3a Crônica: As Irmãs Cavallier


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“-Eu não gostei do B.! Ele furou o contrato! Ele não cumpriu com o que prometeu! Eu já falei pra um cara para sermos amigos coloridos e ele não aceitou… já queria casar e tal, ficou pegajoso, grudento…”

A frase vinda da irmã caçula de Jéssica a pegou de surpresa, mas engoliu seco e fingiu naturalidade. Secretamente pensou “ela ainda devia querer o romance… todos querem o romance…” Respirou fundo:

“-E como foi isso?

– Um tempo que eu tinha brigado com Marcos, não queria arrumar ninguém, não queria compromisso, mas aí ele [o cara da proposta da amizade colorida] estragou o lance.

– Ah, eu ‘tava vendo hoje “50 Tons Mais Escuros”.

– Aaaaaiiiii! Eu ainda não vi!!!

– Ah, você vai gostar.

– Eu nem li mais que o primeiro livro!

– Ah, ambos tem ameaças, mas ele a pede em casamento; agora as coisas são do jeito dela….”

Pensava nas coisas que a caçulinha andaria fazendo, se preocupava. A ausência da mãe havia aproximado a ambas e ver a irmã crescer diante de si, a enchia de orgulho.

“…mas eu só estou te contando porque já tem mais de 18 anos, viu?”

Ana Maria gargalhou ao telefone.

“-Ah é? Antes eu não sabia de nada, não é?”

Ironizou. Jéssica ouvira o medo da irmã alguns meses antes sobre ter contraído doenças sexualmente transmissíveis. Contara-lhe que os casais amigos se reuniam e ‘faziam qualquer coisa que quisessem’. Então, quando um dos envolvidos foi diagnosticado com AIDS, a turma se enervou:

“-E os exames? Foi fazer?

– Ah, não… ainda fui na clínica mas tinha que estar lá muito cedo…

– Eu falei que conseguia os exames pra você.”

Pos-se o silêncio um instante. Sabia que, como um bicho selvagem e acuado, Ana Maria se fecharia se fosse pressionada a um comportamento “adulto e responsável”, como alguns anos atrás, quando dizia que entre todas as preocupações sobre crescer, ser adulta, ter um emprego, escolher uma faculdade, a caçula dizia que só queria se formar no Ensino Médio, passando em Matemática. A vida agora não era mais só matemática. Era mais e Jéssica se sentia tão perdida em orientar a irmã quanto em matemática também.

Jéssica não sabia como ser a adulta das duas se ao mesmo tempo, enviara à irmã ensaio dos contos que escrevera sobre suas aventuras.

“-Mas de onde você tirou toda essa inspiração, Jéssica? Eu não te imagino pensando em todas essas coisas! Sempre foi a quietinha, a caladinha, a bem comportada… e sempre falou tudo certinho, nem chamava palavrão!

– Se eu te falar, você não vai contar para os ‘papparazzi’? (riu)

– Prometo!

– Eu fui a inspiração.

– Como assim?!

– Aconteceu comigo. Espera, vou te enviar a foto do cara real que inspirou o personagem B….”

Enviou.

“…agora você entende? A cara dele diz bem do que ele é capaz, não é? Hahaha!

-Eu queria que eles tivessem um bis.

– Tranquilo! Está no contrato. A amizade tem que prevalecer, o respeito. Era um direito dele desistir.

– Ah! Mas esse papo de namorada?! Nada a ver, cara!

– É, Lorena também disse que foi coisa de viadinho. Hahahaha Mas tá tranquilo.

Eu acho que com o Viking Tupiniquim que deveria haver um bis, afinal, ele deixou a protagonista na mão, né? Não deu conta do recado, ficou com medo… foi embora quando a festa podia estar só começando… espera…”

Enviou a foto do rapaz que ela não sabia o nome, a quem apelidara de Viking Tupiniquim.

“-uuuaaaauuuuu!!!! Ah, agora, de fato, eu prefiro ele!

– Hahaha, não dá pra preferir nada… foi só aquilo e pronto. Mas acho que cabia uns reencontros, um romance.

Jéssica, apesar de todo novo ar de liberdade, ainda pensava no romance. Todos queriam romance. Até o Sr. Grey! Mas pelo visto, menos a irmãzinha, que queria mesmo era voar… crescer, se sentir uma mulher inteira, decidida, despojada, como se referia sobre o ideal que achava que as mulheres deviam ter e Jéssica sabia que no fundo, a nem tão pequena Ana Maria sentia falta do que todas as mulheres sentem por boa parte da vida: necessidade de afirmar-se, de se sentir segura, de admitir ser ela própria fingindo não ligar para a opinião dos outros. Agora que ambas moravam sozinhas e em cidades diferentes… era mais difícil olhar pra irmãzinha e dizer: “Vai com calma… vai devagar, não se expõe, não é bem assim…”

Pensou em quando tinha aquela idade, em todas as loucuras que considerava ter feito, as ousadias que para outras pessoas talvez não fosse nada, talvez não significasse nada, mas para ela, que tinha encarado o medo, enfrentando a curiosidade e assumido os riscos inerentes, para ela tinha sido sim uma época louca. Será que Ana Maria teria a mesma garra? Saberia se proteger da mesma forma? Será mesmo que Jéssica tinha sabido se proteger? No fundo, sabia que era aquela pessoa ousada, mas os contextos sociais ditavam que uma moça pra casar devia ser diferente e ela tentou se adequar ao modelo, um modelo que mal permitia-lhe se mexer, como uma sardinha na lata… e o que ela queria de verdade?

