Cap 08 – Porque o Amor é mais do que Conjunção Carnal


 

A situação com Marcus caminhava. Entre fases de perseguição outras de raiva e ainda outras de fingida indiferença, Selma vagava entre ele não lhe inspirar nada, inspirar compaixão e lhe reacender uma raiva incontida por ter lhe afastado Tales.

Mme. Petra voltaria ao Brasil em alguns meses. Recebera a notícia num curto email. Solicitava que a acompanhasse nos eventos em que trabalharia durante a estadia na capital. Isso lhe parecia bom. Nem imaginava que pudesse ter alguma notícia do florista, já que não havia uma palavra sequer sobre seu email e ela, bem, ela afinal não resistira e fora procurar a floricultura alguns meses passados. Dera de cara com a loja fechada; ao circular pra ver se encontrava alguém, encontrou o jardineiro que lhe interrogou se podia ser útil. Perguntou pela loja, pelo Sr. Tales, com ares de quem pretende não se note o particular interesse no assunto. O jardineiro, muito simploriamente diz que “seu Tales tá longe, foi pras Europa dele. Parece que foi estudar ou trabalhar, enfim…” deixara  o funcionário apenas pra cuidar das plantas, manter as coisas em ordem. Não dava notícias além do seu pagamento, nenhuma a mais.

Nesse ínterim, largara as telas. Elas não lhe satisfaziam como antes, não tinha inspiração. Empenhava-se na creche, cuidava da casa, não mais com devoção, apenas pela necessidade. Lia. E agora, lia os velhos livros presenteados pela antiga vizinha, descobria um consolo que ajudava não apenas a não se revoltar mais com a própria situação como lhe dava a resignação de que o que importa é a consciência tranqüila, o dever cumprido, que esse é o bem maior que qualquer pessoa pode ter, fora isso, são efemeridades que trazem mais tormento que alegria e dessa forma, tinha que se educar enquanto pessoa, dominar-se ao invés de ser dominada pelas emoções, desejos, vontades.

Fugia dos possíveis candidatos, até tentava, mas sempre arrumava uma desculpa ou era sincera, evitando e cortando peremptoriamente qualquer ilusão sobre acercar-se dela. Talvez fosse muito ríspida consigo. Mas intimamente tinha a certeza de que não estava se punindo, assim como não tava se violentando. Respeitava-se e evitava machucar outrem.

Na creche, o apego à pequena Julia, crescia. Mantinha as atividades, mas tratava a pequena com mais esmero.

– Você gostaria de conhecer a sua companheira de trabalho aqui, Selma? Ela afastou-se um tempo, porque o marido faleceu, foi quando Deus nos enviou você… Agora, alguns anos depois, ela quer se aproximar mais das atividades e conhecer a jovem com quem divide essa doação maravilhosa de tempo e carinho com as nossas crianças. Que tal?

– Seria ótimo, diretora! As crianças falam tanto da “tia Mércia” que conhecê-la será muito bom. Não é Júlia?

A petiz lhe sorria ao colo.

– Você não está demais apegada a essa pequena, Selma?

– Isso é mal, senhora? Digo, se a senhora acredita que é mal para as atividades, vai doer, mas vou me desligar mais dela… É que é a menor por aqui… chegou bebê, a senhora lembra? E me sinto tão à vontade com ela!

– Por isso mesmo, minha filha! Pense se esse apego não deveria estender-se para além dos nossos portões.

Selma abaixou a cabeça. Será? Convinha essa idéia? Não sabia se estava pronta pra tamanha responsabilidade, se teria todo esse amor pra dar. Afinal, sua vida sozinha era tão cômoda! Ninguém pra cobrar-lhe, nem que requisitasse maior dedicação além do jardim, que não andava como antes, perdera a vida junto com a partida de Tales, assim como suas telas. Fitou a pequena Júlia nos olhos, ao que a criança lançou-se ao seu pescoço. A diretora se retirara. Selma pegou a petiz no colo levando-a pra junto das demais, era hora do lanche.

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– Então essa é a jovem que não desgruda da Julinha? Sorriu d.Mércia.

Selma corou sorrindo e apresentou-se.

– Meio impossível a gente não se apegar, a senhora não concorda?

– Me chame de você. Essa coisa de senhora me faz sentir velha! E velha eu não sou! (risos) Ao sair, gostaria que me acompanhasse num café, aceita? Quero conhecer melhor a jovem que me ajudou estes anos dividindo comigo os cuidados por essas crianças.

