4a Crônica: Jeremias Cavallier e o novo vizinho


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Só quem tem um irmão sabe o valor que ele tem. Jeremias estava meses sem dar notícias, sempre circulando o globo, mas as forças do Universo sempre o traziam quando Jéssica precisava dele. E ela precisava sempre que só alguém que fosse como que gêmeo da sua alma pudesse decifrar o que ela não entendia: ela mesma.

Jeremias foi descoberto seu irmão já adultos, como que por uma coincidência, o que só fez a amizade nascitura fortalecer.

Pois bem, é quando mais uma história acontece na vida da nossa anti-heroína que ele aparece para nós. Vamos à história:

Jéssica tinha um novo vizinho. Normalmente, ela não conversava com os vizinhos, não se habituara a eles e estavam sempre se mudando. As mudanças, eram sempre um ponto frágil para ela: enquanto estava totalmente ciente de que a vida é mudança, e ela investia em mudar a si mesma sempre sobre os pontos que via como necessários, não conseguia lidar com a impermanência.

Era mais seguro ficar à parte do que permitir a entrada das pessoas, suas histórias, vidas, emoções, sentimentos, ações, contra-ações porque ou seria íntimo demais ou seria impermanente. Ambas eram más opções, já que geralmente o mal se instala e o bem parte.

Um dia, com uma problema na eletricidade de sua casa, deparou-se com o vizinho novato na entrada. Hesitou falar-lhe, dar a porta de entrada para mais um que algumas vezes insistira em dar-lhe os aborrecidos cumprimentos que as pessoas acham que todos devem dar, segundo sua opinião. Mas falou. Expôs a questão, perguntou o que lhe ocorria e fim.

Fim? Para quem? A partir daí, o vizinho sempre que a via, retomava a mesma questão, como aparente único “elo” para falar-lhe.

Jéssica havia mudado desde nossas últimas histórias, tinha decidido ficar introspectiva novamente. Já voltara a falar com o viking como se nada tivesse acontecido, com B. apenas o de interesse comum, cumprimentava um antigo namorado que passara a circular pela vizinhança, mas o enfoque que queria dar a seus dias eram outros, que nem ela sabia ao certo, mas não o caminho da confusão.

Pois eis que o nosso querido novo co-protagonista investiu: arrumou outro pretexto para falar, sempre solícito, descobriu seu telefone que ela ignorou por alguns dias responder, mais outros para adicionar. Mas acabou por fazê-lo e começaram as conversas, longas, diversas, com rasgos de uma paquera que sempre se retirava ou se desculpava para ela por tê-lo dito.

E foi assim que em uma noite, Jéssica gentilmente ofereceu dividir seu jantar com ele. Havia tido problemas e no meio dos problemas, exausta e desanimada, a única pessoa que ocorreu-lhe dividir o ocorrido era o vizinho; que solícito como sempre, fê-la sentir-se amparada no meio da confusão.

O “me avisa quando chegar em casa” virou uma oferta de dividir o jantar – embalada, claro – que ele aceitou.

À sua janela, aquela criatura de barba curta, cabelo quase na máquina zero, óculos, pele clara, olhos claros e rosados lábios carnudos, vestido todo arrumadinho, ficaram inebriantes e mesmo após esse rápido momento pela janela, a conversa prosseguiu pela madrugada com o ápice:

“- Você subiria aqui só por um beijo? Mas só um beijo, nada mais.”

Ele subiu.

Sempre com freio de mão puxado, como se diz, Jéssica e o vizinho trocaram beijos sem ligar para o tempo ou para o potencial de xeretice da vizinhança.

Educado, mas de um beijo intenso, Lucas resistiu um pouco até tentar ter uma “mão boba” em Jéssica, que afastou a mão dele nas três ocasiões e entendeu que não importava o quanto o beijo fosse bom, era hora de fechar a porta.

Lucas ainda mandou mais algumas mensagens até ela decidir que o sono era mais importante que o vizinho. Tinha 3h para dormir até o despertador tocar.

As conversas prosseguiram. O fim de semana chegou e Jéssica não resistiu:

“-Quer subir?”

