Pensamentos


Se pensarmos que esta vida é apenas uma passagem ilusória, repensaríamos nossas ações, balancearíamos as nossas emoções. Filtraríamos todo o desnecessário e todo o que não é da nossa alçada e assim nos dedicaríamos para o que realmente importa.

“A vida que temos é o agora”: apenas se você pensar que o “agora” é o caminho todo, ele é, tempo é uma ilusão já provada por Einstein. Então, todos os “agora” desencadeiam em reações a todos os nossos atos, independente do caráter deles… bom e mau passam a ser medidos a partir dos retornos… Se retorna algo bom, mesmo que tenha sido duro e difícil, foi bom. Se o retorno for ruim… depende de como encara o “ruim”: Um rompimento é ruim? Depende de para onde você estaria se fosse levado por ele em alguns anos. Será que era a vida que você deseja viver? Se for um ruim, ruim… reanalise o que você fez para chegar a este ponto. Analise e aprenda para não repetir tudo igualzinho depois.

Vemos nas histórias com loop temporal que a situação se repete até que tenhamos a atitude correta, apropriada, aquela que é fruto do que precisa ser aprendido com aquilo. A ficção é espelho da realidade, em proporções que nos permitam notar o necessário.

“Nasci assim e vou morrer assim. Não vou trair minha essência.”: Se a sua essência envenena… meu bem, ela não é boa nem para você e é por isso que você acha isso: mero reflexo do que isso tem causado a você mesmo. Os “inquebráveis” quando quebram, fica muito difícil colar, porque são inúmeros pedaços, se não, pó. Os resilientes no entanto… reconhecem que nunca estão prontos o suficiente e usam o know-how aprendido para se adaptarem a novas situações… evoluir em Darwin, é ADAPTAÇÃO! Os que melhor se adaptam, “sobrevivem”. Adaptar não é seguir a maré. Adaptar é usar o recurso que você tem dentro de você, que faz parte de você para lidar com uma situação desafiadora e contorná-la para que possam conviver harmoniosamente. Na Savana, alguns mamíferos se alimentam se arbustos espinhosos… mas conseguem digerí-los e tudo vira alimento e mais um dia, continuaram vivos e mantendo a espécie viva.

“Eu tenho que viver para mim! A vida não deve ser viver só para os outros!”: Sim, a vida plenificada se realiza se dedicando aos outros. Gandhi não pensou “vou manter a minha carreira como advogado ao invés de lutar por essas pessoas”. A vida plenificada manifesta o verdadeiro amor. No verdadeiro amor, está Deus. Alguns dizem que é Deus. Independente de sua crença, experencie algo onde você realmente se sentiu plenificado e daí você me diz se o que sentiu na essência (gratidão, felicidade, realização) não encontrou com o amor (o amor próprio, o amor pelo que fez, pelo que faz, pela capacidade de fazer). Deus não é um nome em um idioma. Deus é o que nos torna melhores, mesmo quando não acreditamos nEle. É a centelha divina que nos habita desde sempre e que também está em tudo no universo: no ciclo da chuva, na semente que brota, na rocha que compõe o solo que não se desfaz aos seus pés. Então, talvez não seja “Deus é Amor” mas… “o Amor é Deus”, assim como outros aspectos, mas o amor seria essa dinâmica que movimenta todos os outros aspectos. Se o que você faz pelo outro não te faz sentir bem, então pare. Redirecione suas ações. Sem amor, nenhuma oferta é boa e ainda nos deixa marcados pela vida… (lembram do Caim? metáforas…) Somos identificados pelos nossos pares a partir das nossas ações. Nossos pares são todos que estão em nossos diversos entornos.

Para hoje, essas três “frases de efeito” são suficientes para refletirmos. Outro dia pensamos outras.

Namastê!

Publicado em Crônicas & Poesias, Cristandade, Diversidades, Opinião | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

O “Supra”


Andei pensando sobre alguns aspectos da humanidade e da psique:

  • Não temos como discordar que o símbolo (simbolismo) é inerente à humanidade, desde que esta começou a mostrar sinais de cognição (vide as pinturas ruprestres do “homem das cavernas”);
  • Teóricos podem discordar da representação do símbolo no coletivo, porém não que ele tem uma condição chave na psique da humanidade;
  • A leitura subjetiva do símbolo, ainda que tenha uma ligação com a representação do inconsciente coletivo, sofre o viés das vivências e experiências do indivíduo (o que na psicologia analítica viria a ser a diferença e a conexão entre arquétipos e complexos; como o simbolismo da serpente como kundalini, como processo de transmutação na alquimia ou como a representação do mal na cristandade: todos na essência conduzem a evento(s) que tiram o indivíduo de uma posição para outra, agregando conhecimento – não vou discutir o caráter desta mudança, apenas à essência mudança – o que leva a algumas posições individuais sobre cobras em geral);
  • Em alguns momentos da humanidade, o símbolo foi utilizado por algum ego para construir ideologias*, manifestas em cultos, ritos, mitos, crenças de forma geral… e a visão emprestada por este ego ecoou em outros egos, que o adotaram (de alguma forma, a nível de subconsciente, a leitura ofertada supriu/respondeu/isentou o complexo referente);
  • Esta adoção egóica do símbolo passou a ser – pelo grupo que a adotou – uma representação supracoletiva que já não considera o individual ou o supraindividual (vejam o caso da suástica enquanto símbolo antigo e a adoção representada no período Hitler);
  • O problema do supracoletivo é que, forjado para representar o que seria um pensamento coletivo, ele passa a suprimir o pensamento individual/suprapessoal, o que leva diretamente para a falsa democracia; ou seja: o que começou representando um pensamento de uma coletividade (não o coletivo na concepção da psique da humanidade como um todo) passa ao pedestal de ser superior a esta coletividade, à condição normativa, cultualística, onde naturalmente possui seus representantes/líderes que como um culto, exigem a conduta “apropriada” dos indivíduos que lhe participam, o que inclui o abandono do pensamento individual para a adoção da regra geral (ideológica) daquela coletividade, que começou com um criador (o ego que fez a leitura desviada primeira do símbolo) e foi reforçada pelos líderes instituídos ou que se alçaram à condição de canal com aquele pensamento egóico disfarçado de coletivo;
  • Com isso chegamos à questão dos movimentos que se levantam no curso da história: a representação egóica, adotada como coletiva, suprime o que afirma defender: o direito da manifestação individual, portanto, o ideal democrático.

Estas considerações derivam da minha pesquisa de mestrado, em curso, cuja epistemologia adotada é a de Carl Gustav Jung e alguns outros do Círculo de Eranos.

*FONTE: A palavra “ideologia” foi criada por Destutt de Tracy, um filósofo francês, no final do sec. XVII. O termo em francês é idéologie, porém, sua formação foi feita com duas palavras do grego antigo:IDEA, que tem o significado literal de “aparência”, mas pode ser traduzido como “protótipo ideal”, e LOGOS, que significa “estudo”. (clique em FONTE para acessar o link de origem desta descrição).

Publicado em Ciência, Cidades, Crônicas & Poesias, Opinião, Política | Marcado com , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

(In)Tolerância


Tenho pensado e sentido muito por algumas pessoas que gosto bastante. A maior parte das pessoas quer que ninguém se meta em suas vidas, quer RESPEITO. Quer LIBERDADE de agir e ser da forma que entenda ser a melhor.

O velho ditado de “os direitos de um acabam onde do outro começam” parece não valer a partir do momento em que as pessoas e suas vidas vão CONvivendo.

O compartilhamento dos espaços físicos e virtuais expõe a todos que os utilizam a tolerar as DIFERENÇAS. Obviamente, alguns abusam.

Sempre tem o vizinho “farofeiro” e que ainda grita pro vizinho reservado, pra ir pro churrasco, levar a carne e a cerveja… (figura de linguagem). Um acha que está sendo simpático ao outro que considera “ranzinza, mal humorado, mal amado” e por aí vai. O outro, por sua vez, acha que o outro é espaçoso demais. Até aí, nada de novo no planeta Terra.

O que me dói é quando pessoas que aparentavam de maior bom senso e tolerância, que pregam respeito ao próximo e seus modos de vida, ajam exatamente ao contrário do que dizem.

É a amiga sensata que critica a mãe invasiva mas passa a agir como aquela mãe que critica. É a pessoa perseguida pela religião que professa que corta relações com outro que não vive dentro dos parâmetros da sua religião. É o que critica o abuso político dentro de instituições públicas que passa a ser tão arrogante e agressivo quanto acusava os que lhe perseguem. É quem diz ser paz & amor mas não move uma palha para acudir a dor do próximo. É quem diz ter alcançado maior nível de educação, achar que alcançou o supremo conhecimento.

Eu já postei aqui algumas outras vezes sobre, nisso tudo, “eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

(Vai aparecer quem critique rock, rock brasileiro, Raul Seixas, Paulo Coelho…)

Precisamos entender que não há perfeição neste planeta e que estamos interagindo com diversas faces com as quais sempre teremos o que aprender (o que imitar e o que nunca fazer!)

É necessário bom senso.

Posso não tolerar muitas coisas, mas tenho que ter bom senso em não atirar pedras sem checar. Só porque eu não entendo ou não acredito, não classifica como errado ou inviável.

Me dói muito quem acha que já aprendeu tudo. Porque descristalizar do altar que erigiu para si mesmo… é uma queda dura e eu realmente não quero que essas pessoas se machuquem. Mas… é exercício delas escolher como agir.

Bom fim de semana e todos e muita luz nos nossos corações e pensamentos!

Publicado em Crônicas & Poesias, Cristandade, Diversidades, Opinião, Pessoal | Marcado com , , , , , , , , , ,

Frases soltas de Jung


Olá!