Surpreendida, Selma aceitou. Voltaram às atividades com os pequenos. Algo naquela senhora deixava-a confortável. Lembrava-lhe algo que não sabia definir, mas também não se importava. Fazia algum tempo que não se prendia a motivos e causas, entregava-se à divina providência com algum exagero. Selma fugia das coisas que intimamente lhe doíam, lhe incomodavam, a resignação adquirida pela codificação kardequiana vinha entulhada de medo, medo das coisas que precisava fazer, das decisões que precisava tomar, medo de se conhecer.

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– Eu moro aqui perto. Não gostaria de me acompanhar em casa? Seria mais confortável do que uma padaria, que tal?

– Claro! Adoraria conhecer sua casa!

Dirigiram-se pro Sobrado. A alma de D.Mércia sorriu ao adentrar novamente aquela casa. Iluminou-lhe o rosto. Selma notara que a senhora tinha como que rejubilado e rejuvenescido ao estar em sua casa, mas atribuiu ao clima sempre agradável que o sobrado trazia.

– É bom, né? É aconchegante… e olha que a senhora ainda nem viu o jardim! Ainda que ele ande meio descuidado… (risos) Mas venha, vamos pegar uma xícara de chá na cozinha e então a levo pra conhecer o ateliê e o jardim.

Serviram-se do chá de erva-doce e seguiram pro ateliê. Selma ia apresentando cada detalhe que lhe apaixonava no sobrado e o que cria ser admiração em D.Mércia, na verdade, era uma saudade rememorada.

Chegando ao ateliê, o sorriso desvaneceu um pouco ao ver o jardim, estava como alguém que não cuida da aparência por algum tempo. Selma notou.

– É, é verdade, é penalizante a minha falta de jeito com as plantas. Eu contei com a ajuda de um rapaz que entendia bem das plantas, ele tinha uma floricultura perto daqui, mas parece que foi embora…

Tentou disfarçar a tristeza súbita ao lembrar Tales.

– Mesmo?! Aqui perto?

– Sim.

– E como se chamava? O que houve que ele lhe abandonou sem concluir o serviço? Disse entre risos.

– Tales. Seu nome era Tales. Ah… não sei ao certo o que houve, mas nós costumávamos cuidar do jardim com alguma regularidade, ele me ensinava as técnicas e tal, mas depois sumiu; não é exatamente uma pessoa extrovertida… (risos) Algum tempo depois eu soube que ele viajou.

– Ah! E ele foi assim, sem dizer nada?! Não acredito!

Selma ria desconcertada.

– Não foi pra ouvir paixonites que a senhora veio até aqui…

– Como?! Então…

Selma estava tão distraída que não notara que o assunto não era exatamente esse.

– Digo, bem, eu tinha a idéia de que podia cuidar do jardim, fazer uma horta na estufa, e pintar meus quadros… paixões de alguém que buscava uma vida nova… Suspirou saudosa.

– E o que houve?

– Com? Respondeu com a mente distante.

Dona Mércia resolveu desviar um pouco o assunto.

– Você não recorda mesmo de mim, querida?

Selma voltou o rosto, fitou-a, mas, não, não recordava. D.Mércia sorriu pousando a xícara num móvel e segurando as mãos de Selma disse-lhe que era sua vizinha, no endereço tal, que lhe dera alguns livros certa vez, que na verdade, decidira-se por isso após notar o adesivo da creche no carro que Selma usava, concluíra pela regularidade das saídas, que devia ser a pessoa que a substituía na creche naquele momento de dor, de saudade do seu falecido marido.

Selma sorriu, agradeceu. Confessou que os livros ficaram alguns anos encaixotados e só poucos meses atrás ela resolvera lê-los e que estavam sendo muito úteis. Começaram a discorrer impressões sobre alguns textos por algumas obras que não perceberam passar até D.Mércia convidá-la para irem ao Centro Espírita que freqüentava, quem sabe não seria interessante ouvir palestras, estudar as obras de Kardec, receber passes, etc., sugeriu. Levanta-se enquanto Selma a segue, concordando que seria muito útil sim e que muito gostaria de ir. A senhora estanca frente às portas que dão para o jardim e exclama:

– Se você não se importar, eu gostaria de continuar o trabalho que meu filho largou!

