1a Crônica: Viking Tupiniquim


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Ela havia olhado pra ele muitas vezes. Ele a tinha xavecado outras tantas. Mas nunca haviam ultrapassado a linha do politicamente correto.

Ela já tinha pensado em abordá-lo, mas sabia que essa coisa de sociedade moderna, era conto do vigário: a sociedade continuava machista sim e, ia depender muito de quem era o homem que recebesse a “direta” para topar “numa boa”, sem constrangimentos.

Mas não havia passado de intenção. O receio era maior, o trabalho era maior, os afazeres diários eram maiores e o medo também: a insegurança que boa parte das mulheres solteiras têm de dizerem o que querem, pedirem o que desejem, sem que isso vire uma lista imaginária de uma lua-de-mel que nunca vai acontecer no mundo concreto.

Qual o limite entre a liberdade de se liberar sexualmente e a fragilidade de confundir os sentimentos, envolver-se, magoar-se… Qual a segurança que esse vôo permite?

O fato é que agora o telefone dele estava ali, na tela do seu smartphone, disponível num aplicativo de mensagens diretas. Não havia nome. Só havia um codinome. Aliás, nem era um codinome, era um identificador, já que havia tantos anos que ele se apresentara e que ela não estava interessada, que o nome dele se foi junto com uma série de outras memórias. Mas estava ali: uma foto dizendo que “o cara” daquele número de telefone celular era ele: o loirão da loja da loja de motos.

Entre uma mistura de viking moderno e desajeitado, com pavão. Para ela, ele tinha esse estereótipo do cara que coleciona conquistas, mesmo que nunca tivesse visto alguma. Mas o que esperar daquele tipo bonitão que sempre que podia falar com ela, tinha um xaveco ou mais.

Não, ele nunca fora vulgar e verdade fosse dita, o olhar era meio desconcertado quando a via, sempre acompanhado de uma coçada na orelha de quem não sabe muito bem o que fazer, mas que demonstra o que quer em cada pelo oriçado.

Valia a pena ser a boa menina, sempre comportada? Sempre santa? Sempre sem que nada pudessem falar de sua reputação?

“- Olha, chegou um produto aqui na loja que talvez te interesse. Uma loção pós-barba.”

Alguns minutos depois o bipe de mensagem nova:

“-Oi gata. Pô quero sim, mas eu to longe daí e não vou chegar agora”

“-Posso guardar pra você”

Ele confirmou, para depois desconfirmar que não chegaria antes da loja fechar.

“ […] mas depois te dou um cheiro pra agradecer, valeu?”

Era o gancho. Agora ou daqui a pouco. Agora ou dali a dias. O gancho pra ela agarrar mais uma iniciativa nem tão sutil dele. E daí que fosse só uma aventura? E daí se rolasse alguma coisa? Sem neuras, sem constrangimentos, sem dramas emocionais desnecessários.

Mordeu os lábios e acessou o teclado do smartphone. Respirou fundo e arriscou:

“-Sua namorada não se importa?”

Pronto! Dois coelhos numa tacada! Tirar a dúvida sobre a índole do moço e… dizer que estava “afim”.

Sem demora, resposta:

“-Ninguém vai contar pra ela.”

Era isso! Realmente não era só a cara de safado, realmente, ele era o que as mulheres acham que todos os homens são: safados! Estaremos certas?

Ele continua:

“-Mas e aí? Vc quer?”

Morde os lábios de novo, os dedos deslizam pelo teclado do telefone sem saber o quer dizer. Ele continua online. Ela sai do aplicativo, volta para o aplicativo e ele ali, com quem estivesse bem diante dela, com aquele 1,82m de uma pele alva matizada pelo sol da cidade, pelas andanças na rua, pelas corridas de moto, nos gritos e xingamentos no estádio em jogos do flamengo…

Tudo isso passando na imaginação, acendendo o desejo, queimando a libido, em dedos que não sabiam por em curtas palavras aquele redemoinho de hormônios gritando para se tornarem ato!