Temos andado distante deste espaço… mas é a correria de cumprir um processo de pesquisa com prazo determinado.

Pois bem, hoje vou deixar algumas frases soltas desse cara, simplesmente humano, mas de ideias que desvendam nossa psique: Carl Gustav Jung.

“Conheça todas as teorias,domine todas as técnicas,mas ao tocar uma alma humana,seja apenas outra alma humana” (C.G. Jung)
“Aquele que olha para fora sonha. Mas o que olha para dentro acorda” (C.G. Jung)
“O que não enfrentamos em nós mesmos, encontraremos como destino” (C.G. Jung)
“Tudo que nos irrita nos outros pode levar-nos a uma melhor compreensão de nós mesmos” (C.G. Jung)
“O livre-arbítrio é a capacidade de fazer com alegria aquilo que eu devo fazer” (C. G. Jung)
“Do mesmo modo que aquele que fere ao outro fere a si próprio, aquele que cura, cura a si mesmo” (C. G. Jung)
“Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.” (C. G. Jung)
“Mais cedo ou mais tarde tudo se transforma no seu contrário” (C.G. Jung)
“O principal objetivo da Terapia Psicológica não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. A vida acontece no equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade” (C. G. Jung)
“Uns sapatos que ficam bem numa pessoa são pequenos para uma outra; não existe uma receita para a vida que sirva para todos” (C. G. Jung)
“Uma neurose é sinal de acúmulo de energia no inconsciente, ao ponto de ser uma carga capaz de explodir” (C. G. Jung)
 
“Há coisas que ainda não são verdadeiras, que, talvez, não tenham o direito de ser verdadeiras, mas que poderão ser amanhã” (C. G. Jung)
“O melhor trabalho político, social e espiritual que podemos fazer é parar de projetar nossas sombras nos outros” (C. G. Jung) 
“Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com a escuridão dos outros” (C. G. Jung)
“Tudo vem de muito longe e tudo aponta para o futuro, de coisa alguma podendo afirmar-se com segurança se é somente o fim ou se já é princípio” (C. G. Jung)
“O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera. Elas se mudam para a casa vizinha e poderão atear o fogo que atingirá sua casa sem que ele perceba” (C.G. Jung)
“Mas o que acontecerá, se descubro, porventura, que o menor, o mais admirável de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais insolente dos meus caluniadores, o meu inimigo, reside dentro de mim, sou eu mesmo, e precisa da esmola da minha bondade, e que eu mesmo sou o inimigo que é necessário amar?” (C.G. Jung)
“Tuas ideias estão tão fora de teu si-mesmo quanto as árvores e os animais estão fora de teu corpo” (C.G. Jung)
“Como a experiência mostra, a psique objetiva é autônoma em alto grau. Se assim não fosse, não poderia exercer a sua função própria, que é a compensação da consciência. A consciência é passível de ser domesticada como um papagaio, mas isto não se dá com o inconsciente. Por isso Santo Agostinho agradeceu a Deus por não tê-lo responsabilizado por seus sonhos” (C.G. Jung)
“Assim como tendes parte na natureza multiforme do mundo através de vosso corpo, assim tendes parte na natureza multiforme do mundo interior através de vossa alma. Este mundo interior é realmente infinito e em nada mais pobre do que o exterior. O ser humano vive em dois mundos. Um demente vive aqui ou lá, mas nunca aqui e lá” (C.G. Jung)
“…a pessoa é masculina e feminina, não é só homem ou só mulher. De tua alma não sabes dizer de que gênero ela é. Mas se prestares bem atenção, verás que o homem mais masculino tem alma feminina, e que a mulher mais feminina tem alma masculina. Quanto mais homem és, tanto mais afastado de ti o que a mulher realmente é, pois o feminino em ti mesmo te é estranho e desprezível” (C.G. Jung)
“O conhecimento da verdade é a intenção mais elevada da ciência e considera-se mais uma fatalidade do que intenção se, na procura da luz,provocar algum perigo ou ameaça. Não é que o homem de hoje seja mais capaz de cometer maldades do que os antigos ou os primitivo. A diferença reside apenas no fato de hoje ele possuir em suas mãos meios incomparavelmente mais poderosos para afirmar a sua maldade. Embora sua consciência se tenha ampliado e diferenciado, sua qualidade moral ficou para trás, não acompanhando o passo. Esse é o grande problema com que nos defrontamos. Somente a razão não chega mais a ser suficiente!” (C. G. Jung)
“O terapeuta também está em análise, tanto como o paciente…razão porque também está exposto às influências transformadoras. Na medida em que o terapeuta se fecha à esta influência, ele também perde sua influência sobre o paciente” (C. G. Jung)
“Todo mundo carrega uma sombra, e quanto menos ela está incorporada na vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela é. Se uma inferioridade é consciente, sempre se tem uma oportunidade de corrigi-la. Além do mais, ela está constantemente em contato com outros interesses, de modo que está continuamente sujeita a modificações. Porém, se é reprimida e isolada da consciência, jamais é corrigida, e pode irromper subitamente em um momento de inconsciência. De qualquer modo, forma um obstáculo inconsciente, impedindo nossos mais bem-intencionado propósitos” (C. G. Jung)
Estas frases estão com outras, de outros nomes da Psicologia no blog STOA da Eliane J.B. Só clicar!
Publicado em Ciência, Crônicas & Poesias, Diversidades | Marcado com , , | Deixe um comentário

Me perguntaram…


Ontem me perguntaram: Carmen, você casaria de novo?

