Síndrome de Estocolmo


                Vi um filme recentemente, chamado Trust (br.: Confiar) onde o cerne é a discussão da violência sexual praticada com o “consentimento” da vítima. O que me levou a questionar vários itens:  O que define ser algo um crime ou não? O conceito de crime, de coisa errada é o juízo comum sobre a questão ou a ofensa do agente passivo da situação? Este agente é de fato passivo se “contribuiu” de alguma forma para que culminasse no ato? Quando o exercício da nossa liberdade gera a “liberdade” (a repetição é proposital) de outrem de invadir nosso espaço, nossa vida, nossa intimidade? E se houve alguma forma de prazer no acontecimento, isso quer dizer que foi consentimento ou uma defesa psicológica para nos defendermos emocionalmente do que não podemos coibir fisicamente?

                A garota, uma adolescente de 13 anos, muito esperta e madura pra sua idade, com pais em que confiava, que tinha uma relação familiar equilibrada e com diálogo, troca mensagens via internet com alguém, que vai revelando algumas mentiras “banais” no decorrer do tempo ao que vai obtendo seu perdão. Após dois meses ele a encontra, um cara com aproximadamente 35 anos, a envolve emocionalmente, usa seus pontos psicológicos frágeis (que conheceu no decorrer das conversas) para convencê-la a confiar nele, dali conseguindo levá-la para um motel onde ocorre o crime com o “consentimento” dela. Após a descoberta e uma investigação policial começar, vem todo o trabalho psicológico sobre culpa, medo, perdão, etc. A menina pensa que ama, pensa ser amada, pensa que permitiu, que ele era o namorado dela e que ela “apenas” perdera a virgindade e que os pais transformaram isso num assunto federal, literalmente falando, como destaca a própria personagem. Quando ela descobre que foi a 4ª. vítima dele, dá-se conta que não havia amor coisa nenhuma e que ele a envolveu para o fim único e específico de estuprá-la, o que desmorona seu mundo psico-emocional mas a reaproxima com o tempo, da família.

                O que faz uma vítima: será a idade? Será a fragilidade? Será o conhecimento? Será a maturidade? Se uma pessoa supostamente madura, forte, estruturada em seus conceitos morais, conhecedora dos riscos do mundo tiver sua intimidade invadida sem consentimento, isso faz dela vítima ou não?

                Recordo-me do filme Kill Bill vol. 1, onde a noiva está em coma após os tiros de Bill no dia do seu casamento a contragosto dele e ela começa a despertar do coma se dando conta que fora diversas vezes violentada no hospital por funcionários que deveriam estar ali pra cuidar dela. Ela estava inconsciente. E não apenas ela, mas outras mulheres eram vítimas de atos assim, por aqueles que eram responsáveis por seu bem estar. Pra quem assistiu aos dois volumes, sabe que a noiva como é atribuído o nome à personagem dos quadrinhos, não é frágil, nem nada, ela é lutadora, versada em artes marciais, profissional de tiro (era matadora de aluguel) e fora namorada de Bill. Ser apaixonada por ele dá a Bill o direito de fazer dela o que melhor lhe parece? Dá o direito de julgar o que ela deve ou não fazer, o que merece ou não, o que pode ou não, que vida deve ou não levar? Se deve permanecer viva ou morta?! Ela só se desprende do que ele lhe determina quando se descobre grávida e resolve ter o bebê, um filho de Bill. E se a jovem do filme tivesse engravidado ou adquirido uma DST?

                Num país onde os crimes cometidos por aqueles que deveriam zelar pelo bem da nação e de seus cidadãos, são levados a investigações morosas que ao fim, vítimas se tornam sedutoras, onde a pessoa de bem “criou ambiente favorável a”, onde as apurações levam o tempo do cansaço à parte que deu entrada ao processo de delação e/ou investigatório, culminando na absolvição ou na suspensão do procedimento administrativo que será devidamente arquivado e esquecido, onde um povo sem memória não se defende, eu me pergunto: QUE PAÍS É ESSE?!

                Se você, que está lendo isso agora, soubesse que uma das pessoas que tem o salário pago pelos seus impostos, invade sua vida, sua casa, sua intimidade sem o seu conhecimento, consentimento e você é levado a pensar se deve calar ou não, porque estará inexoravelmente nas mãos do seu agressor, será mais fácil ter a Síndrome de Estocolmo como única defesa? Pois analisem, meus amigos, se isso, de uma ou de outra forma, não está acontecendo mais perto do que você imagina e com a sua permissão. A invasão não precisa ser apenas física, afinal, isso fez parte do tempo da ditadura militar… hoje, o crime é muito mais sutil.

