Cap 01 – O Amanhã será o Hoje


         As ondas batiam na beira da praia, levando e trazendo infinitos grãos de areia; remexendo com o dedão do pé direito o chão sob ela, Selma procurava pelas conchas que menos comuns lhe parecessem, o pensamento ia longe, indo e vindo como as águas do mar, esse que nunca lhe parecera tão interessante, agora, refletindo as luzes do entardecer, parecia ser o único capaz de absorver-lhe o íntimo, as conjecturas, os sentimentos, as emoções, o reviver das tantas palavras, atos e impressões de Marcus dos últimos meses, imensamente contraditório, já que sempre se desapercebera da imensidão azul-negra por estar absorvida pela mesma guerra interior que levava dentro de si desde que se entendera como pessoa. Indisposta consigo mesma, por todas as coisas que deixara passar em sua vida, pensava no seu ingresso na idade balzaquiana e ponderava o que trouxera de fato até ali em sua bagagem pessoal, lembrava-se dos sonhos de menina, das aspirações da adolescente e começava a perceber como nunca havia se visto antes da forma como se deparava agora consigo mesma, como nunca se dera conta de quem ela era de fato, percebia sim um pouco de excentricidade, mas não se dera conta da menina que não tinha nenhum motivo pra ser, mas que sim, carregava um nariz arrebitado cheio de orgulho, vaidade e intolerância. Se via pequena diante de si mesma, dava-se conta de todos os pequenos momentos simples e felizes que tivera e não valorizara, o pensamento rodopiava em Marcus com o dedo em riste lhe apontando cada falha, cada imprudência, dotada dos típicos excessos que qualquer um confiara ter tido uma infância mimada, onde todos a serviam em todos os seus gostos, nada em sua personalidade denunciava que sua história de vida não era aquela e que só as recrudescências em um passado que varava eras, explicaria.

         Uma respiração arfante tira sua atenção daquela catarse profunda, enquanto ela se perdia comungando com o mar e revirando as cascas de mexilhões na praia, Marina fizera sua corrida diária; com seu otimismo revelador, sorriso cheio, a amiga chegara pra desfazer aquelas rugas insistentes em sua testa.

         – E então?

         – Como?!

         – Chegou a alguma conclusão?

         – Sobre?

         – Sobre todas as caraminholas em que você anda metida! (sorriu abertamente, retomando o fôlego e desacelerando o ritmo)

         Selma rira, Marina rira também por alcançar seu objetivo: desanuviar os pensamentos da amiga.

         – Vai ter sessão de poesia hoje no Espaço Alencar, vamos? Depois o pessoal vai pro rock no Rock Avenue, o Paulo vai tocar, vamos?

         Com os pensamentos entregues à maresia, Selma concorda amplamente empolgada com a programação proposta. A caminhada prossegue até o apartamento de Marina, onde estava hospedada, a uns quinze minutos da orla.

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         – Nossa! Você mais uma vez pintou as palavras! Fez mais um quadro definitivamente assinado pelo seu dadaísmo!

         Disse Selma sobre o último poema da amiga. Ouvem-se risos.

         – Ah, que é isso! Eu só falei o que tava sentindo com toda essa confusão do Pedro…. Ele não se decide, sempre naquele mutismo, sempre sem saber o que quer… sempre na dúvida… assim não dá, né? Eu quero é viver! Eu quero a alegria, eu quero a certeza, quero o sorriso, mesmo com os pés doendo! (Sorri) Aquelas botas me mataram! Mas chega daquela negligência emocional do Pedro! Ele pra mim, é problema dele! (Mais risos)

         – Mãe! Hoje tem festa de aniversário do Duda, lá no prédio dele, não esquece, tá?

         – O Léo tá ficando um garoto lindo, Marina! Vai te dar trabalho, hein?! A mulherada vai cair em cima!

         – É minha maior poesia! Fez o meu mundo valer a pena, fazer sentido, sabe?!

         – Algo positivo tinha que ter no seu casamento com o Álvaro, né?!

         – Nem me fale! (Bate na madeira da mesa) Nunca mais entro numa roubada dessas! Deus que me livre! Mas quando a gente é jovem, faz essas coisas mesmo, acha que sabe do mundo, da vida e ignora o que as pessoas dizem… era muita contradição pra um casal só…

         – Se os opostos se atraem…. quando a carga elétrica é demais, tem uma explosão! (Risos)

         O celular toca, um lívido suspiro toma conta do próximo segundo olhando pra tela do aparelho, Selma franze o canto da boca, desencantada, fica a olhar decidindo se atende ou não… Silencia o toque.

