Cap 07 – Porque tudo tem um Motivo de Ser e por isso Acontece


 

– Sim tia, eu fui lá. Sim, eu fui gentil. Sim, sim, sim.

– …

Quem estivesse observando não tinha como descobrir muito apenas com o que ouvia do lado daqui.

– De fato, as coisas ainda não estão como você imagina, mas acredito que haja progresso, potencial… não posso dizer que ela tenha ou não o talento…. (risos), mas tem a vontade.

-…

– Ajudo sim. Você tem razão… (sorriso amplo, iluminado, silencioso). É uma pessoa agradável e culta.

-…

– Vou ver como posso ser mais útil pra você.

– …

-Tudo bem, tia. Beijo, tiau.

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Estirado no sofá próximo ao telefone, Tales lembrava o jeito desengonçado de Selma que nem de longe parecia a figura reinante naquele salão em meio àquelas pessoas e seus champanhes, suas histórias sórdidas e tudo aquilo que ele detestava. Esgueira-se pelo sofá, como se fosse o lugar mais confortável do mundo, enquanto se entretêm com seu cachorro e pensa na tarde agradável com a moça.

Diferente do que a realidade se apresentava, Tales fazia questão de continuar usando suas roupas de algodão e trabalhando com a natureza. O diploma que não saiu da gaveta pelo desencanto em exercer a profissão, a mudança às pressas pra sua terra natal, encontrar a casa dos pais vazia e a mãe morando em outro lugar… Não tinha sentido abrigar-se ali. Mas, afastar-se daquele lugar tão aconchegante, tão com a cara do velho pai que dedicara todo o tempo desde a aposentadoria pra tornar único aquele paraíso na terra, nada tinha sido de qualquer jeito, tudo tinha o toque do pai e nada devia ser alterado.

Ele e a mãe concordavam que não por tristeza, mas pelo carinho que nunca acabaria – conforme a crença que abraçavam – tudo deveria ficar como o pai gostava, principalmente o jardim.

Os anos no Velho Mundo convivendo com a tia no mundo da arte enquanto freqüentava a universidade tinham feito toda diferença na alma do jovem.

Quantos anos teria Selma? Já sabia um pouco da sua história, ouvira como quem ouve a metereologia, afinal, seu pensamento estava em descobrir quem era a jovem com quem seu olhar tinha cruzado naquela festa que tinha participado com seus arranjos florais a pedido da tia, que não abria mão de que em todas as mostras que fizesse, a alma do lugar fosse preenchida com as flores únicas e sinceras que Tales cultivava. Pra Mme. Petra era o meio de tornar o lugar o menos comercial possível e fazê-lo mais pra elevação momentânea dos pensamentos e sentimentos dos presentes, por isso mesmo era proibido servir qualquer entrada, petisco, bebida ou fumar nos corredores das telas. Era imprescindível que aceitassem suas exigências quanto ao ambiente para que aceitasse o trabalho. Já tinha reputação pra isso, e a discrição nunca permitia qualquer estranho perceber que confiava o trabalho da ornamentação pro jovem “florista” Tales apenas por confiar no bom gosto do jovem e no primor de seus arranjos seja pela forma, seja pela vivacidade das flores, nunca colhidas, sempre colocadas de forma a que continuassem vivas, em seu ambiente de origem, com suas raízes e pudessem voltar pra terra depois, como sílfides de outra dimensão que emprestavam o encanto de suas almas pra que pobres mortais suspirassem por algumas horas, uma outra atmosfera fora do terra a terra, mas porque ele conhecia a intenção de seu trabalho, na qualidade de sobrinho da marchand.

