Cap 03 – O Mundo de Sofia


O Mundo de Sofia[1]

         Débora estava atirada na cadeira, olhos fitos na primeira gaveta, aparentemente largada ao descanso, quem visse sua alma, a veria andando de uma ponta a outra do escritório, ansiosa. Quanto tempo estava ali, assim? Dividida entre praticar ou não uma ação. Mentalmente levantava, abandonava a idéia, ia encontrar com as amigas, ou leria uma de suas petições, talvez fosse tentar novos looks ao espelho – que guardava na porta do seu armário pessoal, com uma divisão exclusiva pra peças alternativas de roupa, sapatos, acessórios, maquiagem, perfume e naturalmente, o espelho, conforme a necessidade se apresentasse -, talvez fosse checar emails. Mas fisicamente, estava presa à idéia. Num átimo abriu violentamente a gaveta. Olhava fixa. Suspiro, virada de rosto ao oposto, respirou fundo, prendeu o fôlego, expirou. Voltou o olhar e a mão ao interior da gaveta, retirou uns papéis que estavam em cima e achou o que bem a dividia: um pequenino porta-anel dourado. Sem abri-lo, via o branco cetim que envolvia a caixinha interiormente e via a mágoa dos últimos quatro anos, sentia as lágrimas, a raiva, virava o rosto como quem quer parar o suplício, mas não conseguia, precisava enfrentá-lo, precisava encarar o fantasma que assolava seus momentos intrínsecos. Em sua cabeça ecoavam as palavras da mãe, o silêncio do pai, os argumentos do irmão sobre algo que nada nunca tinha a ver com a questão. Amar não os amava, mas sentia, sabia que precisava estar e cuidar deles. O mutismo do pai que só aumentava com o tempo, as exigências insanas da mãe sobre tudo e qualquer coisa, a rivalidade fria que as mantinha díspares, numa simbiose doentia de quem “ama” de forma doente, de quem brigando parece acreditar que é afago… “não, não – pensava Débora – não é isso! Ela quer a minha vida! Ela queria ser eu! Ela tem raiva de não poder ser eu…” outro suspiro triste… essa era outra questão… e o irmão? Somava-lhe carência e despreparo, mas o que poderia fazer? Fazia o que podia. Pensar em outros problemas lhe deu o alívio pra encarar a tal caixinha, ela não era o pior dos seus pesadelos, então podia encarar e ver o que ali também estava: a liberdade! A liberdade da companhia, das idéias, dos projetos. Sonhos frustrados? Sim. Expectativas e Medo? Sim e sim. Vontade transbordante de suspirar e abraçar a vida da nova perspectiva que a vida lhe apresentava. Enquanto pegava, abria e observava o conteúdo da caixinha, seus pensamentos iam em flash-back, em retrocesso, os fãs da atualidade, do seu meio, que entendiam os requisitos da profissão que abraçara por sonho, paixão, como a única certeza concreta que tivera não a vida toda, mas a única certeza concreta de que o mundo podia ser diferente. E amara. Os livros cheios de leis, diretrizes, normas, projetos de lei e todo o arcabouço do Direito lhe envolviam, abraçavam, levavam-na para sua Pasárgada[2] pessoal.

         Voltando à caixinha, lá estava seu anel de noivado. Por ironia, era quadrado, não um círculo como tradicionalmente… o anel em ouro amarelo tinha uma linha mediana em ouro branco, que também não o tomava por completo, seguindo apenas por 180 graus, com um diamante embutido, pequeno como uma estrela distante, brilhante e solitário como haviam sido os malditos quatro anos de perda de tempo ao lado do bon vivant Fábio. Como pudera enganar-se tanto? Como podia ter se entregado tanto? Como planejara, investira, vivera uma relação unilateral? Sim, inconscientemente, a escolha de ambos pelo anel, era bem a realidade do suposto amor:  cada um em seu mundo, eram o casal digno da expressão “os opostos se atraem”. Ele, o filho único de um empresário falido, mantivera na expressão os dias áureos da família e assim, vivia uma farsa que ele se negava a admitir. Enquanto ela fizera Direito, ele fazia da vida uma eterna aposta em corrida de carros! E o pior: com os custos na conta conjunta que fizeram pra montar a casa, o casamento…