Hein?! Minha única reação naquele instante foi rir e naturalmente, devolver um “por quê?

Então a pessoa me disse que estava ouvindo ultimamente muitas histórias sobre pessoas insatisfeitas nos próprios casamentos, mas que insistem, outras que estão esperando os filhos crescerem, outras que já separaram e voltaram a casar e… novamente falharam.

Bem, então lá vai a minha resposta:

Eu já tive muitas fases: Jovem independente. Jovem comprometida. Casada e dedicada. Separada e amargurada. Divorciada e intrinsecamente viúva. Divorciada e cheia de dejavu. Divorciada e bola pra frente. Divorciada, chegando aos 35 e relógio biológico pirando (fertilidade viável/saudável). Divorciada e dane-se!. Livre.

Estou na fase LIVRE! Mas como viram, muuuuuuuuitas águas rolaram até aqui. Muitas histórias. Sofrimento sim. Aprendizado sim. Libertação sim!

“E conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará!” (Evangelho de São João 8:32) Que verdade cristalina e consoladora! No meu caso, ME conhecer foi o suficiente e o necessário para me LIBERTAR!

Sócrates quando condenado à morte, disse a seus discípulos que não estava preso e que não estaria morto: Sócrates não era aquele corpo, mas era tudo em que acreditava e o que buscava.

Pois bem, a la Sócrates, foi necessário admitir a mim mesma muitas coisas, dizer umas tantas verdades a algumas pessoas, que foi aos poucos me libertando. Não fiz sozinha. Contei com a paciência e a experiência de algumas pessoas aqui e acolá me passavam o que aprendiam.

Aos poucos, fui traçando meu próprio caminho, minha jornada. Fui me dando conta de quem eu era, do que eu queria, do que me satisfazia, do que me realizava, do que me fazia plena.

E não, não estou falando em descobrir meu corpo e pontos estratégicos… nessa área nunca tive problemas. Estou falando de pontos muito mais difíceis de se tocar e de se alcançar e que muitas vezes doem, mas que são libertadores: pontos na alma.

Anteontem eu estava ouvindo a Luana Piovani no seu canal do Youtube “Luana sem freio” e era mais ou menos por ali… ela disse um tripé básico para se ser feliz na vida: dinheiro na conta, amor próprio e uma vida pra cuidar. Em outras palavras: ter um trabalho, ter uma vida pessoal, ter um relacionamento. Nas palavras de Luana, se um desses pés cair (como a separação dela do surfista Pedro Scooby), os outros dão conta do recado.

Pois bem, eu assumi para as pessoas quem eu sou de verdade e não quem querem que eu seja e isso foi soltar âncoras para ir pro mar! Dizer para minha mãe que eu não era a filha sociável que ela queria e que bastava de tentar me fazer ser quem eu nunca fui. Dizer para o ex marido que ele não tinha mais nada a ver com a minha vida e que devia se comportar como aquele cara que escolheu ir embora. Abraçar uma profissão que me realiza e me por realmente em marcha para migrar para essa área. Traçar novos planos, desafios e ir em busca deles. Autoconhecimento. Doação quando eu quero (isso quer dizer: dar de si o que se quer dar e dizer não ao que não nos faz bem).

O mestrado foi fundamental para essa emancipação: me ver por outros olhos que são meus próprios olhos, um pouco mais conscientes, um pouco mais experimentados, um pouco mais maduros, com um pouco mais de conhecimento e com outros referenciais para abalizar minha análise.

Hoje eu tenho 37 anos, 4 meses e 14 dias. Qualificada para a defesa da minha pesquisa em alguns meses. Ainda garimpando como fazer a migração do meu emprego atual para o que me realiza fazer (ensinar!escrever!pesquisar!). Uma assumida professora-pesquisadora de biologia e de formação de professores. Com uma filha às vésperas dos 12 anos e que está se encontrando na fase do Ensino Fundamental II, enquanto não encontra a personalidade adulta que está se construindo nela dia a dia.

Divorciada, livre e sem relacionamentos além da minha pesquisa, da minha filha, das atividades dessa nova profissão que assumi que me plenifica. Com algumas atividades não curriculares, apoiando alguns projetos, dando ideia a outros, multiplicando essa vontade de SEJA VOCÊ MESMO!

