2a Crônica: Sr. Harley Davidson


Para conforto da sua leitura, baixe ou acesse o Arquivo em .pdf: Harley Davidson 

“Eu não entendo o que houve com ele, B.!

-Mas o quê você quer?

– Eu quero um homem que entenda que eu não quero envolvimento, eu não quero a neura das relações, eu não quero a cobrança! Eu não tenho tempo para estar disponível o tempo todo! Eu quero paz! Eu quero um cara com quem eu possa transar sempre que der vontade e ele entenda que isso não quer dizer que eu esteja apaixonadinha por ele, que eu não quero os jogos! É tudo muito simples! Sem complicações.

– Mas isso é ótimo!

– É ótimo, mas parece que ele não entendeu o que é ser um ‘amigo com benefícios’.

– Você quer?

– o quê?

– Me diz se você quer. Só me dá um sim ou um não.

– Como assim? Se eu quero um amigo com benefícios? Sim. Mas eu não vou sair transando com um desconhecido. Nada disso.

– Você quer?

– B., você não vai me apresentar ninguém que eu vá achar louco…

– Eu só estou perguntando se você quer.

– Me dá uma pista do que seja. E se eu disser que quero e depois que eu souber o que é, não quiser?

– De boa.

Tá bom, é o seguinte: você e eu. Quer transar comigo? Quer que eu vá aí…”

B continuou passando as condições de disponibilidade dele, enquanto Jéssica ouvia. Ao terminar, ela passou a lista dela:

“- Então, tem que aceitar as condições: sem neura, sem cobrança. Com camisinha. Enquanto der pros dois, ótimo! Quando não der, um de nós fala que tá fora e o outro tem que respeitar. Isso não acaba com a amizade. Nada de situações desagradáveis depois, nada de clima, nada de achar que rola sentimento. Falamos um com o outro, normal, sem prejuízo da amizade, falamos sobre tudo, como era até aqui. Feito?

– Sim. Chego aí depois do meu trabalho.

– Hoje?

– Sim. Mas vai ser depois da meia noite porque eu largo o turno à 00:20h, valeu?

– Tranquilo.

– Tem garagem aí?

– Hmm… não e sim… é que como eu não tenho carro, eu não tenho uma vaga oficial para mim. Tenho que falar com o meu senhorio. É carro?

– Não, é moto.

– Tá, posso ver.

Baixando imagem…

                Avisa quando você sair que eu te dou as coordenadas de como chegar.”

Quando a imagem baixou, Jéssica já tinha se despedido de seu amigo B.: era a foto de sua moto, uma Harley Davidson, linda. Mas ela demorou um pouco a associar o motivo dele enviar-lhe aquilo, até perceber que pelos modos virtuais reinantes de comunicação, nem tudo se expressa adequadamente. Era a resposta para a frase dela “Posso ver” quanto à vaga da garagem ao senhorio e não “posso ver sua máquina?”

Bem, ela não buscava um jornalista. Aliás, anos atrás tivera um affair com um. O encontro mental era apaixonante e… não havia dado certo, como não havia dado certo nenhum dos seus outros relacionamentos baseados nos seus ideais românticos, o que a fizera partir para outro extremo: relações sexuais sem relacionamentos emocionais.

Devia ser com pessoa que ela conhecesse já há tempo suficiente para considerar amigo, para lhe dar um pouco de segurança quanto à própria segurança física, assim como à segurança das suas regras. Devia ser alguém em que ela tivesse certo nível de confiança, pelos todos os motivos óbvios em que a senhorita TOC pudesse se soltar.

Foi preparar-se. Não era um encontro, mas… havia uma reputação a zelar: nada de estar parecendo uma sem-teto.

Banho, cremes, cabelo, maquiagem, lingerie, vestido.

“- mana! Você não sabe, não é que fulano tá doente?”