Surpresa, Selma não conseguia entender o que prendia tanto interesse daquelas pessoas naquele jardim. Entendia que era um belo lugar, que não tinha talento, é fato, mas, quem sai oferecendo serviços gratuitos por um jardim? Enquanto meditava, D.Mércia explicava que havia sido professora do curso de botânica na universidade, que o filho a acompanhava nas aulas, etc.

Selma sorriu de si pra si. Quando ela estava certa que tinha que arrumar uma forma de afastar Tales de sua alma, aparece-lhe em amizade justo a mãe dele! Como isso era irônico! Seria um teste de resignação ou uma dádiva? Como perguntar por Tales pra pessoa que possivelmente seria a mais indicada pra lhe dar notícias? Mas como perguntaria sem transparecer seus reais interesses?

– Ah… então foi o seu filho que abandonou meu jardim?! (risos)

– É menina… engraçado que ele não costuma abandonar os trabalhos assumidos… (a grande pergunta que a mãe do rapaz fazia-se era: O que acontecera pra que Tales abandonasse o jardim do sobrado? E por que ele estava ajudando a manter o jardim, quando ela pensava que ter arranjado o local pra que Selma alugasse iria poupar o filho de se desdobrar entre a floricultura e o sobrado e não lhe dissera nada? Quem era aquela moça que tinha lhes aparecido na vida dessa forma?)

– E ele, (pausa longa) como está? (Nova pausa) Imagino que tenha tido algo muito importante pra viajar assim de repente (pensou: nem tão de repente, mas enfim…)? Sorria tentando emprestar diferente impressão à verdade que a pergunta carregava.

– Resolveu retomar as atividades a Arquitetura. Você sabia que ele é arquiteto, como o pai dele? Sim – o tom saudoso apoderou-se da voz que queria sumir entre lágrimas – como o pai… que foi quem construiu esse sobrado depois que aposentamos. Tales estava na Europa com a tia, onde fazia o ensino superior. Construímos aqui tudo pensando em que fosse nosso paraíso na terra… até que Aécio voltou pro plano espiritual. (Pausa)

(…)

Aí, depois que ele partiu, fiquei cuidando daqui, mas mudei pra capital – onde fui sua vizinha (risos) -, depois Tales e eu nos dividíamos em vir cuidar do Sobrado, ele montou a floricultura próxima pra facilitar a vida… (sorriu lembrando o filho querido, que era uma pérola de fato, não tinha queixa alguma a lhe toldar a imagem) é um menino de ouro, sabia? Sim, é sim.

(…)

Você falou que pintava? Esses quadros aqui são seus? – Falou observando mais atentamente os detalhes das obras –. Minha irmã é comerciante de quadros. Talvez você queira conhecê-la quando ela vier ao Brasil, aliás, ela virá dentro de alguns meses.

Selma que ouvira tudo analiticamente e com algum sentimento vendo a saudade daquela senhora ao falar do marido e do carinho que o filho lhe tomava, pensava em como devia ter sido feliz na companhia de ambos, que era o tipo de vida que almejava pra si e talvez nunca tivesse, justo porque quem lhe despertara essa sensação estava longe, mas vinha se fazer presente ali, na presença furtiva da mãe, que Selma não conseguia assimilar ainda as “coincidências” envolvidas.

– Ah… Será um prazer, desde que não coincida com umas atividades que vou fazer com uma marchand que vem da Europa também, veja que coisa! (riso) Mme. Petra Augusta Marine, talvez sua irmã conheça, se são do mesmo ramo…

D.Mércia riu. Selma não entendeu.

– Sim, conhece sim, é a mesma pessoa.

– Uau! que coisa! A senhora foi minha vizinha, deu-me alguns livros que estão sendo muito úteis, eu a substituí – em parte – na creche, depois de todos esses anos, posso conhecê-la, saber que é a locadora da minha casa, irmã da mulher que venero no mundo das artes e mãe do meu florista! Quer dizer, meu, não nesse sentido, bem, a senhora entendeu… (disse virando o rosto pra não ser notado seu rosto corado). Mais chá?

– Pois é… não, não, querida, chega de chá, ou não chego em casa…  O que os benfeitores espirituais nos prepararam, hein? Veja só você como nada é por acaso.

D.Mércia foi pegando sua bolsa e caminhando pra porta, acompanhada de Selma que entendia que a senhora se despedia após tantas lembranças.