Às vezes me ocorre lembranças de relacionamentos e até vestígios de saudade de ter um homem perto mas… essa liberdade linda… ah… essa liberdade maravilhosa de ser quem eu sou sem receio de ser feliz, sem padrões para agradar, sem me importar se fulano quer ou não, sem essas coisinhas e picuinhas que inevitavelmente permeiam um casamento, um relacionamento… nossa! isso NÃO-TEM-PREÇO!

Se eu vou mudar de opinião dali a pouco? Não sei. Mas eu sei que sou livre para mudar de opinião ou de manter a opinião. E ninguém tem nada a ver com isso. De verdade, não só para ostentar em rede social palavras de ordem, palavras que no fundo só querem provar isso ou aquilo para esse ou aquele… Não, não… isso não é para mim. Tanto que aboli uma rede social, mal uso outra e esqueci outra. Enquanto muitos livros, muitas leituras, muito crescimento!!!

O ex? Numa segunda gravidez no segundo casamento… meu Deus… que benção não ser eu a estar lá! Amo minha filha mas… aquele bendito relógio biológico parou de gritar e graças a Deus ele não foi ouvido!!!!

Meu filho novo é meu trabalho novo. Minha nova eu é o meu destino. E isso. E fim! 🙂

Publicado em Crônicas & Poesias, Mundo Feminino, Opinião | Marcado com , , , , | Deixe um comentário

Sobre “Direitos”


Atualmente no Brasil (e no mundo!) há uma polarização exacerbada onde rótulos são dados e não há direito a se concordar aqui, acolá entre uma e outra coisa. Isso não é novidade.

De ambos os lados há extremistas, o que me faz recordar que se boa parte deste grupo são pessoas altamente intelectualizadas, que tiveram (ou têm) acesso à cultura geral, meios de comunicação e não se enxergam como analfabetos funcionais, deveriam ter a condição de ouvir, dialogar, usar argumentos, refutar, sem que neste pretexto, caia na vala do xingamento, do “a bola é minha e se não for do meu jeito, ninguém brinca!”.

Há uma acentuada imaturidade psicológica e tal invasão de privacidade ao pensamento íntimo que sequestrou a autenticidade, a verdade subjetiva, o “lugar de fala” de cada um.

Dentre os vários itens nesta pauta (longérrima, por sinal) está a questão da violência x (des)armamento. Pois bem, é sobre esse que eu quero deixar uma ponderação hoje:

Diz a Constituição de 1988, em seu capítulo inicial que trata dos direitos universais, que o cidadão brasileiro (compreendida a norma culta de que no plural, o substantivo segue o gênero masculino, ainda que só haja 1 único homem entre os demais e eu não vou entrar na questão da “sociedade patriarcal” neste momento, apenas a norma culta e vão brigar com a Academia Brasileira de Letras!) tem direitos como saúde, educação, lar, trabalho, renda, lazer, segurança, blábláblá.

Pois bem, na posição de cidadã brasileira sob a égide daquela Constituição, eu quero o meu direito de usufruir de tudo isso, sem que dependa de mim exercer esse direito através do outro direito: o da legítima defesa.

Eu quero exercer todo o mais que vem antes deste. Porque está lá, assegurado que eu tenho o direito à segurança, a ir e vir, a usufruir do que for fruto do meu trabalho, este assegurado por sua vez à outro código que lhe é próprio.

Eu não quero precisar de uma arma para ter meus demais direitos garantidos. Eu quero que as ações de segurança sejam exercidas a quem lhe é próprio. E este alguém não sou eu. Não foi o caminho que eu escolhi.

Mas eu quero o meu direito e quero que aqueles que foram instituídos para exercer a manutenção do meu direito, exerçam suas atividades de forma a me prover do usufruto do meu direito, já que a contraparte da cidadania eu faço, assegurando que eles tenham esta posição na sociedade.

Quando criança e até o fim da minha adolescência, morei em uma área vermelha, cujo morador ao lado da casa que eu habitava, era o chefe do tráfico da região. E a casa de sua concubina era muuuuito mais bonita que a nossa, dentro daquela realidade.

Eu via de tudo que o submundo exerce bem ali, mas eu continuava a estudar, depois a estudar e trabalhar e depois a trabalhar até que o fruto do meu trabalho me proporcionou sair de lá. (Thanks, God!)

Desnecessário dizer que naquelas condições, eu utilizei a educação pública, o transporte público e todas as outras peculiaridades da vida de quem mora em uma área assim, porém sem nunca fazer uso de assistencialismo governamental.

Por muito tempo, a minha alimentação diária se baseava no que R$1,00 podia pagar, enquanto minha mãe trabalhava e eu voltava da escola pra estudar e cuidar de mim mesma até a hora de seu retorno. Algo que não permito que aconteça com a minha filha, por saber todas as exposições que existem no mundo, ainda que nossa residência não seja mais em um lugar como aquele.