A amiga do outro lado da tela, desesperada com o filho doente àquela hora. Jéssica estava preocupada com a hora por outros motivos. Compreendia muito bem a amiga e esperava não tem que se explicar para que a amiga também compreendesse os seus motivos para não se demorar teclando.

Enquanto havia um digitando… na tela, ela prosseguia se arrumando. Checou tudo da casa aos lençóis. Escovou os dentes (de novo!).

  1. era um amigo que conhecera no trabalho, mas havia uns cinco anos que ele saíra daquele emprego e ela também. Sempre o olhara com aprovação: parecia respeitável, centrado, responsável e tinha elogios da chefe dele, que não era uma pessoa dada a elogios.

Também tinha elogio dos colegas de setor. Um deles, apaixonara-se por Jéssica, mas, definitivamente, o tipo pegajoso, grudento e obssessivo não fazia parte do perfil que a atraía. Um tempo depois o tal rapaz já estava apaixonado com “a mesma intensidade” (ou desespero?) por outra jovem, para alívio de Jéssica.

Quanto à B., havia quase um ano que uma amiga de Jéssica estava deprimida sobre um relacionamento e quando chegou ao limiar, Jéssica percorreu a agenda telefônica para ver que solteiros podiam se interessar por sua amiga. A maioria já casara. Ali percebeu que devia renovar seu rol de amizade. Encontrou B.

Pelo aplicativo, notou que o telefone ainda era dele. Fez contato, perguntou se estava solteiro. Estava. Disse que lembrava que ele costumava ser um cara “assim, assado” que inclusive era fiel e mandava flores para a namorada (engoliu nessa parte o que também lembrara: ele levou um fora da namorada daquela época, que o trocou por outro). Decidiu ignorar essa parte e passar a: “tenho uma amiga que acho que pode lhe interessar…”

De fato interessou. Mas por algum motivo que ela não se aprofundou, não vingou. A partir de então, conversavam eventualmente, até o dia em que B. apareceu com a foto de uma garota… muito simpática mas que com o decorrer das conversas, parecia não ir tão bem… Jéssica deu umas dicas que pareceram funcionar, mas não se aprofundava na intimidade de B.

Outro dia tinha visto uma foto deles num bar de rock. Cumprimentou-o dizendo que as dicas que deu, estavam corretas. Ele riu assentindo.

“- e a namorada?” ela perguntou diante da proposta de B.

“- e o cara?” ele devolveu a questão.

Concordaram que era um tópico desnecessário dentro do acordo. Jéssica ainda pensou em dizer “achei que estava apaixonado” mas não queria que o colega fosse desestimulado. Estava realmente disposta a fazer funcionar seu novo projeto anti-relacionamentos.

“-tô aqui. Qual é o número?

– tô descendo.”

Abriu a garagem. Ele estacionou a moto. Ela trancou o portão e foi conversando e subindo. Nada de cumprimentos gentis, nada de beijinhos, nada de mãos dadas, nada de olhares ternos. Nada de nada. Subiu as escadas rebolando e devagar, sabia que ele tinha dado o tempo suficiente para subir atrás dela, a tempo de  ver-lhe a calcinha sob o vestido preto.

“- vai me esperar sem calcinha?”

“- não estou certa… ou deixo você tirar…rs”

“- se for preta, eu prefiro tirar”

Jéssica entrou no apartamento e B. atrás. Trancou a porta e disse que ficasse à vontade para deixar suas coisas. Estava paramentado como um verdadeiro motociclista: do capacete à jaqueta de couro com recortes que exaltavam o espírito das estradas como Route 66. Virou-se por cima dos ombros e lhe disse:

“- é preta…”

  1. tirou todos os aparatos. Já sabia que era preta. Agarrou o decote do vestido e segurou com força. Abaixou-o abrupto junto com o bojo do sutiã (não dá pra ter pena de roupa ou lingerie em casos como este, estejam sempre preparadas, garotas!), admirou-lhe o seio e já encaixou-o na boca sugando-o com vontade. Pôs na boca tanto quanto pode.