– Foi um prazer imenso conhecê-la, viu? Esteja à vontade pra voltar aqui e matar as saudades, se quiser, é claro.

D.Mércia ria.

– Volto sim, se você me deixar cuidar do jardim!

– Com certeza! Alguém que tente destruir meu analfabetismo com plantas, eu agradeço! É até um abuso da minha parte aceitar…

– Que nada menina! Vai ser um prazer poder voltar e matar a saudade dos bons tempos que vivi aqui. E que bom que você já conhece Petra! Vou comentar com ela que lhe conheci e vi seus quadros e acho que tem algum talento escondido… Precisa trabalhar, mas já tem algo sim.

– Que nada, D.Mércia! Eu não tenho essa pretensão. Pinto pra espantar os fantasmas da alma, só isso. Por satisfação, pra ser feliz apenas! Disse mista de rubor e uma solitária dor na alma.

D.Mércia não quis acreditar no que lhe parecia, mas ignorou e afastou a idéia de si. Conhecia o histórico de Selma, por mais boa moça que fosse, que compartilhassem de idéias, crenças, valores, nada mudava que ela era a ex esposa de um homem visivelmente perturbado. Seria um estrago pra vida de Tales que se apaixonassem. Bom seria ele permanecer mesmo pela Europa. Selma conheceria alguém – e isso ela trataria pessoalmente de incentivar –, ele namoraria algumas européias e pronto, quem sabe só voltasse de férias e pra apresentar os netos que ela esperava ansiosa que ele tivesse. Ainda que a moça lhe inspirasse algum carinho, alguma compaixão, mas D.Mércia tinha tido a infelicidade de ver algumas coisas do que o ex-marido de Selma era capaz e não queria esse inferno pra vida de Tales.

Caminho de volta, meditava na decisão meio inesperada do filho de voltar à Europa, de retomar a arquitetura que não lhe despertava a mesma vocação que a botânica, será que teria algo a ver com Selma? Ela conhecia aqueles suspiros e olhar saudoso que a moça não conseguira disfarçar ainda que houvesse se esforçado. Seria recíproco? E a irmã? Como Selma conhecia sua irmã? E como o filho tinha terminado indo cuidar do jardim? Quanto a isso insistia de si pra si que o filho aceitara o encargo pela saudade ao pai, à sua memória, mas isso não justificava que ele mantivesse em silêncio estar fazendo isso. Afinal, ela tinha se esforçado pra conseguir alugar a casa a alguém que lhe inspirasse confiança de forma a poupar que ele se desdobrasse entre o próprio ofício e o sobrado… E pelo que percebera, Selma estava demais apegada à pequena Júlia, se resolvesse mesmo adotá-la, definitivamente isso só complicaria ainda mais o que não queria em definitivo pro filho:  Queria os próprios netos.  E Júlia, bem, Júlia precisava de uma mãe. Ainda lembrava o dia em que sua diarista chegou aos prantos sem saber o que fazer com a irmã que se envolvera com um homem casado e agora havia sido abandonada grávida e prestes a dar à luz a qualquer instante. Antônia não tinha recursos pra assumir a ela e a sobrinha que nasceria! O que fazer? Gilda, como se chamava, era uma moça teimosa, egoísta, difícil trato. Nunca se conformara com suas origens. Não se conformava em ser a filha da empregada enquanto o pai tinha uma família “de verdade”- como repetia – uma filha pra mimar, uma esposa, enquanto a mãe lavava roupa, cozinhava, se matava pra sustentá-las e o narcisismo ilusório de que era bonita e inteligente demais pra viver daquela forma! “Não, definitivamente não!” pensava, decidida a se vingar do pai, requerer “seus direitos” aos pretextos severos da mãe que renderam o túmulo de tanta tristeza e pela saúde debilitada de tanta dedicação pra sustentar as filhas: Antônia, a mais velha, do finado marido e Gilda, da qual engravidara do patrão que depois a expulsou da casa pra não atrapalhar seu casamento. Mas aí, chegara tarde. O pai morrera e ela direcionou sua vingança pra “filha querida” que tinha tudo enquanto ela vivera na subserviência! Revoltada, foi descobrir a vida da meia-irmã, seduziu-lhe o marido que expulsou a esposa de casa pra colocá-la no lar desfeito e quando ela achara que seria triunfante dando-lhe o filho que a esposa não tinha dado, ele a expulsa sem direito a nada, só o opróbrio e ainda tinha que agüentar que todas “as revelações” que tinha feito sobre a vida da esposa, em sua maioria mentirosas, menos uma, que se arrependeu profundamente, pareciam atraí-lo para o passado.  Deu-lhe o endereço atual e assim o esposo foi atrás da ex mulher, ao que ela estava espumante de raiva:  planos frustrados. Nessas condições Antônia perdida, chorava aos pés da patroa pedindo ajuda. D.Mércia indicou a creche pra que a criança fosse entregue, já que não havia recursos pra manter o bebê. Pela imensa tristeza do assunto, as noites de quinta-feira no Centro Espírita foram dedicadas a lembrar dessa alma doente que se entregara à loucura alguns meses após o nascimento da filha, oriunda da revolta, mágoa, ressentimento, culpa, vingança e toda sorte de sentimentos nefastos que carregava na alma por todos aqueles vinte e quatro anos de vida. Uma existência que se perdia pelo desengano, pelas tramas a que se envolvera pela própria vontade… Antônia tornara-se freqüentadora do Centro também, mais pela busca de auxílio material e espiritual do que pela reforma íntima necessária a todo aquele que espera de fato ajudar e ajudar-se.