Lembrou o que um amigo lhe dissera: Falava demais. Enrolava demais. Não ia direto ao ponto. Se ele que era amigo já estava cansado… ‘ que dirá o cara!’ Foi o que ouviu sobre a paixão de seis meses atrás: mais um romance frustrado, mais sonhos desnecessários indo para o lixo que ela vinha construindo a decisão de não voltar a reciclar. Tinha que ser curta, direta, incisiva:

“-Quero.”

Ele estava online  ainda, na espera, no aguardo da decisão e mesmo que fosse apenas fruto da imaginação de Jéssica, parecia que por miliinstantes, ele ficara atônito e surpreso com o consentimento dela.

“-Vamo’ marcar”

Precisava esperar seus pais viajarem. Tinham vindo visitá-la. Só sairiam ao fim do mês. Ele aceita a espera.

Fez-se o silêncio digital nas próximas duas semanas. Haviam falado o necessário. Estava decidido e claro: era um encontro, com direito a abusar de todo o tempo em que ela o teve apenas na imaginação… sentiria as mãos grandes e másculas que ela olhava entre tímida e sedenta, passando pelo seu corpo, tocando, apertando, pressionando todas as áreas erógenas que ela sentia ter.

Pensava naquela versão viking tupiniquim e lhe arrepiava a nuca. “Calma, Jéssica! Vai dar tudo certo!” dizia para si mesma. “Não pode dizer p’ra ninguém!” ela pediu e ele assentiu.

O mês passou. O desejo aumentou. Ensaiou a checagem do interesse dele e para aflorar ainda mais os hormônios… o interesse dele crescia também. Quantos anos estavam naquele velado complô de culpa, pecado, lascívia e secreta satisfação? O suficiente para ela ter decidido que ia arriscar na mudança: sem romantismo, sem expectativas, um simples dia, um profundo ato… ou dois, ou três… ela sorria decidida.

O dia marcado se aproximava, mas a vontade não conseguia esperar! Ele querendo, ela flertando, os dois engoliam a volúpia em curtas e poucas frases que eram claras do que esperar, até mudarem a escala de trabalho dela!

“-Você pode fugir à noite?”

Ele já dissera no início que as noites eram da digníssima. Sem mensagens. Então uma saída era improvável, mas já havia enviado.

“-Vou dar um jeito. Não vou pra academia. Lá pelas 23h”

Combinaram que ela mandaria um sinal de que realmente a casa estava livre e ele confirmaria se a fuga estava pronta. Por algum desses motivos de macho alfa, na opinião dela, ele insistira que fosse na casa dela, não em um motel distante dos olhares que podiam denunciar, anotar, difamar.

Ele tentou fazê-la aceitar, provocando sua tímida ousadia: “ta com medo?” Ela falou da honra, do medo, da inexperiência da situação inusitada para ela. Ao que ele parecia ter larga escala de experiência no assunto.

Casa limpa. Lingerie, depilação, momento spa em ordem. Perfume, hidratante, cabelo… tudo que uma mulher pensa quando quer ser olhada como a mais sensual que eles já tenham visto. Não se enganem, rapazes! Nós mulheres queremos ser olhadas como fossemos a mulher que vocês esperaram comer a vida inteira; mas sem deixar o cavalheirismo de lado, exceto na hora de uma pegada firme, dizendo a que veio.

22:40h. 22:53h. 23:00h. 23:10h. 23:35h. “Levei um bolo. Vou dormir”, pensou. Deitou e a cama era a mais desconfortável possível. Sabia que, dada a situação do moço, naturalmente poderia ocorrer uma falha na programação. Decidiu rezar e rezando, pediu perdão a Deus por sua ousadia, por seu desejo, que se sentia a mais miserável das criaturas! (os efeitos de uma vida repleta de ensinamentos religiosos!) e que por favor, por favor, por favor… o afastasse dela se isso era pecado!