Sem cuidado, carinho ou aviso, sem delicadeza, beijinhos de entrada ou olho no olho, B. mostrou a que veio: o adequado acordo de sexo por sexo.

Fez que rasgaria o vestido dela, mas parou e em dois tempos tirou-lhe o vestido, colocando-a de quatro sobre a cama e mordendo as costas de Jéssica.

Desabotoou o sutiã dela e virou-a de frente, abrindo o zíper da calça, baixando a cueca e ponto o membro para fora tão decidido quanto já tirara a camisa enquanto ela sugava o membro dele, igualmente sem se preocupar com preliminares.

Ela tentava mas, era impossível não comparar ao viking tupiniquim: não tinha o preparo, a pegada, a atenção, os detalhes. B. atravessara a cidade e estava ali para fazer valer o percurso e deixar a sede para que ela desejasse que ele voltasse ali entre uma e outra jornada de trabalho.

Ela tirou o pênis dele da boca e passou a masturbá-lo. Ele a empurrou para a cama e ela aguentou-se pelos cotovelos. Deu-lhe um tapa, ela rosnou e mordeu-lhe a mão. Deu-lhe outro e ela cravou as unhas nos braços dele.

Ficou subentendido que ele não ligava se ela considerava reatar com um antigo namorado. Ficou claro que ele não veria a namorada até que as marcas sumissem.

Novamente de quatro, B. penetrou-a como quem pega o touro no laço, agarrou seus cabelos com uma das mãos como um arreio, deixando a outra mão livre para mantê-la encaixada.

O movimento dele era ritmado e Jéssica não tinha queixas. Foram para o chão. A pôs de lado com a perna direita elevada e cravou seu pênis forte na vagina dela. Não tinha meio termo, não tinha tremor, não tinha nervoso, não tinha nada do viking tupiniquim, aquilo era cruzar.

Entendam que há fazer amor (com ai, ai, ai, ui, ui, ui meu amor), há trepar (quando a ousadia começa) e há cruzar (provavelmente onde o moço das cinquenta cores começou…rs). B. cruzava.

Cruzava de tal forma que Jéssica pensava: Então qual o problema para ele não estar satisfeito com a namorada? Ela não está sempre disponível? Ela tem horários? (os horários dos turnos dele eram bem adversos, mas encaixavam com a disponibilidade de Jéssica). Decidiu que não era hora de pensar na namorada, era hora de gozar pela terceira vez, com direito a arranhar, gemer, dar o grito sufocado que a vizinhança entenderia o que estava acontecendo, se já não tivesse ouvido o som das estocadas que ele lhe aplicava.

“-Me xinga!”

“- ordinária! Vagabunda! Hmm!”

  1. gozara. Sem nove-horas saiu de dentro dela com cuidado do preservativo não estragar a festa, teve os cuidados para descartar, coisa que ele mesmo o fizera e fechou a porta do banheiro. Por sinal, achara sozinho o banheiro.

Jéssica resfolegava ainda deitada. Uau! O amigo com benefícios perfeito no sexo. Então, por que ela ficava comparando com o viking tupiniquim que nem aguentara que ela gozasse?

  1. saiu do banho com a toalha dela:

“-eu havia deixado uma toalha e escova de dentes separada pra você.

– achei essa aqui.”

O macho instalado. O macho-macho. O macho da mão com calo. Da cara dura, fechada. O macho que era a pura testosterona como a moto, a jaqueta e as frases curtas! Jéssica estava achando que acertara na loteria dos amigos.

Foi vestindo-se. Virou para ela com um sorriso de macho-alfa e disse:

“- que foi? Não foi uma rapidinha…”

Riu. B. ria satisfeito que cumprira com seu papel de macho, deixando a fêmea repleta de desejo apesar da satisfação estampada na face. Jéssica supunha que no fundo, no fundo de B. havia um prazer: fora melhor no desempenho que o viking tupiniquim. Ela entendia que era perfeitamente natural no mundo animal que isso ocorresse, como animal era o sexo que fizeram. Disse a ela com um ar de quem a prolactina já estava fazendo efeito e queria dar a famosa cochilada dos rapazes após o sexo:

“- Foi melhor do que eu imaginava.”

