Sobre “Direitos”


Atualmente no Brasil (e no mundo!) há uma polarização exacerbada onde rótulos são dados e não há direito a se concordar aqui, acolá entre uma e outra coisa. Isso não é novidade.

De ambos os lados há extremistas, o que me faz recordar que se boa parte deste grupo são pessoas altamente intelectualizadas, que tiveram (ou têm) acesso à cultura geral, meios de comunicação e não se enxergam como analfabetos funcionais, deveriam ter a condição de ouvir, dialogar, usar argumentos, refutar, sem que neste pretexto, caia na vala do xingamento, do “a bola é minha e se não for do meu jeito, ninguém brinca!”.

Há uma acentuada imaturidade psicológica e tal invasão de privacidade ao pensamento íntimo que sequestrou a autenticidade, a verdade subjetiva, o “lugar de fala” de cada um.

Dentre os vários itens nesta pauta (longérrima, por sinal) está a questão da violência x (des)armamento. Pois bem, é sobre esse que eu quero deixar uma ponderação hoje:

Diz a Constituição de 1988, em seu capítulo inicial que trata dos direitos universais, que o cidadão brasileiro (compreendida a norma culta de que no plural, o substantivo segue o gênero masculino, ainda que só haja 1 único homem entre os demais e eu não vou entrar na questão da “sociedade patriarcal” neste momento, apenas a norma culta e vão brigar com a Academia Brasileira de Letras!) tem direitos como saúde, educação, lar, trabalho, renda, lazer, segurança, blábláblá.

Pois bem, na posição de cidadã brasileira sob a égide daquela Constituição, eu quero o meu direito de usufruir de tudo isso, sem que dependa de mim exercer esse direito através do outro direito: o da legítima defesa.

Eu quero exercer todo o mais que vem antes deste. Porque está lá, assegurado que eu tenho o direito à segurança, a ir e vir, a usufruir do que for fruto do meu trabalho, este assegurado por sua vez à outro código que lhe é próprio.

Eu não quero precisar de uma arma para ter meus demais direitos garantidos. Eu quero que as ações de segurança sejam exercidas a quem lhe é próprio. E este alguém não sou eu. Não foi o caminho que eu escolhi.

Mas eu quero o meu direito e quero que aqueles que foram instituídos para exercer a manutenção do meu direito, exerçam suas atividades de forma a me prover do usufruto do meu direito, já que a contraparte da cidadania eu faço, assegurando que eles tenham esta posição na sociedade.

Quando criança e até o fim da minha adolescência, morei em uma área vermelha, cujo morador ao lado da casa que eu habitava, era o chefe do tráfico da região. E a casa de sua concubina era muuuuito mais bonita que a nossa, dentro daquela realidade.

Eu via de tudo que o submundo exerce bem ali, mas eu continuava a estudar, depois a estudar e trabalhar e depois a trabalhar até que o fruto do meu trabalho me proporcionou sair de lá. (Thanks, God!)

Desnecessário dizer que naquelas condições, eu utilizei a educação pública, o transporte público e todas as outras peculiaridades da vida de quem mora em uma área assim, porém sem nunca fazer uso de assistencialismo governamental.

Por muito tempo, a minha alimentação diária se baseava no que R$1,00 podia pagar, enquanto minha mãe trabalhava e eu voltava da escola pra estudar e cuidar de mim mesma até a hora de seu retorno. Algo que não permito que aconteça com a minha filha, por saber todas as exposições que existem no mundo, ainda que nossa residência não seja mais em um lugar como aquele.

E eu continuo a estudar, a trabalhar e a cuidar da minha pequena como não pude ser cuidada.

Uma vez o meu pai me orientou sobre a legítima defesa, sobre sempre ter algo perto para me defender se fosse preciso. O mesmo pai que disse para não ter vícios que não pudesse sustentar ou que nunca participasse de jogos de azar ou apostas.

Portanto, eu sei do meu direito mas eu também sei o que é o risco e eu não quero ter que revivenciar contextos daquela natureza. Eu quero usufruir de tudo o que cultivei, do que colho a partir do que plantei com meu esforço, com as noites em claro, com os dias de quase nenhuma comida, para estar aqui agora, tendo o que já tenho.

Quero ter esse direito para continuar a me desenvolver, a crescer, a proporcionar à minha filha o que eu não tive, incluindo o exemplo de que passar a vida estanque em determinada situação é apenas uma questão de escolha.

Sempre dá pra sair do lugar comum, construir sua própria jornada, ser quem deseja ser sem que precise abusar do direito de outrem. Sempre dá pra cultivar uma vida, um lar, uma existência agradável sem precisar ameaçar quem quer que seja. Sempre dá para fazer escolhas boas.

Que os instituídos para exercer a segurança da sociedade o façam e que os que querem uma existência melhor se esforcem para sair do lugar comum. Assim, as armas naturalmente serão desnecessárias. Mas enquanto esse dia não chega, que esteja assegurado o meu direito de usufruir dos meus direitos, incluindo quem me proteja para que eu possa continuar dando a minha contraparte no mundo.

Sobre Carmen Goncalves

Entusiasta da Arte de Escrever!
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