E é nesse exato instante, 00:10h, no exato instante do “afastai-me!” que bipa mensagem. Era o sinal combinado.

No susto, ela não responde com o sinal mas com uma pergunta:

“-agora?”

“-pode?” ele responde.

“posso. Em quanto tempo?”

“-10min”

“-avisa quando chegar” (Afinal, discrição e silêncio, ainda que já imaginasse os gemidos, sensações, interjeições, mordidas e sussurros…)

00:17h: “-kd vc?”

Ela digita entusiasmada: “-vou abrir”.

Não tinha boa-noite, não tinha cumprimentos, não tinha “como vai?” nem qualquer sinal de diálogo: beijavam-se com a vontade acumulada daqueles anos, com a volúpia crescente daqueles dias de espera.

“tava esperando teu sinal e vc não me mandou… resolvi mandar msg” ele sussurrou mirando os lábios dela avermelhados dos beijos trocados.

“imaginei que já ‘tava certa a hora, pensei que tinha levado um bolo” falou já desabotoando a camisa azul clara de estreitas linhas verticais brancas, beijando o tórax peludo sem exagero, passando os dedos penetrando os pelos e sentindo o calor, observando a cor, gravando nitidamente cada variação da tonalidade dos pelos de seu tórax, enquanto parecia que seu coração pulsava na entrada de sua vagina.

Sentia rubra os olhos dele fitando-a morder os lábios, beijar-lhe o peito e mais a umidade de seu órgão aumentava quando ele a segurava pelo pescoço beijando-a quente, descendo para os ombros dela, que respondia com mais gemidos a cada mordida, subindo o tesão a cada certeza que ele deixava sua pele marcada.

Quase rasga-lhe o vestido pelo decote, mas pára, fita-a, as mãos másculas que ela sempre imaginava tocando-lhe intimamente, agora subiam por suas coxas, subindo seu vestido preto em milissegundos. Ela desfivela-lhe o cinto, desabotoando-lhe a calça, desce o zíper… parecia uma moulin rouge até enrascar-se para que o zíper descesse sem machucá-lo. A ereção dele já era suficiente perceptível para atrapalhar a retirada da calça, que não era justa. Ele ajudou-a, jogando calças, meias para um canto qualquer do quarto.

Ela se afastou, sentando na borda da cama enquanto ele retirava o restante das próprias roupas, restando apenas a cueca. Ele sorri, a olha e diz:

“-Olha a carinha dela…”

Jéssica não sabia o que aquilo queria dizer. O que tinha de certeza de estar ali naquele momento, se confundia com o seu lado casto, como se fora virgem, como se fora uma alienígena, como se fora um rap em meio a um concerto de Bach. Ele repetia, mirando-a com um sorriso doce de menino que fugiu da escola pra bulinar a aluna do colégio de freiras:

“- olha a carinha dela…

Olhou-o com ares de interrogação. Ele prossegue:

“- já ‘tava dormindo?

– não… eu já tinha deitado, mas não tinha conseguido dormir.”

Ele caminha para ela, enquanto ela responde ao mesmo tempo em que pensa em que não importa o que fizera até então, só queria senti-lo, possuí-lo, retê-lo entre suas pernas com a vontade do penitente de acabar com a oração.

Abaixou-lhe o bojo do sutiã carmim rendado enchendo a boca quando lhe abocanhou o seio oriçado. Novos sons que Jéssica desconhecia, saem-lhe da garganta úmida enquanto ele sugava seu mamilo e ela baixava-lhe a cueca, acarinhando-lhe o pênis enrijecido, bruto, másculo, um atraente espécime fálico exalando testosterona.

Ela não deixou de notar que ele cuidara da higiene para ser mais agradável a ela, desde o hálito de menta na boca, até a intimidade do membro.

Desabotoou-lhe o sutiã com a prática de um experiente neurocirurgião marca um corte preciso. Ela notava tudo ao mesmo tempo que sentia, sentia, sentia… era toda sensação. Passou por suas costelas, mordendo, marcando, virou-a de costas, envolvendo-a, fazendo-a parecer minúscula em seus braços fortes, encaixando-a no seu peito, abodome. Ombros, pescoço, costas… volvia o rosto dela beijando-a com um tesão faminto e feroz.