(Carmen Gonçalves)

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Sobre Carmen Goncalves

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3 respostas para Síndrome de Estocolmo

  1. Isabella T. Bastos disse:

    Sobre o post ‘Síndrome de Estocolmo’
    Oi Carmem, prazer em escrever aqui de novo. Bem vamos lá… vou pegar a última frase do seu post…
    “A invasão não precisa ser apenas física, afinal, isso fez parte do tempo da ditadura militar… hoje, o crime é muito mais sutil.” Não sei se a violência é mais sutil hoje, entendo que ela é uma questão presente em qualquer época da existência humana. Acho que temos duas coisas aqui.
    Primeiro, o fato de sermos bombardeados atualmente com uma série de condutas invasivas e (a)(i)morais que não conseguimos nem absorver ou questionar, criticar, logo as nossas crianças muito menos… E aí estas se configuram como micro violências (aquilo que viola sem nos darmos conta do fato de forma suficientemente consciente ou consentida). Nisso, temos as micro violências da exposição, do ter que ter um corpo perfeito, determinados comportamentos esperados, que se banalizam ao nos deixarmos coibir, violar, por fazer essas coisas sem pensar se realmente o queremos e o significado que isso tem em nossa vida.
    Segundo, essa questão da violência é bastante discutida na infância e adolescência porque atualmente damos um sentido diferente à infância. Isso tem a ver com a ideia de infância como uma fase de desenvolvimento específica, com certas vulnerabilidades e demandas diferentes da fase adulta e que requer proteção segundo garante o Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo, (apesar dessa garantia infelizmente não conseguirmos conter essas formas violências e outras direcionadas à infância e adolescência).
    Falando da relação entre vítima e agressor… Manter relação sexual ou qualquer tipo de conduta de cunho violativo, invasivo dos direitos e vulnerabilidades de uma pessoa; de um adulto que deveria possuir discernimento para saber quais as consequências do que faz em relação a uma pessoa que não possui isso (criança/ adolescente – porque nós definimos que eles estão justamente em desenvolvimento e não possuem discernimento suficiente para consentir algo nesses termos ou arcar com as consequências de seus atos – culpa, gravidez, outras questões) é denominada violência, claramente. Eu concordo com essa visão! Apesar de saber que nem sempre o adulto que está envolvido na violência tem esse discernimento, a ideia de caracterizar como violência passa pela escolha que se faz entre proteger quem mais precisa, quem está mais vulnerável, as crianças e adolescentes.
    Sobre as questões da vítima… A criança/ adolescente é considerado esse ser que está desenvolvendo sua sexualidade nas relações que estabelece com o mundo, está experimentando ‘ficar’ com pessoas, construir relações de confiança, amor e para efetuar isso tem que experimentar relações saudáveis nesses termos. O abuso ou violência se opõe a isso – quando pessoas fazem uso indevido do que essas crianças oferecem – confiança, carinho, amor – para sobrepor sua vontade/desejo sobre o do mais vulnerável, que não tem a mesma maturidade que ela para se defender desse contexto. E o que eles chamam de Síndrome de Estocolmo é justamente a via não racional da coisa, quando o adolescente não tem condições de lidar com a culpa de desejar, de ‘achar ter feito algo para provocar a situação’ ou qualquer outra coisa, age como se fizesse parte do abuso, como se consentisse o mesmo, ou o quisesse. A questão mais complicada não é entender isso, mas proteger as nossas crianças de cada micro violência apelativa a que elas são expostas todos os dias e as pessoas entendem como banais, ou não entendem! Isso é muito difícil! Não sei se era isso que esperava, mas é assim que eu penso.
    Bjo

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    • Apesar de o filme base ter prendido mais a questão em torno da criança/adolescente, também pensei em adultos que sofrem o tal assédio sexual, onde o próprio agressor, culpa a vítima sobre que os comportamentos que esta “gera” as ações daquele. Ficamos vetados no nosso direito de ir, vir, usar, utilizar, porque simplesmente você não sabe que aquela roupa vai despertar algo que já vinha sendo alimentado em pensamento, ou aquele gesto, aquela palavra… e a vítima absorve essa premissa de culpa e a desenvolve, talvez ainda mais forte quando a violência traz consequências maiores (gravidez, doenças…), recebidas como “punição” pelo seu ato “libidinoso”. E ainda o assédio social (e nem sei se estou criando agora outro segmento, porque ainda não ouvi esse termo) que todos nós sofremos diretamente, diariamente, quando por exemplo, ouvimos e nada manifestamos sobre anistiar um assassino da época da ditadura, como aconteceu recente, ou outras violências sobre nossos direitos, que acontecem recorrentemente… Entende? por isso a inserção do “nos tempos da ditadura” citado acima. Obrigada! Seu comentário foi divino e somou muito! bjs

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      • Isabella T. Bastos disse:

        Oi Carmem,
        Valeu! Só pra deixar registrado o termo assédio social existe e está relacionado com relações de violações de direitos, humilhações publicas e outros tipos de abusos que acometem trabalhadores por seus ‘superiores hierarquicos’. Tem uma vasta discussão e literatura sobre isso. O pessoal que trabalha na saúde do trabalhador sabe bem o quão abusivo e violento é a coisa. Gde Bjo. Isa

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