         – Não era quem você pensava?

         – É…. quem eu quero não me quer, quem me quer, mandei embora…..(suspiro!)

         Marina levanta da mesa do café da manhã tentando distrair a amiga do pensamento fúnebre.

         Enquanto isso, a algumas quadras dali, Rogério frustrado por Selma não atender seu telefonema, entrega-se à boemia, sua amiga contumaz desde a adolescência. Estudaram juntos, ele apaixonou-se por ela, por seu topete num rosto delicado, virginal, mas cheio de ímpetos, de vontades, de supremacia. Ele cantava “Dona” pra ela, hit dos anos oitenta do Roupa Nova, era a descrição perfeita da menina cheia de si que se deliciava em ser adorada e cortejada mesmo desdenhando os pretendentes que lhe aproximavam, ainda assim, Rogério podia gabar-se de tê-la namorado, a despeito de todos os outros garotos da rua. Mesmo Selma não sendo esse anjo de candura que Rogério insistia em emoldurar, mesmo que conhecesse seus vícios morais, suas infidelidades juvenis, ele também, um sedutor, contava como típico aos ardores da adolescência, já que também não era esse ser monástico, mas o que lhe consolava era ter a certeza de que na intimidade de Selma, nem ele, nem nenhum outro havia adentrado. Ela era imperativa demais pra ceder aos hormônios de qualquer um, era seletiva, sempre queria mais e não desistia. Dezoito anos haviam se passado, ele casara, tivera filhos, divorciara. Ela, quase isso. E não por ironia do destino, mas por uma busca incansável dele, encontrara-a novamente, nunca a esquecera, nunca desistira dela e achava-se um sortudo de ser ele quem a havia reencontrado e não um dos seus inúmeros fãs. Acreditava na sorte por ela estar separada de Marcus, a quem ele só conhecera por fotos em páginas das redes sociais na internet, não conseguia se render à realidade de que não desistira de buscá-la e esperar por ela, ou tê-la mesmo quando ainda estava casado. Mas se Selma era arrogante em suas ações e sentimentos, também o era na honestidade, chegava a ferir a forma como ela lidava com isso e com a sinceridade no trato com todos. O fato é que era exacerbada em seus defeitos, assim como nas suas virtudes. Se tinha uma conduta ilibada, era de fazer sangrar a quem não conseguia fazê-lo, mas se tinha algum senão, tinha sempre um discurso inflamado que lhe justificasse a ação. Esse, um dos problemas em sua relação com Marcus. Juntos há seis anos, o apaixonado Marcus se convertera no magoado, no ofendido e por isso mesmo, virado um tratante. Imaturo, cozia suas mágoas sobre a companheira dentro de si, enquanto ela irritava-se com sua falta de ação, os dois se envenenavam na falta de diálogo, até o ponto em que a honestidade de Selma virou a desculpa de Marcus para justificar sua fraqueza moral, diante da falência do casamento dos dois, ele preferira afundar o barco a pedir ajuda, enquanto ela, só percebera que as crises tinham passado de um limite tolerável quando ele pediu a separação.

         Agora, morando em lugares separados e mantendo o contato necessário, os dois já haviam passado da fase de trocar farpas pra de trocarem bombas atômicas, o que identificava que o amor passara ao ódio e a indiferença não era uma das vias escolhidas por eles. Não conseguiam se manter numa postura de paz, de decência; os encontros eram agressivos, as discussões eram labaredas. Se ela gritava a traição dele com a secretária, ele vociferava o passado namorador dela. Mas o que ninguém lembrava era que a vida dos dois mudara completamente quando se conheceram, ou ao menos, era o que ela pensava.

