Sócrates, Eu e o Capitalismo


Conta-se que Sócrates, que apregoava o desprendimento dos bens materiais e das frivolidades da vida, passeava todos os dias no mercado. Intrigados com a atitude, seus discípulos perguntaram-lhe se precisava de algo, se podiam juntar algum dinheiro para dar-lhe algo, ao que respondeu que tinha tudo que desejava. Como a atitude do filósofo intrigava seus aprendizes, interrogaram-lhe então a razão deste passeio diário, ao que ele respondeu que ia ali todos os dias para ver tudo que se vendia e de que ele não necessitava.

Não recordo onde li isto, mas… o fato é que muito me identifiquei e tem tempo. Quem me conhece diuturnamente, sabe que vaidade não é meu apelo e viver franciscanamente é quase um lema. Claro que tem coisas de que gosto e prazeres que eventualmente procuro dar-me, como já houve época em que fui vaidosa. Assim como a jornalista/escritora Carrie de Sex and The City que compra roupas de brechó a US$5,00 mas se presenteia sapatos de grife, eu tenho meus pecados e não são sapatos, nem bolsas, nem roupas, nem maquiagem, nem coisas que a maioria das mulheres concentra atenções, mas existem; o fato é que assim sendo, dificilmente alguém me verá passeando toda “barbie purpurina” como costumo dizer. Contrariando só um pouco essa rotina, nas férias, me oportunizei mudar um pouco este paradigma e investir um pouquinho no quesito aparência: Tirar o hábito de bióloga-franciscana para diferenciar um pouco. No dia que me ocorre este texto, lá estava eu a andar pelo shopping (ao qual me dirigi porque precisava de caderno novo para a faculdade e me prendi num box de Hemingway com “O Velho e o Mar”, “Adeus às Armas”, “Por quem os sinos dobram” e “Paris é uma festa” que só estará na minha vida no futuro incerto) e carregava uma sacolinha de uma loja conhecida por seus perfumes importados, mas nela, um vasilhame no qual havia levado algo para o trabalho. Parei para ver uma bolsa (e sou muito exigente pra escolher qualquer coisa, por isso mesmo raramente compro, penso em Sócrates, penso nas contas, penso que na verdade posso viver sem aquilo) e fui sugada para dentro da loja, com mil atenções! Eram 4 vendedores e a gerente da loja me presenteando gentilezas, atenção e ofertando todos os seus ítens em exposição e os que não estavam  também. Resultado: Saí como entrei e com esta reflexão:

1. As pessoas se guiam pela aparência.

2. As pessoas compram por carência de atenção.

As pessoas se sentem tão carentes de atenção, carinho, afeto que é a ferramenta dos vendedores fazer com que se sintam importantes ali, naquele momento e as pessoas compram não uma peça, mas a atenção. É o resultado dum mundo com tanta interação que nenhuma interação real existe, é o mundo dos valores relativos, o mundo – que num ciclo –  faz com que as aparências levem a pensar que o outro é o que se espera que ele seja. O interessante é que fazem isto com quem acham que pode aceitar aquilo. Outros dias lá já passei, parei, olhei e não tive isso, assim como em outras lojas de shopping, o que é um sossego.

Eu não estava com disponibilidade financeira, nem interesse em dívidas, nem havia comprado um perfume importado num loja cara, mas a imaginação dos vendedores os fez iludirem-se que eu “precisava” daquela pseudo-atenção. Mas eu não precisava, nem agora enquanto escrevo. Minha vida tem se enchido duma outra coisa que faz com que me sinta plena, que tenho tudo que preciso, como Sócrates, resistindo até aos meus pecados a la Carrie.

Então, meus caros, o que eu desejo hoje pra vocês é que se sintam assim: plenos! Que encontrem esse sentimento (creio que seja a palavra mais adequada) que os sacie das buscas vazias, frívolas e desnecessárias. Mesmo que isso indique alguma reserva, algum isolamento pra ter o prazer da própria companhia.

Não precisam virar seguidores de Sócrates, não precisam criticar o lado Carrie, não precisam cogitar mais sobre o que eu quis dizer com isso tudo, apenas, se permitam o silêncio e a plenitude, assim como estou me permitindo compartilhar essa reflexão enquanto escuto uma sequência de músicas que muito está me falando ao coração.

Namastê! e Boa Semana!

obs.: os posts estão sendo agendados, o dia da publicação não corresponde ao dia que os produzi.

Sobre Carmen Goncalves

Entusiasta da Arte de Escrever!
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