5a Crônica: O vizinho, parte II


Que fim de semana longo! As falas de Lucas sobre ser um fim de semana todo com Jéssica, estavam falhos. Ele não dera notícias e ela entendeu que era mesmo apenas curiosidade, a conquista da vizinha difícil.

A alergia emocional voltara. Sempre que algo mexia com a segurança íntima dela, a maldita alergia se manifestava. Revirou os remédios, achou um último comprimido. Estava determinada que Lucas não afetaria a sua vida como aquela lembrança que ela tanto temia.

Jeremias tinha um amigo que prestando um favor a ele em algo sobre Jéssica, terminaram se apaixonando, um romance tenso e complicado, cheio de picos de ansiedade, doenças emocionais, riscos de suicídio, enfim, 5 anos de idas e vindas, onde quando um dizia sim, o outro recuava. Também se chamava Lucas. Também tinha os mesmos traços físicos e as mesmas expressões sociais, similar comportamento, totalmente avesso ao de Jéssica e parece que era nos extremos que a polaridade os atraía irresistivelmente.

Jéssica traíra pelo 1.Lucas. Ele idem. Ele abandonara relacionamentos novos. Ela esfregava os novos relacionamentos para ele. Se prendiam, se afastavam e não se distanciavam, mesmo quando ele estava em outro continente.

Jéssica conseguia, mesmo à distância, tirá-lo das farras para “ficar” com ela. Ele conseguia furtá-la do trabalho para falar com ele. Ele invadira sua casa e a dopara para tê-la quando não sabia se ela o queria.

E Jeremias presenciara desde os delírios de febre de Lucas chamando por Jéssica como sua esposa acompanhava as dores inexplicáveis de Jéssica quando sabia que Lucas estava com outra mulher. Assim, o irmão conhecia exatamente a extensão da insana (?) relação. Como impedira de que Lucas largasse todo seu futuro profissional para voltar para Jéssica, como aprovara quando Jéssica dissera para Lucas que não a incomodasse mais porque ela estava com outro amigo do irmão.

Jeremias simplesmente não acreditava que houvesse futuro para eles, apesar de todo esse furor passional ou por causa do furor.

Entre um dos intervalos entre Jéssica e o 1. Lucas, houve Lécio, um sagitariano que tinha potencial para ser o que pirou para não ser. Lécio, extremamente materialista, não via em Jéssica potencial para uma relação. Mas a negação do sentimento lhe causara tal conflito que ele investira em destruí-la profissionalmente.

Depois do 1. Lucas, houve um outro Lucas, mesmo nome e com o signo de Lécio, que não chegou nem perto dos sentimentos do primeiro, mas manipulou como o segundo, saindo antes de maiores estragos. O 2. Lucas não durara 1 semana de “luto” em Jéssica, intimamente, ela estava como Jeremias dissera que ficaria a cada rompimento.

O fato é que era mais um L na vida dela, com as características externas do 1. e do 2. Lucas, mas com o signo de Lécio e do 2. Lucas. Isso dava um frio na espinha, um terror interno nela e ter o irmão por perto para dizer qualquer coisa, era fundamental para ela. Afinal, de amores intensos e de situações desesperadas, os irmãos Cavallier entendiam muito bem e sempre se salvavam um ao outro.

….

Jéssica juntara uma champanhe e bastante cafeína ao antialérgico. Ficou elétrica toda a noite e resoluta! Pôs sua franqueza em uma mensagem no meio da madrugada para o 3. Lucas, o vizinho, expondo que ela não era o que (na percepção dela) ele achara.

6:32h e as baterias de Jéssica finalmente vão descarregando após uma madrugada vendo a série da sua anti-heroína favorita. Dormiu.

Umas 4h depois e o telefone bipa. Foi tomada por um susto com o barulho. E a gastrite nervosa atacou ao ver na tela do telefone que era de Lucas, o vizinho.

A resposta dele era ao nível da franqueza misturada à ressaca que ele alegara estar. Ela esperou. Tinha que pensar na resposta à pergunta dele muito friamente:

“-Afinal, isso é um desabafo ou você estava esperando de mim algo que até então não somos? Porque até agora, somos apenas bons amigos.”

Levantou. Acalmou o estômago. Banhou e raciocinou friamente sobre como lidar com a situação, já que não tinha como se esconder e sumir: eram vizinhos.

Desligou a rede de telefonia do telefone e calmamente imprimiu toda ironia anti-heróica típica dela quando provocada: Disse que estava aliviada dele ter esclarecido que para ele também era só isso. Que na verdade, preocupava-se em não magoá-lo. Que ele não precisava achar que o sexo era paixonite, que a gentileza não era chiclete. Que já tivera outros acordos de amizade com benefícios e que não era para ser complicado, caso ele quisesse prosseguir. Mas que ainda assim fora sincera em tudo que lhe demonstrara. E que ele não precisava dar satisfação de onde ia, com quem estava, se já chegara, pois isso confundia a condição de amizade estabelecida, exceto para emergências.

Jéssica misturava verdade e ironia numa maestria que levara o 1. Lucas 3x  a tentar suicídio e a tentar entregar-se à polícia algumas vezes. O que ela sempre interrompera, pois arranhar e morder eram a forma dos gatos se defenderem, mas também de demonstrarem carinho por seus donos. E ela não conseguia imaginar um mundo onde ele acabara com a própria existência depois de brigarem. Ela sabia que agora estava indo no mesmo vórtice de defesa com o vizinho.

Jeremias não respondia. Estava matando a saudade da esposa, da família. E Jéssica estava feliz pelo irmão.

Ouviu o som alto vindo do vizinho. Ele sabia que isso a irritava. Ela entendeu que era provocação por sua resposta chegar mais de 2h depois da mensagem dele, ainda que não tivesse atestado a leitura claramente.

Um pouco depois o som abaixa e Lucas responde. Primeiro com praticidade que no decorrer do dia viria a encerrar-se com um emoji de beijo (que ele não usara desde a despedida a pretexto de trabalho). Voltara-lhe a dizer quem viria à casa dele, com quem estaria e ela devolveu:

“- Por que está me dizendo isso?”

“- Falei por falar.”

Instantes de silêncio. Depois:

“- Amanhã vou chegar tarde.”

Ela ignorou.

Guinada de assunto. Aparente imparcialidade. Horas mais tarde ela decidiu que, por educação e para evitar o excesso de frieza pois não queria magoá-lo, também diria do dia seguinte dela.

Ele esticava a conversa. Ela alegava que precisava descansar. Porém ela não conseguia. Mais algumas mensagens pingadas, dormiram. As mensagens da manhã foram educadas, polidas. Sono? ou a volta da vida diária, o fim do fim de semana trouxeram a dose de realidade necessária? Ou ainda estariam ambos na corda bamba de não saber exatamente o que estava acontecendo? Ou sabiam mas queriam por algum motivo, ignorar?

Jéssica tinha história como motivo suficiente para ter precaução quanto a Lucas, o novo, o vizinho. Tinha a presença de Jeremias para lembrá-la disso, reforçar que devia evitar os erros passados. Mas e o novo Lucas?

Só o que estava por vir revelaria a verdade.