Lucas subiu. A porta abriu e fechou com o cuidado de não ser ouvida pela vizinhança. Os beijos esquentaram, podia sentir o mesmo volume nas calças dele na noite do beijo novamente ali pressionando sua púbis. Intenso mas cuidadoso. Forte mas carinhoso. Não era como nas fases ninfomaníacas dela. Era novo. E como todo novo, tinha prazer e medo pulsando seu coração.

“- Cometi um erro fatal – disse Lucas -: esqueci a camisinha lá embaixo”.

Sem temer julgamentos, Jéssica lembrou que ainda tinha alguns preservativos quando achava que teria uma vida mais “frequentada” por assim dizer. Abriu o guarda-roupa, pegou-os e deu-lhes.

Ela não escutara mais nem o que ele dissera, só notava o membro de proporções e aparência desejáveis que o rosto nerd de Lucas não demonstrava que tivesse. Ele já tirara as roupas dele, agora tirava as dela. Era assim que ela queria: que ele tirasse, que ele descobrisse, que ele sentisse… Jéssica queria ser encontrada.

Ela sabia que estava com a cabeça, alma, vida confusas demais, em crises de ansiedade pelas coisas que dela não dependiam, mas que marcariam seu futuro profissional, financeiro e acadêmico. Era como de dentro de si, uma Jéssica desnuda e com frio pedisse ajuda, pedisse: “-salve-me! encontro-me! liberte-me!”.

Sem  o tom de príncipe encantado, Lucas era aquela presença inesperada de atenção, carinho, cuidado, tesão resguardado que remexeram o vulcão que Jéssica insistia em dominar. Ela não percebia que seu recato transgredia sua natureza.

Lucas sem deixar de beijá-la, deitou-a sobre a cama, descendo os lábios pelo seu corpo, deliciando-se no que dissera que estava louco para fazer-lhe. Apesar de não ser como seu antigo amor, ele era dedicado. Ela retribuiu. O tesão crescente sobre o membro dele lhe dava ganas de pedir que ejaculasse em sua boca, mas resistiu. Sugou-lhe forte e cada gemido de Lucas inspiravam-lhe devoção em fazer de maneira inesquecível.

Ele a deitou novamente, pôs a camisinha em seu pênis e penetrou-a como ela queria… a introdução foi rápida, dado o dedicado serviço dele, mas isso nem de longe determinou que o tempo da relação também fosse curto.

Lucas era do tipo de cara que transava beijando, beijando intensamente, ao menos, ao que parecia. Seu rosto avermelhado, os músculos retesados, braços, pernas, costas, abdômen, rígidos como seu pau a vigorosamente penetrar-lhe.

Jéssica gozou 1, 2, 3 vezes sem que ele retira-se o pênis de dentro dela.

“- Também quero te fazer gozar.” Disse-lhe.

Os movimentos acelerados, os beijos inesgotáveis, as unhas marcando o peito dele… e uma imensa vontade que ele também a marcasse aumentavam ainda mais seu desejo em que ele a tivesse o mais profundo possível, forte, intenso…

Lucas gozou. Gozou e beijou-a, descansando um pouco sobre ela. Aquele peso de homem sobre si. Aquelas mãos grossas, de falanges marcadas que eram o tom de virilidade para ela em um homem, além dos traços nerds dele, tornavam Jéssica um alvo muito fácil de ser atingido onde ela mais protegia: seu íntimo.

Não suficiente a atração completa diante de si na forma física, na atenção, ele era inteligente. De fala pouca, de voz rouca, Lucas dizia o que queria em curtas orações que encantavam-na por ir da política à física com a mesma naturalidade.

O encanto crescia e a precaução também. Ele tinha todas as características que a atraíam, mas também tinha outras que disparavam seu sentido de alerta, graças às decepções anteriores.

O encontro durou por volta de 3h, com a despedida levando em torno de 1h. Ainda haviam transado mais uma vez, mudado de posição, por fim tendo ele ejaculado apenas sob os beijos dela.