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O trabalho de Mme. Petra tinha mais reconhecimento no Velho Mundo do que em sua própria terra, ao ponto de acharem que ela com o sotaque adquirido, fosse de fato uma européia. Desde jovem tinha ido buscar suas raízes familiares no seio da velha França. Apesar da educação recebida a nível religioso, – ela conhecia o conteúdo das obras de Allan Kardec,- mas coubera à irmã mais velha aplicar-se a viver a religião. Naturalmente, ela não ignorava o que aprendera, mas sistemática que era, dedicara-se ardorosamente aos prazeres do conhecimento das artes do que a construir uma vida familiar, de forma que sua paixão era o sobrinho único, a quem cuidara e ensinara tudo que podia do que já conhecera até então, sendo-lhe devota mãe nos anos que ele passara sob seus cuidados na Europa.

Tales Marine Andrade Campelo herdara menor amor do pai pela arquitetura, por construções que mais eram um reflexo da alma, projetos inspirados, onde tudo tinha uma razão pra ser; maior da mãe a paixão pela botânica, que cursara extra oficialmente ainda no Brasil e o gosto refinado da tia pelos livros, música, quadros, enfim, tudo que era considerado arte, inclusive o cinema, não esse de entretenimento das massas, mas as obras primas do enredo à fotografia, a composição da história, o que o fazia real, que fazia quem assistia sentir e viver a narração da tela.

Como filho único, estava longe de ser um garoto mimado, mas era o menino que toda mãe, pai, tia queria ter: gentil, educado, sóbrio, sensato, estudioso no que lhe interessava, dedicado e reconhecido à família.

Acompanhava a mãe à faculdade onde ela lecionava no curso de botânica, e assim, extra oficialmente adquirira não apenas o conhecimento como o gosto pela vida verde, enquanto ajudava o pai no escritório de arquitetura que tinham, decidindo pelo curso mais para agradá-lo do que por vocação. O pai era um trabalhador exemplar, disciplinado, metódico, detalhista que não aceitava qualquer projeto que apenas visasse um imóvel, ele queria mais, queria sempre dar qualidade de vida a quem fosse habitar a residência ou trabalhar no local projetado. De uma rigidez quase militar, Sr. Aécio era justo com os empregados, poucos, porém fiéis e fazia questão de sustentar a família com seus ganhos, não demovendo um centavo da herança da esposa, a professora de Botânica, D.Mércia Marine Andrade Campelo. Pelo estilo formal, porém um pouco complacente, ao mesmo tempo militar do trato de seu Aécio com a família, ele e a cunhada Petra não eram lá muito próximos, ainda que nunca houvessem tido alguma discussão ou desentendimento, mas veladamente, sabiam que cada macaco no seu galho. Tia Petra não agüentava que o menino Tales desde cedo se aplicasse a coisas que não prendiam tanto seu interesse, mas que fazia pra agradar ao pai. E mesmo quando decidiu mudar-se em definitivo pra Europa pra exercer sua paixão pelas artes, não deixou de ser a confidente de D.Mércia sobre os conflitos que a personalidade do marido que afetavam a saúde do mesmo.

D.Mércia era meio mãe do próprio marido, dedicara-se profundamente aos homens de sua vida: o marido e o filho. A mimá-los no que podia, mesmo não sendo o tipo dona de casa, pois tinha suas aulas, as atividades no Centro Espírita que freqüentava desde garota com a irmã e onde conhecera o marido ainda adolescente, seus gatos e plantas. Mas via a saúde do mesmo ir definhando dia a dia com as emoções que acumulava no trato com as pessoas com quem lidava. Cada mágoa, decepção, ressentimento não digerido vinha refletindo na saúde do seu Aécio. Quando aposentaram, resolveram construir o sobrado na Vila Roseta, os móveis eram todos de quando era menino, passados de geração pra geração, clássicos e pesados móveis de mogno que compuseram o ambiente do sobrado, o pedido das madrepérolas de D.Mércia foram aprovadas pelo marido nos detalhes da casa que abrigaria apenas aos dois, já que o filho, já era um rapaz e estava com a tia no outro continente. O ateliê pra que ele continuasse desenhando próximo ao jardim que a esposa cuidava. E o ipê… o ipê fora plantado quando era ainda um menino, junto com o pai, um homem simples e sem grandes recursos, mas dedicado ao trabalho honesto e cheio de hombridade.