“- Ana Maria, Lindemberg quer voltar…”

A caçula estava calada. Talvez com o telefone longe do ouvido e pintando as unhas. Agora suas fotos nas redes sociais estavam cada vez mais ousadas. A caçulinha não era mais aquela menina tímida e frágil, era uma mulher e agora lidavam como iguais, como mulheres crescidas, não como a garotinha e a mãe postiça.

“…mas eu não sei.”

Jéssica lembrava das decepções do relacionamento, gostava da companhia do ex namorado, mas a cada reafirmação do comportamento dele que ela não gostava, ficava mais certa de que ficava bem serem amigos, amigos coloridos, como na sugestão de Ana Maria ao tal outro cara no hiato do namoro… Mas também Jéssica não gostava da companhia de Lindemberg, porém, era mais simples fechar os olhos e só se deixar levar pelas percepções, pelos sentidos… ele era um bom amante, de desempenho superior ao viking ou a B. mas em público, ela preferia a amizade, mas no trabalho… ah, no trabalho era bom manter o vínculo aparente a Lindemberg, não que o conhecessem mas… incrivelmente, em pleno século XXI, as pessoas levam mais a sério uma mulher comprometida, de preferência bem comprometida.

“-Ele falou em casar. Na verdade eu falei em casar e ele acatou. Não era pra ficar com ele, era para testá-lo! Eu sabia que ele ia fugir de novo!

– E fugiu?

– Não.

– Pois um dia ele vai tomar uma posição e você não vai ter como voltar atrás, já que a proposta foi sua.

– Eu falei que só acredito com anel.

– E ele?

– Eu sei lá! Ele é daquele jeito… aparece um dia, some outros, mas quer as cobranças, sem querer ser cobrado…

– Hmm

– Sei lá, ele fica tão carinhoso quando eu também sou carinhosa… vamos deixar este assunto pra lá.

– Quando você vai escrever o próximo capítulo???

Jéssica mordeu o lábio. Não por tesão, dessa vez, mas por lembrar o vacilo que cometera, ou melhor, que lhe acometeram e que com certeza não ia falar para Ana Maria, ao menos não hoje, talvez dali a algumas encarnações…

– Eu não sei… não é tão simples assim arrumar “amigos”. É cansativo, na verdade. É bom, é prático, não tem o drama das relações, mas…

– Eu não entendo as garotas da minha idade.

– Suas amigas?

– Sim. Agora a febre é saírem pra balada e ficarem se pegando com outras garotas, mas elas dizem que não são lésbicas.

– Devem ter problemas. A geração de hoje tem uma extrema necessidade de status, de destaque, de ibope, de aparecer; não sabendo como… testam limites que não necessariamente é o que querem, mas que as farão serem vistas.

Veja por exemplo, como aos rapazinhos de hoje, virou moda ser gay.

– Como assim?

– Já notou que atualmente os gays são visados, são tidos como deslumbrantes, são figuras que se destacam, chamam atenção, fazem sucesso?

– Sim…

– Então, os meninos querendo fugir dos estereótipos de diferentes, que não se enturmam, que são estranhos – e vai por mim, todo adolescente é e isso faz parte do processo de crescer – adotam essa imagem ‘purpurina’ para evitarem chamarem para si o bullying, tornam-se antes, eles mesmos o risco de serem o bullying e o que começou como uma necessidade de autoafirmação, de fuga, quando percebem já estão dando o rabo sem não necessariamente serem gays. É tenso.

– É mesmo. Pensando bem, todos os meus amigos que tem esse comportamento, os meninos e as meninas que agem assim, tem sérios problemas em casa: André tem um pai alcoólatra e violento, Débora os pais se separaram e a mãe a abandonou, Geruza praticamente nunca vê os pais, sempre ocupados e por aí vai… coitados! Que vida triste!

– É… é necessário muita força interior para decidir que as atitudes dos outros não vão decidir a nossa autodestruição. Por isso que grupos como o AA dizem que é necessário acreditar em algo maior, seja Deus, Buda, Cosmo, seu deus interior, ou o que seja… o que querem dizer é acredite que pode ser melhor, que você pode tomar a sua vida com as próprias mãos e dirigi-la.

– É verdade…

Preciso desligar, vou sair.

– Talvez no próximo eu escreva sobre você.

– Tá bom! Vai ser ótimo! Não vejo a hora de ler!”

Ambas sabiam bem do que estavam falando: As irmãs Cavallier eram essas pequenas garotas, grandes mulheres que tiveram que aprender a serem adultas, a serem fortes, a se virarem sozinhas, a se protegerem… sem uma família “perfeita”, passaram por abusos de estranhos e de nem tão estranhos assim e se repetiam que iam ser felizes apesar de tudo, que nenhuma daquelas pessoas horríveis, indignas de serem consideradas humanas e seus atos, ia ditar quem elas seriam. Um pai ausente, uma lembrança vaga de mãe, parentes que não se comportavam como se espera que uma família faça… No final das contas, talvez elas só quisessem ser fortes, naturalmente mulheres e felizes, sem os rótulos de coitadas, sem levantarem bandeiras, sem seguirem uma manada. Eram capazes de serem suas próprias donas, suas próprias cabeças. Ana Maria queria ser médica quando crescesse, cuidar das criancinhas. Jéssica queria ser escritora e poder sobreviver de seu trabalho. Atualmente, elas só queriam ser livres.

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