Detida a esses pensamentos e lembranças, Mércia meditava que havia sentimento entre Júlia e Selma, mas teria a última os recursos emocionais necessários pra encarar possíveis problemas que surgiriam quando Gilda descobrisse que a filha pretendia ser adotada? Chegou a casa e para sua surpresa, ao aproximar-se da garagem, viu um tumulto na frente da casa em que Selma havia morado. Sabia que o ex-marido da moça tinha trazido a amante para lá após expulsar a esposa, ouvia brigas vez ou outra quando ocorriam no jardim e ela estava fora de casa, isolada que se mantinha pra não ficar ouvindo da vida dos vizinhos, além do quê, não interessava ouvir coisas que em nada lhe acrescentariam a vida. Mas, o que via? Era Antônia, sim! Era Antônia sua diarista que chorava segurando uma moça descabelada que tentava a todo custo enfiar uma faca no ex-marido de Selma. Não cria! Para uma dessas surpresas a amante do ex-marido de Selma era a irmã de Antônia! Logo, Júlia, a quem a pintora se desvelava em carinho era a filha dele com a amante! Como a jovem enfrentaria isso?

Ainda estupefata com as “coincidências”, sai do carro, ajuda a separar a jovem que se agarrava com todas as unhas a exigir reparação daquele homem que já sangrava, não podia saber se tinha sido ferido ou se eram pelos arranhões e/ou outra possível agressão que tivesse acontecido.

Diz pra Antônia levar a irmã pra dentro de sua casa, chamar o táxi que ela sempre pedia, para levá-las embora, que precisava acalmar a moça, que não poderia ter diálogo resolutivo naquelas condições. Outros vizinhos já tinham vindo ajudar, conseguiram separar, encaminhar a moça embora com a irmã que chorava de vergonha da cena, do estado de Gilda.