Tales havia estado ali quando a mãe já não dispunha de tanta energia pra se deslocar da capital, onde adquirira uma casa após a morte do marido e se revezavam pra manter o sobrado em ordem, cultivando a memória do falecido. Segundo o que criam, ele apenas estava em outro plano e certamente lhe fazia bem não se desfazerem da última paixão de sua vida, não por materialismo, mas pelo que  representava: era a reunião não apenas dos móveis da família, mas de tudo em que acreditavam, como o bem estar e a energia que podia revitalizar o espírito, vinda da natureza. Além do quê, o sobrado ficava próximo à creche que a instituição que D.Mércia freqüentava ajudava a manter e assim, fazia alguns anos desde que ela se ausentara pra cuidar do marido, que a creche tinha sido abençoada com a dedicação de uma jovem que não podia ter filhos e que morava sozinha com o marido na capital, descobrindo a creche quando procurava algo que preenchesse o vazio que abrigava sua alma, pela ausência da maternidade. Parecia uma jovem triste, ainda que respeitável e dedicada com as atividades. Não fazia idéia de religião ou qualquer coisa, do que ela cria, de como vivia, nada, apenas o que a Diretora da creche comentara da sua “substituta” que chegara em momento propício quando não podiam mais contar com a ajuda presente de D.Mércia.

Por uma dessas coisas que chamamos coincidência, quando o marido desencarnou, surpreendeu-se ao descobrir que a vizinha mantinha um adesivo da creche no carro e que regularmente se ausentava de casa nos dias e horários em que a creche recebia sua substituta.

Um pouco de observação e algumas perguntas, D.Mércia logo concluiu que a vizinha era a moça que a substituíra. Mais um pouco de observação pra perceber que as dores da moça não se resumiam a ter ou não filhos e que talvez estes fossem a busca de refúgio que o casamento não lhe proporcionava.

De acordo com a crença espírita daquela senhora, tudo havia um motivo de acontecer e os bons espíritos que cuidavam do plano espiritual daquela creche tinham chamado Selma pra integrar a caridade que as crianças órfãs ou abandonadas precisavam naquela pequena cidade. Como Vila Roseta ficava relativamente próxima da capital, muitos eram os pequenos que eram largados naquele lugar pra ficarem distante da vergonha que podiam proporcionar aos seus genitores ou algo do gênero. Poucas daquelas crianças eram necessitadas de fato, ao menos, do ponto de vista do que seus pais biológicos podiam proporcionar, mas contavam com o orgulho, a vaidade e o egoísmo de pais e avós que se importavam mais com o que a sociedade ia pensar do que em fazer o que era certo e proporcionar família aos rebentos da ignorância e sexo desregrado fora dos padrões designados por Deus pra que as pessoas se unissem através da conjunção física: a lei do amor, ou pelo que podia frustrar o que fazia a maior parte dos casamentos sob a lei civil: os interesses desvinculados do amor.

Depois de reunir algumas informações, o coração de D.Mércia tinha sido inspirado a presentear Selma com as obras da codificação espírita e outras obras psicografadas pelo mineiro Chico Xavier, ela acreditava que na hora certa, seriam de bom conselho pra moça.