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A noite era mais uma noite comum no Centro Universitário, não fosse Selma ter se desviado do quase esbarrão que levara do rapaz que tentava entrar com ela na mesma sala da Biblioteca. Ela, vestida em traje urbano-chique, ele de chinelos e bermuda de surfista. Ela de saltos, ele despenteado. Era impossível imaginar que ela o estivesse acompanhando, como que aquela funcionária ousou pensar que fossem um casal?! Pegando os livros que viera buscar, Selma fugindo ao seu caráter habitual, repentinamente resolvera ouvir as queixas do retardatário, deu de ombros, sorriu de si pra si, pensando em como alguém podia ser tão enrolado! Não resistiu: na saída, puxou assunto com ele, sugerindo opções pra que ele não se prejudicasse novamente na entrega dos volumes. A conversa se desenrolou pelos mais diversos assuntos nas duas horas que se seguiram, a Instituição fechou as portas e não fosse o avançado da hora que indicava que o último ônibus estava a passar, não haveria uma despedida, mas nunca, de forma alguma Selma aceitaria uma carona de Marcus assim, subitamente. Ele por sua vez, também tinha muito orgulho pra deixar que aquela moça achasse que havia brotado algum interesse da parte dele, que ela se revelasse primeiro, oras! Afinal, ele era o garanhão. Não cederia àquele sorriso de covinhas desse jeito. Ela foi pra casa acreditando que tinha ganhado um amigo, que tinha bom papo e era mais um dos amigos homens que granjeara, já que não tinha tanta sorte assim com amizades com mulheres, além do quê, alguém lhe esperava no dia seguinte e ela já passara da fase adolescente cheia de namoricos, levava a sério um relacionamento, principalmente quando se mostrava estável e tranqüilo, quando tinha a certeza que se ela não lhe tinha amor, ele morria por ela e isso, pra Selma era o suficiente.

         Os dias passaram e as mensagens via celular e os telefonemas também. Não havia um dia em que aqueles olhos azuis não lhe passassem em lembrança, mas ignorando completamente o pedido de sua alma, Selma cria que tinha ganhado um irmão a quem muito queria bem. Até o dia em que na companhia de Tereza, em casa, ela passara mais de duas horas se arrumando pra um show teatral – tão comum nos seus fins de semana -, interrogada pela amiga quanto a quem ela encontraria lá, responde que algumas amigas e Marcus, ao que a outra lhe retruca:

         – Se você não está interessada nesse cara, por que já mudou três vezes de roupa? E tá se produzindo toda pra algo tão comum?!

         Tereza havia alcançado seu objetivo: tinha feito com que Selma parasse de olhar pro próprio umbigo e se desse conta do que estava acontecendo ali.

         No local aprazado, ele sempre atrasado, ela martelando a pergunta da amiga na cabeça:  tinha que tirar as dúvidas, tinha que perceber o que sentia de fato quando o visse chegar. A uns trezentos metros dali, ela avista uma bermuda com canelas finas e chinelos, camiseta simples e óculos, o coração palpitou, as mãos trêmulas suaram e Selma se deu conta de que Marcus não era um bom amigo, ela tinha que se guardar bem, porque estava diante de alguém que a fizera crer que era a pessoa mais importante do mundo dele. Era necessário fugir daquela sensação, daquele sentimento, daquela pessoa, mas ao contrário do que pensava que deveria fazer, mais eles se aproximavam, mais ela se envolvia, mais ela agastava-se quando pensava em encontrar aquele outro figura que era apaixonado por ela:  Com Aníbal ela tinha um bom entendimento, ele a idolatrava, a protegia, a supervalorizava, mas não lhe cobrava mais do que um dia de cada vez, sem promessas de futuro. Ela, nem tinha coragem de admitir de si pra si, o que a aproximara de Aníbal; além da segurança que ele lhe transmitia, pra ela, ele era o guarda-chuva numa tempestade, o seu protetor, a gratidão que lhe devia excedia o respeito e a honestidade dizia que nunca poderia desapontá-lo pelo muito que ele lhe havia feito quando a mãe dela morrera. Mas Marcus estava ali, com seus chinelos, bermuda, cabelo amarrotado, jeito de garoto levado, nunca revelando em seus trajes ou modos o empresário que era, certo que seus negócios ainda despontavam, mas pareciam promissores. E era impossível pra Selma não se encantar dia a dia por como ele a tratava.

         O tempo foi passando, ela se desvencilhando aos poucos de Aníbal, Marcus se aproximando dela, coração queimando entre o sentimento que lhe pungia e a dedicação que devia ao seu protetor. Chegou a hora da verdade, e Selma teve que declarar a Marcus que não podia corresponder-lhe as investidas: ela tinha alguém.

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– “Dia de luz, festa do sol, um barquinho a deslizar no macio azul do mar. Tudo é verão, amor se faz num barquinho pelo mar que desliza sem parar…”. Adoro essa música da Maysa[1]! “Sem intenção nossa canção vai saindo desse mar e o sol, beija o barco luz, dias tão azuis!…”

Azuis como os olhos de Marcus. Volta e meia, a lembrança partida, os olhos antes brilhantes, agora sem viço de Marcus lhe perpretavam a alma fazendo que qualquer momento alegre logo se encobrisse com nuvens que Selma tentava disfarçar procurando dirigir os pensamentos pra outras paragens.