Abraçaram-se e suspiraram. Ela, ele, um suspiro daqueles que nós – meros leitores – já sabemos que é decisivo e fatal. Pareciam decididos a passar todas as horas possíveis do fim de semana juntos. Mas não foi bem assim que aconteceu…

Lucas saíra com o pai, segundo lhe disse. Ela não investigara. Queria manter-se distante o máximo possível de sentimentos. Retornara e avisara que já estava em casa como de hábito. Mas que não tinha condições de estar com ela naquela noite.

Mensagens depois sem retorno, Jéssica percebeu que ele dormira na página da conversa deles aberta, dando retorno só pela manhã.

Tudo bem, ela pensou. Faz parte da amizade com benefícios, eis o acordo. Fez a faxina, pediu ajuda dele para alguns consertos em casa, mas depois dispensou a ajuda. Na cabeça dela só uma coisa tilintava:

“-Era só curiosidade. Já matou a curiosidade, vai se afastar devagar pra não estragar a amizade.”

Voltaram a se encontrar naquela  noite, depois de mensagens divergentes entre querer, pensar, fazer, dizer… com ele negando que estivesse estranho depois do sexo e ela afirmando que ele não precisava ficar assim, regra 1 do acordo de amizade com benefícios. Ele alegava cansaço. Ela investia em frieza polida.

A noite foi de um intenso sexo onde ela gozou 6 vezes antes da única ejaculação dele. Ele dissera que ia dormir lá. Ela não recuara. Mas não havia mais os intensos e carinhosos beijos. Havia uma certa tensão, um pisar em ovos, um guardar a amizade mas um resguardo de emoções.

Se era o alegado cansaço ou o cuidado depois da frieza dela ou se realmente seu palpite tava certo, ela não sabia e isso incomodava mas não como era antes. Havia uma madurez em Jéssica agora sobre o que tem que ir, que vá. O que veio para ficar, que fique.

Lucas podia ser só mais um cara que gostava do desafio de conquistar uma mulher difícil, que teve o que queria ter – e Jéssica também -, mas isso a incomodava: a incerteza.

A noite se passara com intervalos de conchinha e intervalos de “separação de corpos”, mas era sempre ele que tomava a iniciativa de um ou outro. A chuva caiu. Ela levantou para se vestir, pegar um lençol para si, para ele. Escovou os dentes, voltou para a cama. Dali a pouco ele se voltou de novo de conchinha, pôs a mão na mão dela, dedos entrelaçados, sentindo seu peso contra ela e foi a coisa mais relaxante que ela fizera em… em… em… ela simplesmente não lembrava quando fora a última vez que sentira aquilo.

Mesmo pensando que podia ser uma noite de despedida, ela fez uma oração e agradeceu por aquele momento, por aquela experiência, por aquela sensação. Entregou seu destino a Deus: que o levasse para longe dela se fosse lhe fazer mal ou que mantivesse em sua vida se era bom. Confiou que Deus lhe dera e também podia lhe tirar, que como aquela chuva, podia ser só um alívio para a tensão que estava vivendo naqueles meses. Aceitou que podia ser um adeus.

Pela manhã, chuva insistente, ele adiou o despertador mais 45min. Então vestiu-se rápido e se despediu com um beijo na testa. Ela devolveu com um beijo no peito dele, à altura do rosto dela.

Alguns minutos depois ela lhe deseja “Bom Trabalho”.

Ele retribui com um emoji de beijo.

O dia passa nessa dúvida quando enfim Jeremias dá sinal de vida. Irmão e irmã se cumprimentam como de hábito: um amor à moda Grey… onde xingamentos são puros sinônimos de saudade. Jéssica não resistiu, mesmo repetindo pra si mesma que não ia entrar nessa, talvez ela já tivesse embarcado, bilhete na mão autenticado ou não.

Só Jeremias podia revelar o que era e o que não era. De Lucas, ele achava que a frieza da irmã deixara o cara na retranca, como dizem. Mas é que sobre Lucas, algo muito maior estava nas sombras de Jéssica que só seu irmão entenderia ou chegaria perto disso. Agora, eles tinham 1 semana para dividir assuntos e ele com a família.

Qual seria a verdade sobre Lucas? Qual seria a verdade sobre Jéssica sobre Lucas?

O quê ela realmente temia? O quê realmente a atraía? E o quê esperar desse inusitado encontro?

Esperemos os próximos capítulos.