Quando soube do divórcio e das condições em que a moça fora abandonada pelo marido,através da diretora da creche, cuidadosamente a vizinha providenciou pra que parecesse providência divina – e de alguma forma era, afinal, Deus não escreve certo por linhas tortas, mas nós é que não temos noção de reta diante da justiça e bondade divinas ao ponto de suas linhas parecerem-nos assim, porque nossos olhos ainda estão incapacitados de ver as coisas claramente, de ver que todas as coisas são trabalhadas por Deus para serem boas coisas àqueles que O amam – que Selma encontrasse aquele paraíso na terra que era o sobrado, por um preço acessível, afinal, o que importava era que ela tivesse um bom lugar pra morar, perto das suas atividades, onde pudesse se inspirar e desenvolver sua pintura, e dessa forma, houvesse alguém com coração suficiente pra não destruir a obra de amor de seu Aécio mas pudesse usufruir do bem estar que a natureza e o clima harmonioso do sobrado traziam pra alma, e devolver com cuidado e gratidão toda a vida existente naquele lugar. Cuidou para que o corretor fosse discreto e não revelasse nada. Assim, Tales não teria mais que se desdobrar entre a floricultura que montara na Vila Roseta para estar próximo do sobrado e poder cuidar do imóvel na ausência da mãe. Ela sabia que o talento do filho seria bem mais reconhecido na capital, mas cria que nada sai errado no Universo divino e que os bons espíritos reúnem as pessoas por motivos justos, certos e elas duram na vida umas das outras enquanto seja necessário.

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Selma aprendera muito com a separação, descobrira, por exemplo, que as incertezas são o caminho para se ter certeza racionalmente das coisas que realmente importam. Que amor é diferente de atração sexual e que quando mergulhamos cegamente em um sentimento, emoção, relação sem a baliza do bom senso e do verdadeiro amor, tudo o que angariamos é dor. Seria mais prudente agora com a vida, menos relapsa com os sentimentos humanos, mais caridosa tentando devolver a Deus o que Ele cuidara dela através dos Seus Filhos: a humanidade, ao invés de ir apenas consolar-se da falta de filhos que o corpo lhe trazia, indo até a creche apenas para saciar seu desejo de ser importante pra alguém, ao invés da dedicação exclusiva a cooperar para o bem do próximo.

De certo, todo bem nunca é esquecido e as crianças gostavam da pintora, mas a consciência lhe acusava de que ali estava pra se consolar ao invés da ação desinteressada de fazer o bem.

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O jardim era completamente conhecido de Tales, o ateliê, o sobrado inteiro, mas certamente pra ele, o lugar tinha uma vida e uma aura novas com a presença de Selma. Mas isso, D.Mércia sequer desconfiava, afinal, por mais conhecimento espírita que tivesse, não queria dizer que se tornara Madre Teresa, queria o “melhor” pro filho e no seu conceito, uma mulher divorciada de um homem problemático e adúltero não era exatamente isso.

Quando Mme. Petra aproximou Tales de Selma através da “convocação” pra ajudá-la com as dificuldades do jardim, não podia imaginar que era a mesma moça que intuitivamente sua irmã tinha se convencido de que era bom ajudar a encontrar um lugar pra recomeçar a vida distante do ex-marido e de quebra facilitar com a manutenção que o sobrado exigia. Uma pessoa que saía sem nada de casa, seria bom encontrar um lugar harmonioso onde nada precisaria comprar pra poder viver condignamente e de forma confortável e os queridos móveis continuariam no sobrado, úteis.

Dessa forma, a jovem que lhe fora apresentada como promissora artista pela sócia do escritório que financiara a mostra de quadros, podia ser apenas o talento que procurava, o sangue novo pra dar uma renovada entre os medíocres artistas cheios de ego que lhe desfilavam a carteira de clientes e que precisavam ser enxotados como se faz a abutres. Fazia muito tempo que Petra não encontrava alguém que pusesse a alma no pincel. Mas na qualidade de profissional não podia confiar apenas na sua reputação, afinal, do que adianta a reputação de um marchand se não lhe vem quadros para negociar? Mme. Petra precisava de alguém que desse um novo rumo e sentido à sua profissão, o lucro seria conseqüência. Mas a moça, muito bem recomendada pela sócia do escritório, por nome Débora, a quem Mme. Petra tinha “a obrigação” de ser gentil, já que era uma das raras vezes em que um financiador não se opunha às exigências dela, ainda mais, no solo de sua terra natal, onde isso era ainda mais raro, pra não dizer, único. A perspicácia de Débora sabia que agradar a marchand em suas exigências era o cartão de “favor devolvido” para poder contar com a atenção da comerciante de quadros para com a amiga pobre de autoconfiança no próprio trabalho e ela não podia deixar Selma largada àquele marasmo de quem se resigna a viver como uma franciscana. Não que os recursos fossem o mais importante, mas, no conceito de Débora, uma ascensão profissional que desse gosto à amiga exercer, financeiramente resultaria nos prazeres que as mulheres não devem viver sem, mas era indiscutível que o primeiro benefício é trazer algum brilho à vida e ao olhar de Selma que cada dia estava mais reclusa.