Desceu-lhe a calcinha, tocando-a… ao que ela respondeu naturalmente rendendo-se, inclinando-se, pedindo silenciosa mas arfante para que a penetrasse. Mas ele insistiu em aumentar-lhe a vontade: empurrou-a para a cama com cuidado, fazendo-a sentar.

Antes que ele pudesse pensar em incliná-la para deitar-se, ela não resistiu estar à altura do membro dele que pareceu-lhe irresistível: segurando-lhe a base, encaixou a boca sugando-o como uma alma sedenta em um deserto, ela pode sentir com língua, bochechas, que mais o membro dele se enrijecia aos seus carinhos, o que a estimulava ainda mais a sugá-lo.

Ele foi segurando os cabelos dela em mechas, até que todo estivesse preso em suas mãos, dando-lhe a perfeita visão da lascívia dela endurecendo-o mais… ela afastou-se, subindo-lhe o abdome, peito, boca, beijando-o.

A puxou mais para si, ao mesmo tempo em que a fazia deitar-se de costas na cama, mas no sentido horizontal da cama, deixando que as costas dela e cabeça, se apoiassem na parede.

Os olhos dele não a largavam enquanto as mãos estimulavam sua pele arrepiada, ansiosa que a penetrasse. Procura o preservativo. Largara suas roupas sobre o preservativo na ânsia de suprimir a espera daquelas semanas, quiçá daqueles anos. Dizem que a curiosidade nunca morre. Se é verdade, a curiosidade de um homem sobre uma conquista sexual deve ser para lá de imortal…

“-cadê a camisinha?

-aí, embaixo das tuas roupas…

Mudou-a de posição, pondo-a no sentido vertical, enquanto rasgava a embalagem do preservativo com os dentes. Disse com autoridade:

“-Deita.”

O imperativo da frase deixou-a ainda mais excitada, ao que respondeu:

“-gosta de mandar, não é?

– sim.”

Ela que ainda se apoiava com os cotovelos, foi gentil mas decididamente empurrada para deitar-se. Afastou-lhe as pernas e passou a vestir o preservativo em seu órgão. Jéssica o admirava ponto a ponto, pelo a pelo, ação a ação… não havia espaço para dúvidas, questionamentos, nada além da entrega ao desejo.

Acariciou-lhe a vagina com a mão direita, enquanto a esquerda estava na base do seu pênis, o que ela nunca entendeu se quando os homens faziam isso era uma mini masturbação pós-camisinha e pré-sexo ou o quê. Também não era hora de questionar. Segurou-lhe ambos os antebraços puxando-o para vir para cima dela.

Ele se inclinou para ela, beijando-a (os homens sempre acham necessário retomar o ritmo do sexo depois do momento de colocarem a camisinha ou… as mulheres com quem costumam estar, esfriam e secam na primeira espera, não era o caso dela).

Olhou-a enquanto esfregava o próprio pênis pelos lábios vaginais dela. O olhar de tesão consoante com a boca semi-aberta que voltou a beijá-la, enquanto ela engolia o próprio pensamento: “Me penetra! Por favor!”

Mas ela não ousou pronunciar aquela frase. Estava excitada demais para correr o risco de ter que explicar a ele o que eventualmente ele pudesse achar que queria dizer, assim como engolia a cada vez que o apertava, segurando o desejo de arranhá-lo, que ele a xingasse…

Ele a penetrou e o momento em que sua glande atravessou os lábios vaginais dela, alcançando-lhe o canal vaginal, Jéssica alcançou o primeiro gozo. Mordia os lábios porque não podia morde-lo. Beijavam-se enquanto continuava a penetrá-la e ela sussurrou:

“- gostoso… seu pau é uma delícia! Aaahhh…”

E puxava-o mais para dentro dela, com as pernas enroscadas nas dele, apertando-lhe as costas, nádegas para que viesse mais e mais e mais para si.