E eu continuo a estudar, a trabalhar e a cuidar da minha pequena como não pude ser cuidada.

Uma vez o meu pai me orientou sobre a legítima defesa, sobre sempre ter algo perto para me defender se fosse preciso. O mesmo pai que disse para não ter vícios que não pudesse sustentar ou que nunca participasse de jogos de azar ou apostas.

Portanto, eu sei do meu direito mas eu também sei o que é o risco e eu não quero ter que revivenciar contextos daquela natureza. Eu quero usufruir de tudo o que cultivei, do que colho a partir do que plantei com meu esforço, com as noites em claro, com os dias de quase nenhuma comida, para estar aqui agora, tendo o que já tenho.

Quero ter esse direito para continuar a me desenvolver, a crescer, a proporcionar à minha filha o que eu não tive, incluindo o exemplo de que passar a vida estanque em determinada situação é apenas uma questão de escolha.

Sempre dá pra sair do lugar comum, construir sua própria jornada, ser quem deseja ser sem que precise abusar do direito de outrem. Sempre dá pra cultivar uma vida, um lar, uma existência agradável sem precisar ameaçar quem quer que seja. Sempre dá para fazer escolhas boas.

Que os instituídos para exercer a segurança da sociedade o façam e que os que querem uma existência melhor se esforcem para sair do lugar comum. Assim, as armas naturalmente serão desnecessárias. Mas enquanto esse dia não chega, que esteja assegurado o meu direito de usufruir dos meus direitos, incluindo quem me proteja para que eu possa continuar dando a minha contraparte no mundo.

Publicado em Cidades, Crônicas & Poesias, Diversidades, Mundo Feminino, Opinião, Política | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

37 (ou Paradigma de vida)


Por várias vezes eu quis escrever sobre minha chegada aos 37 anos. Mas são tantos acontecimentos que, tantas vezes eu apaguei tudo (nem salvei rascunho!) e deixei pra lá.

Sinto que preciso falar sobre isso, sobre como minha vida tem mudado, mas as mudanças estão ocorrendo dentro de mim, a partir do meu olhar e isso é muito mais profundo do que palavras registrem.

Descobri que não posso mudar os outros, mas a mim mesma e quando alcanço isso, meu olhar sobre o outro muda. Tudo passa a não ter mais importância do que aquele que o meu aprendizado ainda não alcançou.

“Fulano fez errado. Ciclano irritou. Beltrano não sei o quê.” e dali a instantes eu me apercebo que: NÃO É DA MINHA CONTA. Simplesmente, não é.

Cada um com suas escolhas. Cada um com os resultados de suas escolhas. Não temos que dar conselhos que não foram pedidos. Só temos que perceber que pedir um conselho não necessariamente precisa ser formal. Assim como comentar algo não necessariamente é pedir conselho. Pode ser só um desabafo, um comentário, uma constatação.

Precisamos não nos sufocarmos (nem aos outros!) com nosso egoísmo. A vida a partir do nosso olhar, nosso julgamento como o valor absoluto na relatividade da existência.

É sábio calar. É sábio ignorar. É sábio tocar o barco. 

É importante saber quando, como e o porquê do agir.

Às vezes ainda me irrito com a descrença de algumas pessoas sobre as minhas mudanças. Mas dali a pouco me dou conta: São colheitas do plantio que fiz. Só meus novos plantios, quando florescerem vão mostrar que eu mudei. Não que importe que percebam que eu mudei. A mudança é válida para mim. 

Posto esta parte do eu com o mundo, o eu com o eu respira melhor com essas mudanças internas mas ainda não se acostuma com a decrepitude do envelhecer. Não se acostuma com o faz de conta do “tudo bem” que alguns dizem. 

Não consigo crer que alguém que vá perdendo flexibilidade em acordar pela manhã, por exemplo, consiga achar que só a maturidade tá valendo a existência. 

Não sou apegada a viver, mas estou feliz vivendo esse momento, sentindo mudanças e sabendo que tudo é nada, porque tudo é relativo, é transitório, é outro… nem o eu será o eu em instantes. Esse é o “desapega” budístico.

Tenho me trabalhado para aceitar que o corpo vai decaindo. Como tudo no universo material (todo elemento atômico tem taxa de decaimento, tempo de vida, validade), o devir é o que há. É um despir o eu velho constantemente para aceitar que o próximo eu é outra coisa, que ganha em alguns aspectos o que perde em outros enquanto que o eu passado perdia naquilo enquanto exibia outros aspectos. 

Que bom que é assim! Imagina se a vida fosse apenas perdas?! Aliás, toda perda é um ganho: toda perda proporciona um ganho de aprendizagem, às vezes, um ganho na vida. O cara que perdeu o ônibus onde teve um assalto, sabe disso. Aquele semáforo que fechou e não deu tempo de passar e quando passou, tinha um acidente, também. Assim como aquele emprego na empresa que você não sabia que estava falindo e demitiria todos logo. Não há perdas. Tudo, dependendo de como vemos, é ganho. Logo, TUDO gera gratidão. 