Nisso tudo, o que Débora não imaginava é que estava fazendo algo além de ajudar a amiga a empolgar-se, podia estar apresentando o sangue novo que Mme. Petra buscava. O que d.Mércia não podia imaginar era que a antiga vizinha a quem juntara anonimamente “o útil ao agradável” era o possível sangue novo que a irmã buscara na Europa inteira e que seria um achado se fosse a próxima Tarsila do Amaral[1]. O que Mme. Petra não podia imaginar era que seu capricho por ter os arranjos da floricultura do sobrinho em todas as suas mostras e a convocação pra ser gentil com a moça que podia ser a artista nova que ela procurava, de forma que ele sondasse o ateliê da moça e desse uma opinião sobre os quadros, a pretexto de ajudar com seu jardim e estufa, fosse o tipo de moça que ela e a irmã não indicariam pra ele. O que Débora não imaginava é que aquela festa de fato, ressuscitaria, ou melhor, daria uma vida à Selma, mas não da forma como ela imaginava. O que Tales achava hilário, era que o endereço dado na ligação da moça a quem fora chamado pra sondar as obras, era o sobrado dos seus pais, por conseguinte,  era a moça que a mãe deliberada ou intuitivamente resolvera ajudar e se ajudar pra cuidar da casa e poupar a ela e ao filho de se desdobrarem com o tempo pra manter conservada, ou seja, de qualquer forma, ele terminaria sempre responsável pela manutenção do jardim; o que ele não previra era o fato de que se depararia com a moça que tinha prendido seu olhar e atenção como nunca antes no meio do salão em festas ao estilo que ele procurava se manter longe. Em contradição a tudo isso, Selma sabia o que mais importava pra ela: que o florista que a ajudaria com o jardim, era o rapaz que despertara nela algo que nem o violino, nem os pincéis, nem Marcus, nem ninguém tinham feito até ali e que ela sentia algo pulsar na sua alma, dando-lhe vida no momento em que seus olhos encontraram os dele.

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Como eu te Amo

(Elizabeth Barrett Browning – Tradução de Manuel Bandeira)

Amo-te quando em largo, alto e profundo
Minha alma alcança quando, transportada
Sente, alongando os olhos deste mundo
Os fins do ser, a graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
à luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não podem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas,
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
e a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.

 

Fechou o livro. Suspirou com os escritos de E.B.Browning[2]. Era possível amar assim? Perguntou de si para consigo. Levantou, foi até a cozinha, tomou uma xícara de chá, encostada à janela, olhando a noite, suspirando. Algo ali não saía o pensamento da última vez que ele estivera ali. Tudo estava tão diferente agora. Lamentava, tinha saudades, o que fazer?

Desde o dia que subitamente Marcus aparecera na sua porta e tinha provocado Tales, ele sumira e evitava-a de todas as formas possíveis. Lembrar disso sobrava à Selma uma raiva profunda do ex-marido… Estragava sua vida até depois da separação.

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A campainha tocou. Selma demorou um pouco a ir atender, já que estava na estufa com Tales entretidos com a botânica necessária. Sua falta de vocação pra mexer com a terra, apesar da boa vontade, era risível. Como não tinha o hábito de receber visitas, esperou que a pessoa cresse que era engano. Mas nada, insistia e Tales a interpelou:

– Você não vai ver quem é?

– Ah, eu nunca espero visitas… Deve ser engano. Além do quê, está boa a sua aula e a minha falta de tato com as plantas! (risos)

Ele rira também, mas insistiu:

– Acho melhor você ir ver ou vão ficar tocando.