         O que talvez fosse inconsciente pra Débora era que se era, pra Fábio, uma moleta monetária, pra ela, ele era a fuga da patética vida doméstica. Isso explicava que intimamente ela não sofria pelo fim da relação, mas sofrera diversas vezes diante da possibilidade de rompimento e implorara reconsideração sobre a idéia pela única razão que dominava tudo que fazia: não perder nunca. Se perdera pela família na qual nascera, pelas críticas nada razoáveis da mãe-rival, no ostracismo do pai, mesmo que ainda vivo, pelo nada que o irmão fazia da vida mesmo que ela procurasse oferecer-lhe horizonte e meios de alcançar os sonhos pelos quais lutara arduamente, tijolo a tijolo pra construir pra si e proporcionar aos seus, Débora não podia simplesmente perder na vida que adotara pra si. Não perdera nenhuma das causas que enfrentara nos cinco anos de profissão:  dedicadíssima ao ofício, aplicava-se sem trégua a preparar-se pra cada batalha judicial, isso lhe roubava noites de festa, madrugadas de sono, momentos de lazer, de namoro… talvez Fábio tivesse certeza em cada queixa que fazia dela, mas, ponderava: ele tinha o que queria, por que ela não podia fazer o que gostava? Não oferecera tudo que ele procurava? Não cedia a cada um dos seus impulsos sobre gastos, carros, sexo e tudo mais? Seria justo que não tivesse o “ganho” de tê-lo por toda a vida?!

         Sabia das suas escapadas, dos presentes que oferecia a cada moçoila que passava de mini saia perto dele… das champanhes, dos passeios de lancha, das músicas compostas em seu violão e que a conquistaram também… composições supostamente inspiradas nela mas que serviam de tira gosto pra ele adoçar as mais resistentes… Fábio era um crápula, concluía. E ela, bem, intimamente se xingava também, mas isso não “dava o direito” à mãe de soltar a irritante frase: “eu não te avisei?!” Ele havia sido seu primeiro namorado pra valer, ela acompanhara toda a queda da família Bastos e agora, só o que desdenhava era “basta, bastos!” a cada arrependimento de Fábio sobre a iniciativa dela de romper após inúmeras tentativas de manter em terreno sólido a relação. Débora havia chegado ao seu limite. No seu horizonte, não havia espaço pro ex noivo. Era ainda mais irritante pensar nos anos “inúteis” que se comprometera com o nada, que se “doara” a um cafajeste… Lá pelas tantas, o computador começa a piscar que alguém a chamava pra um diálogo on line. Ela debochou de si pra si, levantou-se e jogou no lixo a caixinha e o anel.  Dois passos pra trás, olhou pro cesto, cheio de papéis amassados das cartas que rabiscara sem destinatário, cartas de insights, de pensamentos, idéias, preocupações, frustrações… era seu jeito de desabafar sem mostrar a ninguém “suas fraquezas”, não podia se dar ao luxo de que alguém descobrisse que ela não era uma muralha chinesa… No computador, um dos seus admiradores insistia em puxar assunto… Débora descobrira-se uma mulher cheia de encantos que podia sim, ter seus capachos amorosos, escapes do seu maior medo: entregar-se a um amor real, ainda que o desejasse com todas as fibras da sua alma. Não conseguia esquecer a melodia que ouvira da cítara no sonho que esquecera quase completamente ao acordar, ficando apenas com aquela melodia tilintando, seduzindo-a pra um mar de sensações que não se atrevia a entregar-se na vida real:  O general persa, em seus trajes típicos que a mantivera cativa como escrava de guerra, que a tomara contra sua vontade e a amara por sua vivacidade em lutar pelo que queria: liberdade. Ainda que fosse mais um tesouro de despojo de guerra, queria ter ao menos a liberdade de usufruir seu tempo “livre” da forma que lhe aprouvesse…. o que a Débora do sonho – transvestida numa outra mulher, diferente de rosto, corpo, cabelos, aparência, roupas, era a essência da Débora que ela bem conhecia, ou acreditava conhecer totalmente -, não atentava enquanto nos seus passeios regulares na busca verdadeira de achar meios de fugir e não de entreter-se, era que a luta diária em discussões ferrenhas com o persa, mesmo com a dificuldade do idioma, era que seu corpo queimava, seus lábios tremiam quando ele a tocava, no fundo, ela o provocava por adorar pertencer-lhe, mas isso não admitiria nunca, ou talvez, só séculos depois, quando rememorava ou imaginava (não tinha certeza se acreditava ou não que as pessoas teriam vidas sucessivas, existências sucessivas pra sanar seus carmas e cultivar seus darmas) através daquele sonho que não lhe saía da cabeça irritando-a com a presença e enternecendo-lhe o carinho, como um cacto que se cultiva na mesa do escritório como a uma orquídea… Ela sempre voltava e cedia no sonho, não na realidade do sonho, ao som da cítara que ele tocava quando a encontrou no lugar que se abrigara durante a fuga:  ali ela sentia que ele a amava, que o som tocava a alma e os desejos da Débora do sonho, mas que ela não sabia se voltava ou não ao persa enquanto o lugar estava cercado por seus soldados, não sabia se era uma artimanha dele pra aprisioná-la de vez, humilhando-a diante das outras concubinas que tinha, ou se amava-a verdadeiramente como ela sentia no âmago de suas certezas mais profundas… O sonho nunca se completava. Inclinou-se, resgatou o anel e sorriu de canto de boca: havia coisa mais interessante a fazer com aquela peça. O que seria?