Gratidão pelo que não pode ser dito, mensurado, aprisionado, guardado, exposto, escrito. Gratidão pelo que nem percebemos e nos salva todo dia. Gratidão pelas coisas que foram preparadas para nós antes de chegarmos à existência. Gratidão, gratidão, gratidão.

37 anos então, é Gratidão. Percepção de que entre todas as inúmeras aventuras no trânsito do existir aqui e agora, o resultado da conta é gratidão. Nunca perdas, nunca danos, desde que seja esse o seu modo de enxergar.

Tudo presta para quem presta. Nada presta para quem não presta. A vida é o resultado da nossa lente sobre a vida. Resultado da nossa vibração para ela, a vida é eco! 

Sempre vamos receber além do que pedimos ou pensamos MAS… o que estamos pedindo? o que estamos pensando?

37 anos é refletir. É a noção do bem, da constância, da construção do que estamos fazendo nesta passagem de tempo, porque o tempo é relativo de inúmeras formas, depende do referencial. Que referencial você tem usado para o seu tempo? Qual é o seu conceito de sucesso, de vida, de vitória?

Há pessoas para as quais vitória é ter um pão dormido, para outras, é não ter brigado com ninguém, para outras é pagar um boleto. Há pessoas que não enxergam o que há por trás das suas conquistas: sangue, suor e lágrimas. Para quem é estranho que você viva a vida que você elegeu pra si, ao invés de se deixar medir pelo padrão delas.

Ontem eu fazia um quebra-galho de barra de calças para os uniformes da minha filha. Enquanto eu lembrei e contei-lhe que tudo que eu não gostava de fazer na infância, eu pensava “um dia eu vou ter dinheiro suficiente para pagar alguém para fazer para mim tudo o que eu não gosto de fazer” e hoje ainda não cheguei nesse ponto mas já saí do ponto que era a vida que eu levava…

Isso não está em quem a vê estudar em escola X. Isso não está em quem me vê como a “coitada que tem que criar a filha sozinha”. Isso não está em quem acha que eu devia casar ou em quem acha que toda mulher que “põe homem dentro de casa, tendo filha” não é boa mãe. Isso não está em quem acha que ela já tem idade para fazer isso por ela mesma. Isso não está está em quem acha que essa ação me faz “prendada e do lar” como pontos altos do meu caráter. 

Sacrifícios não precisam ser contados, nem chorados, nem lamentados. Sacrifícios são vitórias. Conquistas são marcas perenes de tudo que você já caminhou, são atestado de tudo que você venceu. Escolhas e trocas para se ter algo através do cancelar outro algo.

Quando eu estou equiparada, as pessoas me entendem. Quando eu sou algo diferente de suas lentes e não caibo em suas réguas… eu mereço cautela.

Enquanto isso, eu vou vivendo. Vivendo a escolha de investir na educação da minha filha por acreditar que só a educação é a estrada para a vida digna em todos os aspectos, a conquista que nunca pode ser retirada. Vivendo a liberdade de não ter alguém que não me ama como eu sei que mereço ser amada. Vivendo meu tempo no ritmo que eu me permito. Vivendo a opção de fazer por ela algo para que ela faça algo por ela mesma (eu as barras, ela estudando para as provas). Vivendo a opção de dar um jeito eu mesma ao invés de gastar tempo, transporte e pagar mão de obra terceirizada para fazer melhor o que eu não sou especialista.

Os 37 anos são a compreensão e a aceitação de que NADA É TÃO IMPORTANTE ASSIM, para tirar minha fé, minha paz, minha tranquilidade. E que me irritar eventualmente, faz parte do meu processo de “aprender a ser gente na vida”. E que às vezes eu não estou irritada, estou apenas manifestando ao outro que eu não vou deixar que ultrapasse o limite para o comando de mim. 

Assim como não é que eu não esteja chateada, mas que aquilo simplesmente não vale o gasto de energia, porque vai se desfazer sozinho, por si mesmo, em pouco tempo. É percepção de que não sou eu, mas é o outro, frustrado em si mesmo, tentando me atacar para machucar a si próprio na ilusão de que é comigo o problema.

O voto de feliz aniversário mais verdadeiro que recebi foi de alguém que, em seus passos, pisou terras pelas quais eu já atravessei/atravesso, me desejando tudo o que queria para si mesma mas me dando a opção de fazer as minhas escolhas, livre de julgamento. 

E sim, foi a minha lente sobre a vida, de ler os outros a partir de mim que me fez sentir que esse foi o mais especial parabéns, porque quando eu desejo algo a alguém, eu sempre espero que seja de tal forma, como eu queria que fosse para mim, mas do jeito que serve para ela. Não pela minha régua, meu julgar, minhas relativizações, minha lente míope sobre como existir… Mas com toda a excelente good vibes que eu queria para mim mesma. 