Ela sorriu desconfiada e foi. Mal abrira  a porta e aquela figura bélica adentrara a casa falando mil coisas ao mesmo tempo que ela nem deglutira o fato de ser Marcus, muito menos conseguia entender o que ele falava.

– Afinal, o que você tá fazendo na minha casa? E quem te deu meu endereço?

– Você precisa resolver logo isto e sair da minha vida! Parar de me dar dor de cabeça! Me deixar em paz de uma vez!

Selma meneava a cabeça sem entender as insanidades que iam sendo vomitadas da boca do ex-marido.

– Eu não faço a menor idéia do que você tá falando! Já não fiz tudo que você me pediu? Que história é essa agora?

– Os investimentos! Você precisa assinar esses documentos pra desvinculá-la dos MEUS Investimentos.

Selma ria e balançava a cabeça. Era inacreditável que estivesse ouvindo tudo aquilo.

– Você sabe onde encontrar minha advogada. Ela resolve tudo com você. Não precisa se abalar até aqui, até porque, você não é bem-vindo.

Tales adentrara à sala.

– Eu ouvi uns gritos e vim ver se precisava de aju…da. Interrompeu-se ao dar de cara com Marcus.

– Ah! Eu não acredito! Então é por isso que VOCÊ abandonou nosso casamento?!

– Hã?????

– Tales Campelo! Você não tinha gosto melhor, Selma? Ria ironicamente Marcus.

– Peraí, vocês se conhecem?

Tales, que calado estava, calado ficou. Deu de costas e saiu falando:

– Depois eu mando buscar meu material Selma.

– Não, peraí! O Marcus nem devia estar aqui! E nós estávamos trabalhando! Quem TEM que ir embora é ele!

– Resolva seus assuntos. Depois a estufa.

Saiu. Selma estava boquiaberta e enraivecida com a figura que já tinha se instalado como parte do lugar.  Marcus definitivamente sabia ser irritante quando queria.

– Sério Selma que você está com o Tales? E ele já deixou de ser o pateta que era na escola? Ria.

– Do que você está falando, Marcus? Faz um favor, vai embora que não temos nada pra falar. Eu já disse, faz dois anos, que os seus assuntos deviam ser  tratados com a minha advogada e eles se encerraram quando assinamos o divórcio! Saia da minha casa! Disse assertiva.

– Nossa! Então, é verdade? Você está mesmo apaixonada por esse cara? O que você viu nele?

Selma teve vontade de rir, de responder no mesmo tom, mas viu que entrar na mesma faixa mental de Marcus era se comportar de forma tão doente quanto ele.

– Ligue pra Débora, Marcus. Ou melhor, pra Dra. Débora. Ela tem procuração e poderes pra resolver tudo. Eu não tenho a menor intenção em nada seu. Agora, saia.

Saiu, rindo, sádico. Como ele descobrira onde ela estava? A Creche! Sim, devia ter ido lá! Enervou-se um pouco, algumas horas até conseguir desprender-se da cadeira onde estava. Foi à estufa. Passou os dedos por onde Tales havia trabalhado. Suspirou profundamente. Seu cheiro ainda estava no ar ou no pensamento dela. A tristeza tomou conta de suas faces, desânimo. “Marcus não tem esse direito! Não o direito de estragar minha vida mesmo depois de tudo! E agora? O que Tales pensou?” Não conseguia imaginar. Cansada da situação, largou-se na chaise e perdeu a noção de tempo, chegou o pôr-do-sol, a primeira estrela, os primeiros raios de sol da manhã seguinte… despertou quando alcançaram seu rosto.

Mesmo tendo dormido, o corpo pesava-lhe. Nada de telas, pincéis, plantas. Até o coitado do gato teve que dar um jeito pra alimentar-se sozinho.

Sentara. Demorava-se a cuidar da higiene que era fundamental pra ela ao levantar. Depois de um tempo, foi cuidar da vida, monotonamente, ligada no automático.