D.Mércia levou Marcus pra dentro da casa dele. Enquanto ajudava a limpar os ferimentos, riscos da faca pelos braços e peito, muitos arranhões arroxeados pela força empregada por Gilda, notava que algo lhe era familiar naquele homem que devia ter mais ou menos a idade do seu filho. Lembrava de Tales, em como era bom que estivesse longe quando um lampejo ocorreu-lhe: será que algo acontecera entre o filho, Marcus e Selma pra que ele partisse e nada dissesse sobre o sobrado? Bem, o que importava agora era ajudar aquele moço que só agora ela descobria o nome. Adentrara a casa;  cozinhou-lhe um caldo pra que se recuperasse. A presença pacificadora típica de D.Mércia quando não estava diretamente envolvida no problema, era um calmante pro rapaz que começava a pesar suas ações. Como ele deixara a esposa por aquela louca que só arruinava-lhe? Não suficiente, agora que seus recursos tinham escasseado com o período em que Gilda acompanhava-lhe, incitando a paixões desvairadas, pondo nas buscas supérfluas de festas, viagens, presentes, o prazer que intimamente nenhum dos dois sentia pela vida, já que punham seus objetivos em coisas efêmeras, em sensações animalescas do prazer sexual e material, que rendera todo o desvario em que se encontravam; com o dinheiro faltando, descobrira que não podia fazer uso dos investimentos que lhe restavam porque não haviam sido incluídos pelo advogado no divórcio, de forma que Selma participava do direito a 50% do que ele cria era  “tudo” o que lhe restava. Odiava Selma “pelo que ela lhe causara”, como cria, ensandecido. Era atraído por Gilda, mas o temperamento dela, sua posição social… Não estragaria sua imagem por causa da filha bastarda de uma lavadeira, uma empregada! Diversão sim, responsabilidade… De forma alguma! Bastavam-lhe os “prejuízos” com Selma. Era um discurso incompreensível quando ele expulsara Selma de casa com falácias e ameaças, engodando-a para que abrisse mão de todos os direitos que o casamento lhe garantia. Não fosse o testamento do pai de Selma que pedia que só lhe entregassem os recursos que sobraram de sua vida quando Selma estivesse sem o marido… Como que adivinhara a índole do genro e a seu modo, resguardava a filha.  Enquanto pensava nisso, aquela senhora que ele desprezava como vizinha, lhe cuidava os ferimentos e trazia alguma paz, lembrava-lhe alguém, mas quem? A mãe que morrera quando tinha oito anos? Será que estava tão bebê chorão que sentia falta da mãe? Não podia entregar-se assim àquela mulher que antipatizava, tinha muito orgulho pra notar que algumas pessoas são desprendidas de interesse financeiro. O que Marcus não podia suspeitar era que silenciosamente D.Mércia solicitava auxílio aos benfeitores espirituais pra ajudarem as pessoas envolvidas naquele drama. Nem queria parar pra pensar que história poderia estar por trás dos acontecimentos dessa vida, preferia concentrar-se em apenas ser útil naquele momento.

Conseguiu que Marcus se alimentasse. Ferimentos limpos, ele trocara de roupa a pedido dela, que já pusera pra lavar aquelas roupas pra mandar embora todos os fluidos deletérios impregnados pelas emoções negativas de Gilda, conforme a doutrina espírita explicava e ela cria. Observava a casa pra ver o que mais poderia de imediato cuidar pra aliviar a faixa vibracional que impregnava o local. Nesse exercício, observou quadros antigos, fotos da família de Marcus ao que aparentava, num canto contíguo. Parecia coisa de quem tem sentimentos, mas os ignora, esconde. Ele insistia em ser pior do que era de fato, deixava reinar tudo de ruim que havia em seu espírito. Mas qual surpresa o dia ainda lhe trazia:  Pegou um quadro, em preto e branco, ele bebê, no colo da mãe, sentada junto ao pai e atrás, em pé, uma figura que D.Mércia cria conhecer, pra tirar dúvidas perguntou:

– Meu filho, é sua família?

– Sim, meus pais, e meus avós maternos.

– Seus avós eram desta cidade?

– Sim e não. Ah… longa história… minha mãe era filha do segundo casamento do meu avô. Ele não lidava muito bem com isso, evitava nos envolver com a primeira família… Nunca conheci minhas tias, filhas dele. Esse era seu Andrade. Fechado, sisudo, de mau humor constante, um chato. Mandou-me pra um colégio interno quando minha mãe morreu. Eu não tinha tias? Não tinha família? Disse revoltado.

– Se acalme. Chega de fortes emoções por hoje.

Posicionou-se à sua cabeceira, enquanto ele deitava no sofá da sala. Fechou os olhos ao que ela aproveitou pra aplicar-lhe um passe magnético pra que ele se refizesse e acordasse melhor.

Depois que ele dormiu, cobriu-o com um lençol e fechou a casa, não sem antes dar uma última olhada na foto do seu velho pai. Sim, Marcus era seu sobrinho. Um sobrinho que ela não fazia idéia que tinha. Precisava fazer suas orações, dormir e ligar pra Petra no dia seguinte. Aliás, essa não seria a única pauta. Como Petra conhecia sua inquilina? Com alguma sorte, encontraria o filho na casa da tia quando ligasse e tentaria checar se pretendia voltar ao Brasil junto com a irmã. Definitivamente, não considerava que fosse bom. Mas, bem, tinham que conversar. Afinal, ele tinha um primo. E a melhor coisa era não se apaixonar pela ex-mulher do primo que pretendia adotar a sobrinha, filha do ex marido com a meia irmã, e que era prima-sobrinha de Tales, sobrinha-neta de D.Mércia e Mme. Petra…

 

 

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