– É! Eu adoro também! O meu barquinho! Vou guiando pro oceano, me deliciando com as ondas!

– E como estão as coisas no trabalho?

– Ah, nem gosto de pensar nisso, me irrita pensar que existem coisas ruins acontecendo pra pessoas boas, enquanto um monte de coisa acontece nesse país impunemente! Na minha profissão, no dia a dia eu vejo o desvio do dinheiro público, as verbas que deviam ser destinadas pra melhorarem as condições de vida do povo sendo encaminhadas pra verbas de gabinete! É ridículo que todo mundo veja e ninguém tome uma atitude!

Marina, médica de coração e ativista de carteirinha, se confrontava dia a dia com toda sorte de miséria humana que se pode encontrar trabalhando num hospital público, próximo de uma favela da sua cidade. Ela exercia a medicina com a alma, era querida pelas pessoas daquela comunidade e passeava entre eles sem temores, porque era respeitada pelo seu ofício e pelo bem que prestava a todos daquele lugar. Nunca se restringia a ser apenas a doutora, era a professora, a assistente social, a ajudadora sempre solidária no que lhe fosse possível e no que não era, sempre dava um jeito de arrumar quem pudesse praticar-lhe a caridade. Era repugnante voltar pra casa, ligar o noticiário e ver tanto abuso de poder num país em que as pessoas sorriem porque tem Deus na alma, nas crenças e ignoram que podem fazer diferente, que podem lutar por uma vida melhor se apenas exercessem sua cidadania, se tivessem coragem de enfrentar os mandatários do poder, os pseudo-governantes da nação. Num país cheio de riquezas naturais e culturais, como o em que viviam, era a precária educação das escolas que formava anti-cidadãos conformados, eram idéias como as dela e de seus amigos de ONG’s que disseminavam a esperança de que a luta pelo bem pode vencer, que alertava aquelas mentes sofridas e iludidas de que podiam ter uma vida mais digna do que se resignar a viver de falsas ajudas de um governo corrupto em troca de votos e a eternização no poder, que podiam eleger e vigiar representantes que lhe dessem desenvolvimento e condições de viver pelo seu próprio trabalho, talento, brio.

– Eu entendo, Marina… não é muito diferente na minha cidade também… e olha que eu nem lido diretamente com os problemas sociais como você, mas está escancarado pra quem queira enxergar a realidade política que nos assola! Entregamos o ouro pros bandidos e eles nos vendem as carnes pros tubarões capitalistas do estrangeiro… é uma vergonha que tenhamos que pagar mais caro pelos produtos que produzimos e consumimos enquanto outros países e seus mandatários se beneficiam das nossas riquezas!

A conversa ia enveredando pro lado político enquanto as lembranças de Selma remontavam à sua infância e ao RPM, seu primeiro despertar pra uma consciência eletiva, social, política. Lembrava que na juventude também se esgueirara pra um partido político pra fazer a diferença, os ideais em que acreditava e como o tempo e as adversidades foram lhe afastando das crenças que possuía, dos seus sonhos, projetos e se deixara ser mais uma na multidão. Nisso, o amor a Marcus também estava impresso: ela abdicara de tantas coisas pra estar com ele, pra se dedicar a ele, e agora, todoo empenho nesse “amor” haviam se transformado em um grande calhamaço de dores de cabeça e ela já havia passado da fase de se perguntar onde havia errado, ela já sabia, mas era difícil admitir que o erro fora casar com ele, confiar nele, quando todos os sinais e opiniões diziam o contrário, crer que aquela qualquer coisa era amor. Não havia sido muito diferente de Marina, também houvera se apaixonado por um espectro.


[1] Maysa Figueira Monjardim (São Paulo ou Rio de Janeiro, *06/06/1936 – Niterói, +22/01/1977): Cantora, Compositora e Atriz Brasileira. Ícone da MPB com 25 álbuns discográficos e 30 composições. Desquitou-se do marido com aproximadamente três anos de casada pela oposição deste – o empresário André Matarazzo, 17 anos mais velho que ela -, à sua carreira.  O Barquinho, é composição de Ronaldo Bôscoli (sobrinho-neto de Chiquinha Gonzaga, foi um dos seus amores pós-casamento) e Roberto Menescal. Ao 3. Disco, Maysa já era a melhor e mais bem paga cantora brasileira e muito prestigiada apresentadora com programa próprio. Em 1960 foi a primeira cantora brasileira a se apresentar no Japão, como apenas um dos lugares da sua intensa carreira internacional.

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