O dia passaria sem o menor interesse, sem noção de nada. Só queria esvaziar a cabeça e continuar de pijamas.

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– Acredito que não tenho mais como lhe ajudar.

– Por quê?

– Acho que Selma precisa de um pouco de espaço agora. Resolver pendências com o ex-marido… Se for ex mesmo…

– Como assim?

– Eu não quero causar problemas pra ela.

– Ah…. (Mme. Petra entendeu que era mais um daqueles momentos em que não ia adiantar especular, Tales entrara na ostra, dali ninguém tiraria nada até que ele quisesse). Tudo bem, meu filho. Obrigada.

As últimas semanas tinham sido desastrosas, nenhuma das mudas em que trabalhava conseguia o êxito, terminava entregando pro seu jardineiro terminar. A cabeça na verdade estava a mil. Tinha raiva, tinha ciúme, tinha vontade de sumir, tinha vontade de enfrentar Marcus, tinha vontade de seqüestrar Selma pra um lugar distante. Noites de tango em Buenos Aires… sorria nessas horas, pra logo voltar “à realidade” de que Selma estava fora do seu alcance. Fechava-se novamente. Voltava e completava a idéia “a altitude de Buenos Aires faz subir minha pressão… não é bom”. Ria. Qualquer lugar, qualquer outra vida àquele presente, desejava.

Não suficiente, Marcus, tinha ido até a floricultura pra provocá-lo ainda mais. Ao seu melhor estilo, calara-se, mantivera-se cabisbaixo, ignorara completamente a presença e os insultos, de forma que o outro terminou saindo ainda mais enraivecido por não conseguir tirá-lo do sério. Não tinha a menor vontade de se envolver com tanta insanidade. Uma coisa eram as provocações da infância, adolescência. Agora era diferente. E algo dentro de si turbilhonava. E não queria perder o controle de si, da vida, do seu mundo. Bom senso ou Covardia? Quem de nós estará apto a julgar?

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Sem conseguir notícias de Tales, Selma resolveu ir pelas bordas e adentrar o assunto com a única pessoa que possivelmente pudesse saber dele: Mme. Petra. Ligou o computador e resolveu escrever-lhe de forma ampla.

“Cara Mme. Marine,

Escrevo para agradecer a indicação de Tales pra me ajudar com os problemas do jardim. A grande descoberta é que o problema não é o jardim, sou eu! (risos)

No momento, tenho que me virar sozinha. Acredito que novos projetos tenham surgido, pois não consigo localizá-lo pra continuarmos. O mais provável é que ele tenha admitido que sou eu o caso perdido! (risos)

Um abraço,

Selma.”

Descrente que teria resposta, enviou. Dias passaram-se. Não resistiu, procurou achar o endereço da floricultura. Na verdade, meses passaram-se.

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Débora cuidava dos assuntos de Marcus. Selma fugia que ele lhe aparecesse à porta novamente. Pintava, sem muito sabor, mas pintava, pra depois destruir, dar um tempo, recomeçar. Ia à creche. Uma nova criança aparecera. Algo naquele bebê lhe enternecia. Talvez fosse o fato de se sentir sozinha, sem Tales, com Marina sem nenhum email por mais de um semestre e Débora atolada de trabalho com as novas funções. Sentia que não devia ocupar ninguém. Um ano passou voando.

 

 


[1] Tarsila do Amaral (Capivari, *01/09/1886 – São Paulo, +17/01/1973) Pintora e desenhista brasileira que ao lado de Anita Malfatti foram ícones do Movimento Modernista brasileiro. Abaporu (1928), foi o quadro que iniciou o estilo antropofágico nas artes plásticas.

[2] Durham *06/03/1806 – Florença, +29/06/1861. Poetisa inglesa da época Vitoriana, Elizabeth, autora de Sonetos do Português, retratava a própria historia de amor com o marido, o também poeta Robert Browning, este é o n.43 da obra. Provavelmente o mais conhecido.

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