Beijava-lhe os ombros e repudiava a proibição inerente à condição dele de homem comprometido, que a impedia de morde-lo a cada estocada com seu membro que agora a penetrava ágil e seguidamente.

Sem tempo para pensamentos, a afasia era dominada pelo ritmo do pênis dele, dando apenas expressão a variações de “aahhh” quando Jéssica é surpreendida por:

“- Posso gozar?”

Os pensamentos saíram do ritmo luxurioso de tudo que estava reprimindo para não espantar o moço, para “como assim?! Já???”

Jéssica engoliu seco, sorriu démodé e respondeu-lhe:

“- depende… vai ter mais depois?

– não, só tem isso.”

Por instantes intraduzíveis para um relógio comum, os dois ficaram inertes a entreolharem-se e ela ponderou que não havia alternativa:

“-pode…”

Realmente, o gozo parecia estar à porta. Ele penetrou-a agilmente com uma expressão de fúria e gozo (como os homens geralmente costumam fazer antes de ejacularem), que acabou em um suspiro de alívio, dele.

Ela simplesmente não sabia o que fazer, ficou ali a olhá-lo enquanto ele exibia um ar de quem venceu a 3ª Guerra Mundial sozinho (realmente, voo solo…).

O viking tupiniquim retirou o preservativo ainda estando entre as pernas de Jéssica, mas de joelhos, fora dela e, como quem observa a cena do triunfo, ele levantou a camisinha e admirou a “rentabilidade” de seu trabalho. O preservativo tinha quantidade suficiente para uma doação para o banco de esperma que gerasse muitos outros mini-vikings… Após essa contemplação, olhou-a, sorriu, atirou a camisinha para o lado, com o cuidado para não derramar, beijou-a, deitou-se ao lado dela e desandou a dizer:

“- eu tô doido, eu tô nervoso, olha como eu tô  tremendo!”

Mostrava a mão trêmula. Desatou a falar dos riscos de estar ali, de como as pessoas o conheciam pela vizinhança de onde estavam. E repetia e repetia aquelas palavras. Ela respondeu a única coisa que parecia fazer sentido naquela hora:

“- quer ir se lavar? O banheiro é por ali…” e apontou a direção.

Ele foi banhar-se enquanto ela ficou ali, deitada, pensando no “e agora?”, estava ali, depois de semanas, anos, de espera e desejo para ter; sem entrar sob o chuveiro, tomar uma enxurrada fria típica de quando nós mulheres estamos chegando ao clímax e os rapazes encerram a festa e dizem para os convidados se retirarem que “é só por hoje, pessoal! A festa acabou.”

Enquanto ela ouvia o som da ducha, já que ele deixara a porta do banheiro aberta, ela arquitetava o plano da retomada e assim o fez.

Saiu do banho, sentou perto dela, que se afastou para ficar em sua frente. Sorrindo como uma garotinha que roubou os brigadeiros da festa do irmão mais velho que não quer ser descoberta, empurrou-o suavemente com a mão e disse para que deitasse.

Ele resistiu um pouco mas cedeu, ainda alvoroçado, ainda falando sobre os riscos e repetindo as palavras que se tornariam um eco dali em diante: “ eu tô doido, eu tô nervoso, olha como eu tô  tremendo!”

Ela o beijou perto da orelha, suavemente passando os lábios entreabertos até o início do pescoço, onde o beijou novamente, continuou descendo, alternando beijos mais ousados e outros mais discretos, mas ao chegar em seu peito, ele se retraiu, segurou os pulsos dela levantando-a e ela sem entender pergunta:

“- que houve? Mordi? Doeu?

– não, só cócegas mesmo.

– não vai conseguir retomar?

– não.

– hmm, eu tinha até comprado um vinho…

– vinho? Tem vinho aí?

– comprei um.”

