37 (ou Paradigma de vida)


Por várias vezes eu quis escrever sobre minha chegada aos 37 anos. Mas são tantos acontecimentos que, tantas vezes eu apaguei tudo (nem salvei rascunho!) e deixei pra lá.

Sinto que preciso falar sobre isso, sobre como minha vida tem mudado, mas as mudanças estão ocorrendo dentro de mim, a partir do meu olhar e isso é muito mais profundo do que palavras registrem.

Descobri que não posso mudar os outros, mas a mim mesma e quando alcanço isso, meu olhar sobre o outro muda. Tudo passa a não ter mais importância do que aquele que o meu aprendizado ainda não alcançou.

“Fulano fez errado. Ciclano irritou. Beltrano não sei o quê.” e dali a instantes eu me apercebo que: NÃO É DA MINHA CONTA. Simplesmente, não é.

Cada um com suas escolhas. Cada um com os resultados de suas escolhas. Não temos que dar conselhos que não foram pedidos. Só temos que perceber que pedir um conselho não necessariamente precisa ser formal. Assim como comentar algo não necessariamente é pedir conselho. Pode ser só um desabafo, um comentário, uma constatação.

Precisamos não nos sufocarmos (nem aos outros!) com nosso egoísmo. A vida a partir do nosso olhar, nosso julgamento como o valor absoluto na relatividade da existência.

É sábio calar. É sábio ignorar. É sábio tocar o barco. 

É importante saber quando, como e o porquê do agir.

Às vezes ainda me irrito com a descrença de algumas pessoas sobre as minhas mudanças. Mas dali a pouco me dou conta: São colheitas do plantio que fiz. Só meus novos plantios, quando florescerem vão mostrar que eu mudei. Não que importe que percebam que eu mudei. A mudança é válida para mim. 

Posto esta parte do eu com o mundo, o eu com o eu respira melhor com essas mudanças internas mas ainda não se acostuma com a decrepitude do envelhecer. Não se acostuma com o faz de conta do “tudo bem” que alguns dizem. 

Não consigo crer que alguém que vá perdendo flexibilidade em acordar pela manhã, por exemplo, consiga achar que só a maturidade tá valendo a existência. 

Não sou apegada a viver, mas estou feliz vivendo esse momento, sentindo mudanças e sabendo que tudo é nada, porque tudo é relativo, é transitório, é outro… nem o eu será o eu em instantes. Esse é o “desapega” budístico.

Tenho me trabalhado para aceitar que o corpo vai decaindo. Como tudo no universo material (todo elemento atômico tem taxa de decaimento, tempo de vida, validade), o devir é o que há. É um despir o eu velho constantemente para aceitar que o próximo eu é outra coisa, que ganha em alguns aspectos o que perde em outros enquanto que o eu passado perdia naquilo enquanto exibia outros aspectos. 

Que bom que é assim! Imagina se a vida fosse apenas perdas?! Aliás, toda perda é um ganho: toda perda proporciona um ganho de aprendizagem, às vezes, um ganho na vida. O cara que perdeu o ônibus onde teve um assalto, sabe disso. Aquele semáforo que fechou e não deu tempo de passar e quando passou, tinha um acidente, também. Assim como aquele emprego na empresa que você não sabia que estava falindo e demitiria todos logo. Não há perdas. Tudo, dependendo de como vemos, é ganho. Logo, TUDO gera gratidão. 

Gratidão pelo que não pode ser dito, mensurado, aprisionado, guardado, exposto, escrito. Gratidão pelo que nem percebemos e nos salva todo dia. Gratidão pelas coisas que foram preparadas para nós antes de chegarmos à existência. Gratidão, gratidão, gratidão.

37 anos então, é Gratidão. Percepção de que entre todas as inúmeras aventuras no trânsito do existir aqui e agora, o resultado da conta é gratidão. Nunca perdas, nunca danos, desde que seja esse o seu modo de enxergar.

Tudo presta para quem presta. Nada presta para quem não presta. A vida é o resultado da nossa lente sobre a vida. Resultado da nossa vibração para ela, a vida é eco! 

Sempre vamos receber além do que pedimos ou pensamos MAS… o que estamos pedindo? o que estamos pensando?

