Pregação


Uma tradição de fim de ano é visitar a igreja em que uma família amiga congrega.  Meu amigo comentara que de supetão soubera que lhe caberia trazer a palavra da noite, a “pregação”.

Pois, o termo pregação talvez derive do exercício de carpinteiro do ilustre motivo da existência da igreja: Cristo.

Enquanto meu amigo falava, minha cabeça escritora divagava – mesmo lhe dando atenção – sobre como eu agiria se fosse convidada a tal ato.

Pensei que uma possibilidade era partir do termo pregação, do ato de pregar, da habilidade de acertar o prego com a finalidade de que ele perfure madeiras com uma finalidade ainda maior: construir algo.

Lembrei da minha inabilidade em fazer uso do martelo e em como eu entortara pregos quando jovem, na vã tentativa de cumprir obrigações a mando de minha mãe.

Ocorreu-me a perfeição do carpinteiro em seu ofício: a perfeição do Cristo.

Minha imperfeição: eu mesma sendo a primeira a atestar que não tinha a condição de ensinar o que nem eu sei. Que talvez, o primeiro passo da cristandade seja o esquecimento de si, o reconhecimento da imperfeição, a constatação da incapacidade de, pela minha ação, agir sobre algo que tem o caráter de unir a fim de construir algo ainda maior e com utilidade.

Talvez falte isso nos chamados cristãos de hoje: a humildade de precisar aprender com o Mestre, o Cristo. Carregam um pronome-adjetivo daquele que foi o primeiro a ressaltar a importância de reconhecer-se mínimo diante do Todo, diante da Obra, diante do Pai.

Lavar pés, congregar párias, alimentar multidões famintas que depois arremessam pedras à primeira aparência de percalço: Servir.

Há tal beleza no servir que, como toda beleza verdadeira, é simples, tão simples que passa despercebida dos incautos, porém plenifica a vida dos “que têm olhos de ver”.

Eu pregadora. Eu pecadora. Eu aprendiz. Aquela a quem a lição do erro é a primeira a notar e insistir na prática até funcionar.

Somos plenamente capazes do devir. Plenamente capazes de vir a ser o que fomos criados para ser, plenificando e por isso, materializando potencialidades.

Que em 2019, aprendamos a refletir sobre os pregos tortos e a inabilidade que imprimimos nestes pregos, para que não tomemos a habilidade daqueles que não erraram os pregos da cruz, aqueles que se tornam algozes.

Mais importante que pregar, importa a finalidade do ato: pregar para construir, como o carpinteiro, em lugar de pregar para tortura, como os soldados que o dependuraram na cruz.

O Reconhecimento de incapacidades e o Aceite de potencialidades é o convite do Cristo. Assim ele chamou os pescadores de peixes a se tornarem pescadores de homens. Assim ele chamou cobradores de impostos a distribuidores de alimento material e espiritual. Assim ele tornou um algoz, o maior propagador de sua mensagem naquele tempo.

Todos esses aceitaram que eram menos para serem mais. Reconheceram seus erros, fraquezas, incapacidades para terem a oportunidade de acertos, de forças insondáveis, de materializar as potencialidades dadas pelo Criador a fim de um bem maior, de construir, de seguir o trabalho do carpinteiro, planejada pelo Arquiteto do Universo.

Assim ele convida a nós. Diga sim e se plenifique.

Feliz 2019.

Sobre Carmen Gonçalves

Entusiasta da Arte de Escrever!
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