Ele a encarou instantes e depois olhou para frente. Ela se afastou, ele ainda a beijou e levantou, passando a se vestir, intercalando roupa, beijo, as tais palavras repetitivas “ eu tô doido, eu tô nervoso, olha como eu tô  tremendo!” e mostrando a mão e encarando a própria mão trêmula e falando das pessoas que conhecia nos arredores e que podiam saber dele ali.

Enquanto punha as calças e repetia o tal eco, ela pergunta:

“- mas isso é bom?”

Como quem pergunta:  está doido de nervoso, de tesão, de que a transa foi boa,  de quem deu mole pro azar arriscando tanto para só agora pensar nos riscos ou o quê.

Ele sorri:

“- É.

Não é?”

Ela sorri de volta, atribui o “eu tô doido, eu tô nervoso, olha como eu tô  tremendo!” ao tesão. Já passara por situação parecida com os namorados, sempre nervosos à primeira vez; pelo menos o viking tupiniquim não tinha ejaculação precoce, ao menos, a festa começou e ainda rodaram um pouco pelo salão…

Jéssica já nada dizia, o sorriso démodé se instalou como parte das ações diplomáticas da situação.

Beijou-a, já tinha os olhos fechados quando a beijava agora, diferente do início e disse que faria contato. Ela abriu a porta e ele recua palpitante:

“- tua vizinha tá aí no corredor! Ela me conhece! Ela é da academia, não é?

Jéssica perpassou os olhos no chão, encostou a porta, abriu a janela com cuidado e sim, lá estava a vizinha fumando, com um ar blasé de quem espera que o mundo acabe e ele não acaba nunca. A fumaça saía lenta, com o ritmo de quem tem a madrugada toda para queimar. Ela olha Jéssica que tenta lhe dar um sinal de “cai fora daí!” com os olhos mas, aparentemente, incompreendida.

Fecha a janela, diz que não há problema, ela pode dizer à vizinha para dar licença um instante do corredor, mas ele não deixa. Jéssica já não sabia se ria, se conversava, ou simplesmente ia pra cozinha abrir o vinho e tomá-lo só enquanto o viking tupiniquim decidia sair ou se acalmar ou ambos.

Ela deixa a janela aberta um pequeno vão e diz que fique à vontade para olhar quando a vizinha saísse. Mas a vizinha não sai. Conversaram outras coisas, ele conta o pretexto para sair de casa àquela hora. Outros assuntos. Ouvem o som de movimento no corredor. A vizinha entrara, mas deixara sua porta aberta. Eles voltam a encostar a porta deles.

Como o diálogo não fluísse mais relaxante, já era Jéssica que queria um pouco de tempo para si, sozinha, pra arrumar os pensamentos sobre aquilo tudo. Abriu a porta, silenciosamente encostou a porta da vizinha, fechando-a. Volta-se para ele:

“- Já. Só fecha o portão lá embaixo quando sair, por favor.”

Ele já está no corredor. Mantendo os pés no corredor, apoia-se na porta, inclina-se para dentro da casa de Jéssica, a beija, olha nos olhos e diz que vai fazer contato.

Ela fecha a porta. Senta. Precisava deglutir tudo aquilo. O que era o nervoso? O que era tantos erros que ele cometera para quem tinha ar de quem estava habituado a pular a cerca? Já devia ser experiente em saber o que evitar. O que era se despedir daquele jeito? Sexo por sexo não cabe beijo de despedida. Ouve som de alguém batendo à porta. Surpresa, espera mais um pouco, era a vizinha querendo entender o que houvera.

Jéssica tenta disfarçar mas não escapa dos comentários:

“- Nossa, aquilo que é homem pra você! Não deu pra ver a cara mas pela sombra atrás de você na cortina da janela… é um armário, hein?! E ele notou que aqui há câmeras de vigilância? Porque não moramos em qualquer lugar não… aqui fica tudo registrado pelas câmeras!”

Era uma garota, que como eu… CRESCEU!