37 anos é refletir. É a noção do bem, da constância, da construção do que estamos fazendo nesta passagem de tempo, porque o tempo é relativo de inúmeras formas, depende do referencial. Que referencial você tem usado para o seu tempo? Qual é o seu conceito de sucesso, de vida, de vitória?

Há pessoas para as quais vitória é ter um pão dormido, para outras, é não ter brigado com ninguém, para outras é pagar um boleto. Há pessoas que não enxergam o que há por trás das suas conquistas: sangue, suor e lágrimas. Para quem é estranho que você viva a vida que você elegeu pra si, ao invés de se deixar medir pelo padrão delas.

Ontem eu fazia um quebra-galho de barra de calças para os uniformes da minha filha. Enquanto eu lembrei e contei-lhe que tudo que eu não gostava de fazer na infância, eu pensava “um dia eu vou ter dinheiro suficiente para pagar alguém para fazer para mim tudo o que eu não gosto de fazer” e hoje ainda não cheguei nesse ponto mas já saí do ponto que era a vida que eu levava…

Isso não está em quem a vê estudar em escola X. Isso não está em quem me vê como a “coitada que tem que criar a filha sozinha”. Isso não está em quem acha que eu devia casar ou em quem acha que toda mulher que “põe homem dentro de casa, tendo filha” não é boa mãe. Isso não está em quem acha que ela já tem idade para fazer isso por ela mesma. Isso não está está em quem acha que essa ação me faz “prendada e do lar” como pontos altos do meu caráter. 

Sacrifícios não precisam ser contados, nem chorados, nem lamentados. Sacrifícios são vitórias. Conquistas são marcas perenes de tudo que você já caminhou, são atestado de tudo que você venceu. Escolhas e trocas para se ter algo através do cancelar outro algo.

Quando eu estou equiparada, as pessoas me entendem. Quando eu sou algo diferente de suas lentes e não caibo em suas réguas… eu mereço cautela.

Enquanto isso, eu vou vivendo. Vivendo a escolha de investir na educação da minha filha por acreditar que só a educação é a estrada para a vida digna em todos os aspectos, a conquista que nunca pode ser retirada. Vivendo a liberdade de não ter alguém que não me ama como eu sei que mereço ser amada. Vivendo meu tempo no ritmo que eu me permito. Vivendo a opção de fazer por ela algo para que ela faça algo por ela mesma (eu as barras, ela estudando para as provas). Vivendo a opção de dar um jeito eu mesma ao invés de gastar tempo, transporte e pagar mão de obra terceirizada para fazer melhor o que eu não sou especialista.

Os 37 anos são a compreensão e a aceitação de que NADA É TÃO IMPORTANTE ASSIM, para tirar minha fé, minha paz, minha tranquilidade. E que me irritar eventualmente, faz parte do meu processo de “aprender a ser gente na vida”. E que às vezes eu não estou irritada, estou apenas manifestando ao outro que eu não vou deixar que ultrapasse o limite para o comando de mim. 

Assim como não é que eu não esteja chateada, mas que aquilo simplesmente não vale o gasto de energia, porque vai se desfazer sozinho, por si mesmo, em pouco tempo. É percepção de que não sou eu, mas é o outro, frustrado em si mesmo, tentando me atacar para machucar a si próprio na ilusão de que é comigo o problema.

O voto de feliz aniversário mais verdadeiro que recebi foi de alguém que, em seus passos, pisou terras pelas quais eu já atravessei/atravesso, me desejando tudo o que queria para si mesma mas me dando a opção de fazer as minhas escolhas, livre de julgamento. 

E sim, foi a minha lente sobre a vida, de ler os outros a partir de mim que me fez sentir que esse foi o mais especial parabéns, porque quando eu desejo algo a alguém, eu sempre espero que seja de tal forma, como eu queria que fosse para mim, mas do jeito que serve para ela. Não pela minha régua, meu julgar, minhas relativizações, minha lente míope sobre como existir… Mas com toda a excelente good vibes que eu queria para mim mesma. 

Porque 37 são deixar fluir. Abrir as mãos para receber, viver, transformar, transmutar, passar e seguir tudo que seja realizador de verdade, transformador de verdade, melhorador de verdade para o outro, a partir da experiência dele, na realidade que ele formou para (e de) si.

Boa madrugada, 37.

Sobre Carmen Goncalves

Entusiasta da Arte de Escrever!
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