Recusamo-nos a adentrar os pensamentos da menina mulher que descobrira seu magnetismo pessoal, seu encanto feminino, que amanhecera na vida, estilo e pensamentos da mulher que domina, humilha, fere, espezinha a todo homem que aparece, sem filtrar os sedutores de plantão dos corações sinceros que lhe admiravam a índole, como o doce e tímido Ricardo, que até ali, ela nem se dera conta de gravar-lhe o nome… Quem sabe o que contaria a suas cartas pro cesto de lixo? Porque quando guardava um plano íntimo e com algo de vingança ou de lição, nem Selma arrancaria uma confissão, se ela não se decidisse a comentar. E Selma, bem, o lado meigo de Débora, da menina Débora que conhecera Selma ainda quando cursava Direito e estagiava num orfanato que a amiga visitava e ajudava regularmente, esse lado se condoia com as adversidades que a outra enfrentara nos últimos tempos e achava uma agressão ocupar-lhe o tempo contando-lhe sonhos… apesar de que Selma sempre se interessara em ajudar a menina Débora a conhecer-se, a perceber a luta interior que travava e a manifestação onírica dessa guerra pessoal.

         Um toque na porta entreaberta tirou-a da idéia em que se apegara nos últimos minutos, com o disfarce habitual, pegou a primeira máscara psicológica disponível que era a mais usada: a menina doce e sempre simpática. O adolescente cheio de acne nas faces inflamadas viera temeroso avisar a “Dra.Débora” de que “o chefe” a aguardava na sala de reuniões. Ela lembrou-se imediatamente que o sócio majoritário da empresa de consultoria jurídica na qual trabalhava havia marcado de entrevistá-la pra uma nova e superior posição, talvez envolvesse mudança de localidade, ou apenas viagens eventuais, já que com a expansão dos negócios e os contratos com alguns setores ligados à política, haviam diversas novas oportunidades que objetivavam uma só coisa pra ela: desafios que a fizessem sentir-se viva e imponente no único lugar em que conseguia canalizar todas as energias que disfarçava no dia a dia: no tribunal. O retorno financeiro era um coadjuvante bem-vindo, ela aprendera a conhecer os prazeres que aliviam as dores da alma feminina: compras!

         Seguiu pra sala de reuniões não sem antes colocar o blazer clássico que descansava no encosto da cadeira e avisar o garoto das acnes e avisos, mais conhecido por “boy”  – cria um desgaste decorar-lhe o nome – porque era quem despachava documentos, ia pra fila dos bancos e tal, que ligasse para D.Selma e avisasse que passaria na casa desta em dois dias, que juntasse os documentos que havia solicitado.

         Débora mantinha sua aparência militar diante de todos no trabalho, mesmo educada, polida, gentil e prestativa ela tinha algo na sua postura franzina que sempre subjugava as pessoas, quer fosse pela entonação de sua voz, ou pelo gelo disfarçado de sorriso do seu olhar, o conhecimento também mantinha respeito, mas algo naquela advogada magrela e baixinha e seus saltos de cetim, ainda que de acordo com o ambiente, mantinha a todos em suave reverência que acreditavam chamar-se simpatia, mas não, eles não a atendiam apenas por simpatia, mas a fibra que carregava na alma, o grito de liberdade e emancipação pela vida que mantinha acorrentado interiormente, dominava a todos no ambiente, como a sacerdotisa tornada escrava pelo general persa[3]….e nesse mundo particular, em que dominava, nem as realizações profissionais eram tidas em euforia suficiente pra contar pra Selma, a reserva da advogada era tal que ela manifestava-se sob assuntos em que ninguém poderia dar grandes opiniões, falava das compras, dos livros, passeios, a sua alma era uma área reservada, seus medos e vontades eram guardados aparentemente ao alcance de todos, mas muito de Sofia teria que ser absorvido pra pensar em pisar nestas terras inóspitas que escondiam monstros e tesouros que era o espírito bélico que todo romano traz consigo.


[1] Referência à busca do autoconhecimento como a personagem do livro de Jostein Gaarder (1991) de mesmo título, onde a jovem Sofia é levada a compreender a filosofia do pré-socrático à Jean-Paul Sartre para entender-se, adentrar a uma nova fase de sua vida e ainda se livrar de um suposto perigo. Traduzido pra mais de 50 idiomas, está atualmente em sua 70ª. reimpressão.

[2] Referência ao Poema “Pasárgada” de Manuel Bandeira, como lugar ironicamente ideal. Também foi um lugar real: Cidade da antiga Pérsia, hoje sítio arqueológico na província de Fars, Irã.

[3] Narra a história que entre os séculos III e IV houveram guerras romano-persas envolvendo o Império Romano, Romano Oriental ao Império Sassânida que ainda se arrastaram em parte pelo séc.V.

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