Ele levantou-se já com os coturnos amarrados, roupa posta e balançou a área pélvica bem à altura da boca dela, que não duvidou da provocação e desafivelou cinto, desabotoou calça e pegou-lhe o membro ainda em período de descanso.

Masturbou-lhe um pouco, olhou para B. que mirava a ânsia dela por mais sexo e encaixou a boca no pênis dele, sugando-o com pressão intensa… ele a deixa sugá-lo tanto quanto queira, mas ao notar que ele não voltava a ficar ereto, olha para B. com ares de interrogação.

“- Só se eu dormisse aqui, gata. Só se eu dormisse aqui. Conheço ele, agora, só daqui a uma hora. Ele tem que descansar.”

Jéssica vestiu o roupão de cetim vermelho, deu o laço.

“- hmm…robe vermelho dona Jéssica?

– sim, cowboy.”

Ambos entendiam bem o significado das cores preto e vermelho para quem tinha um ponto em comum naquele lugar, principalmente se é em uma calcinha que se deixe à mostra ou em um robe de cetim: disponibilidade e interesse por sexo. Aliás, é o único contexto onde cetim é adequado, de resto, ele só serve para escorregar, sem propósito.

Nem tudo é perfeito, Jéssica pensou. Ele precisava retornar ao trabalho mais de 1h antes dela entrar no trabalho dela… Deixou que ele repetisse ainda mais duas vezes “Só se dormir aqui” e disse:

“- já tem toalha e escova de dentes se quiser.”

Talvez o “só não pode dormir aqui”  do acordo ou o orgulho do macho-alfa negaram a sugestão de forma silenciosa. Ele frente a frente com ela, enrolou-lhe o cabelo com a mão direita, como um arreio, puxou a cabeça dela um pouco para trás, depois direcionou-a para a esquerda, de forma a alcançar as costas dela com a boca, marcando-a com a ferocidade do “me aguarde”.

Paramentado, o motociclista abriu a porta, saiu dizendo:

“-tiau Jéssica.”

Ela jogou um beijo e disse para não esquecer de fechar o portão.

A vizinha também estava lá, novamente, no corredor fumando. Mas nada disse. Talvez a atitude firme do “Sr.Harley Davidson” a calara.

Jéssica entrou. Banhou demoradamente, analisando as diferenças entre B. e o viking tupiniquim. Quando saiu do banho, uma mensagem na tela do celular dizendo que já havia chegado. Estranhou e minimizou que talvez fosse apenas para não ficar preocupada. O restante da mensagem tinha elogios sobre a performance. Ela riu. Para ela era sinal de que quando saísse do trabalho, podia esperar que B. voltaria, dentro do acordo. Dormiu.

No trabalho, as horas passavam devagar demais para quem aguarda um “ok” na tela do telefone.

Faltava umas 4h para o horário previsto por B. e ela não resiste:

“- e aí? Vai rolar?”

Para sua surpresa, o lado geminiano de B . veio à tona e disse que não ia dar. Podia ter ficado aí, mas B. desandou a falar de como sentira-se mal traindo a namorada, que não dormira, que ficara com peso na consciência de exigir o que não dava. Que tinha sido bom demais, mas até passar isso dentro dele, não viria.

Jéssica pensou: “Cara, não estraga tudo… eu não tenho que saber suas crises com a namorada, isso é fora do acordo…” Mas eles permaneciam amigos, era o acordo, e amigos conversam, desabafam. Optou pelo caminho mais curto: “essa onda deve ter vindo depois da vizinha porteira – de novo – igual ao viking tupiniquim, se não foi visto, não aconteceu…”.

 

Era uma garota, que como eu… CRESCEU!