria uma noite dedicada ao violino, seu companheiro esquecido, mas que tentara ensinar algumas notas pro florista que quis ouvi-la quando chegou certa vez e notou o instrumento sobre a chaise do ateliê. Pusera-se às suas costas, para arrumar a posição do instrumento, colocar os dedos no lugar condizente pra execução das notas – tocou-lhe as mãos de dedos compridos, diferentes dos dela, enquanto os dela eram retinhos e organizados pra manterem-se a serviço do violino, os dele eram dedos de quem sempre usara as mãos pra trabalhos mais másculos, como eram suas atividades acompanhando o pai na arquitetura e a mãe na botânica. Longe de serem mãos para a tela de um pintor, eram as mãos brancas, compridas e desalinhadas mais lindas que ela tinha em recordação;  enquanto ele desafinava às cordas, ela deliciava-se em observá-lo, em envolvê-lo a pretexto da música! Nesses pensamentos imaginou que estivesse tão saudosa que atribuíra uma sombra qualquer à possibilidade dele estar na estufa. Voltou pra casa. Foi até o ateliê e descortinou um quadro que estava bem reservado, quase escondido, mas definitivamente bem cuidado pra que tivesse sido esquecido. Seria o motivo de um desmaio pra D.Mércia se entrasse ali agora: o quadro já posto no suporte era suavemente acariciado pelas mãos da violinista, com lágrimas que pararam no canto dos olhos, proibidas de rolar, quentes, enternecidas e saudosas:  lágrimas de amor que à contra ordem da dona, tomaram liberdade e deslizaram pelo rosto cor de pêssego sumarento, levemente avermelhado de emoção. Algum dia poderia deixar exposto? Poderia pendurá-lo em algum lugar da casa em que visse constantemente? Em aquarela, um florista com os dedos revirando a terra preta de um vaso, próximo a dezenas de mudas de azaléias (suas segundas flores preferidas, os reis eram os lírios) e todo um verdor ao fundo diante do homem, de avental cáqui em algodão, calças cinzas e camiseta Hering preta, que virava o rosto em direção à autora da tela, sem mexer o tronco, com um sorriso surpreso, tímido mas feliz de quem tinha sido surpreendido e um olhar convidativo a se juntar a ele pra comungarem com a vida, unidos à natureza.

– Eu te Amo Tales!

“É a única certeza que me deixa forte e me destrói.” pensou, limpando as lágrimas traidoras da sua emoção. Demorou-se ali quanto tempo? Não saberia. Terminou por armá-lo ao cavalete, recebendo toda a luz do luar sob a abóbada de estrelas que refletiam na tela, estendendo-se na chaise até adormecer “de lágrimas e luar”.

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Quem tivesse um amor

(Cecília Meireles[1])

 

Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pousá-lo no vento!
Quem tivesse um amor – longe, certo e impossível –
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de lágrimas e luar!
Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado…
Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria…
Ah! quem tivesse… (Mas, quem teve? quem teria?)

 


[1] Cecilia Benevides de Carvalho Meirelles (Rio de Janeiro, *07/11/1901 – Rio de Janeiro, +09/11/1964): Poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira, uma das vozes líricas mais importantes da literatura portuguesa. Começou a escrever poesias aos 09 anos, aos 18 lançava seu primeiro livro, a coletânea de sonetos simbolistas Espectro. Pela mescla de estilos, teve uma obra atemporal. Em 1934, fundou a primeira biblioteca infantil brasileira. Com Viagem (1939), ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras.

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