Porque 37 são deixar fluir. Abrir as mãos para receber, viver, transformar, transmutar, passar e seguir tudo que seja realizador de verdade, transformador de verdade, melhorador de verdade para o outro, a partir da experiência dele, na realidade que ele formou para (e de) si.

Boa madrugada, 37.

Publicado em Crônicas & Poesias, Diversidades, Opinião | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

Capacidade de Amar


A temática é sempre a mesma, não? Do século XIX para cá, houve uma preocupação mais exacerbada sobre essa palavra “mágica” que, de uma ou outra forma, atrai todas as pessoas, porque antes as pessoas estavam muito preocupadas em se manterem vivas (de alguma forma, por algum motivo material).

Bem, tenho um amigo que insiste que amor é uma perda de tempo e o que existe são acordos sociais, que Romeu e Julieta não foi uma história de amor MAS um alerta sobre os perigos de se deixar levar por isso.

Hélio Couto dá diversas orientações sobre Amor, com base na produção e alimentação de substâncias endócrinas, ou seja: processo fisiológico que a partir destes hormônios, gera outros que nos dão a sensação de bem-estar.

E como prezam as impressões populares… gente “mal c_mida” é gente mal humorada.

Pois bem, ainda há a questão do amor manifesto fora das relações românticas, que juram as almas mais elevadas, que suprem a questão pessoal.

Então ainda há a questão do amor-próprio. Quem o tem, faz uma série de coisas e não faz uma penca de outras, mas em geral, é considerada em seu meio social como alguém feliz, equilibrado, zen. Afinal: sua fonte de satisfação começa em si mesmo.

Qual delas está certa? O que é essa palavrinha mágica e quem a pode manifestar? Pois bem, eu não sei. Em diversas fases da minha vida tive uma e outra impressão registradas aqui. Provavelmente vivi todas aqui.

E se o Criador (ou Força criadora, ou chame como quiser) é Amor e tudo que manifesta é através do amor, tornando o Amor a força e a magia maior… ah! essa era outra versão que não havia registrado, hein?

Eu apenas sei neste momento que, esta pessoa razoável aqui, não tem ainda a capacidade de abarcar o que seja o amor, que diretrizes o regem, o que é necessário para tê-lo (ou não tê-lo porque “amar é soltar!”) e todas as questões que o envolvem, ainda que, ainda veja verdade em cada uma destas afirmativas mas também dúvidas em cada uma delas, exceções à essa regra maior (talvez seja o fator humano a estragar tudo, “porque os animais amam incondicionalmente!”).

No dia em que eu me tornar energia infinita, sem início ou fim, talvez eu saiba o que é o amor, talvez eu sinta mas não descreva porque as civilizações não terão evoluído até o ponto infinito para compreenderem uma linguagem que o descreva, talvez eu olhe para minha primitiva forma e reconheça os primórdios do amor.

Mas talvez de todas estas verdades, a que importe agora é sentir aquilo que é o melhor para você sem ser o pior para os demais, porque daí, provavelmente é egoísmo.

O Eu (Self) acima do Ego.

Bom dia.

Publicado em Crônicas & Poesias, Opinião | Marcado com , , , , , , | Deixe um comentário

Pregação


Uma tradição de fim de ano é visitar a igreja em que uma família amiga congrega.  Meu amigo comentara que de supetão soubera que lhe caberia trazer a palavra da noite, a “pregação”.

Pois, o termo pregação talvez derive do exercício de carpinteiro do ilustre motivo da existência da igreja: Cristo.

Enquanto meu amigo falava, minha cabeça escritora divagava – mesmo lhe dando atenção – sobre como eu agiria se fosse convidada a tal ato.

Pensei que uma possibilidade era partir do termo pregação, do ato de pregar, da habilidade de acertar o prego com a finalidade de que ele perfure madeiras com uma finalidade ainda maior: construir algo.

Lembrei da minha inabilidade em fazer uso do martelo e em como eu entortara pregos quando jovem, na vã tentativa de cumprir obrigações a mando de minha mãe.

Ocorreu-me a perfeição do carpinteiro em seu ofício: a perfeição do Cristo.

Minha imperfeição: eu mesma sendo a primeira a atestar que não tinha a condição de ensinar o que nem eu sei. Que talvez, o primeiro passo da cristandade seja o esquecimento de si, o reconhecimento da imperfeição, a constatação da incapacidade de, pela minha ação, agir sobre algo que tem o caráter de unir a fim de construir algo ainda maior e com utilidade.

Talvez falte isso nos chamados cristãos de hoje: a humildade de precisar aprender com o Mestre, o Cristo. Carregam um pronome-adjetivo daquele que foi o primeiro a ressaltar a importância de reconhecer-se mínimo diante do Todo, diante da Obra, diante do Pai.

Lavar pés, congregar párias, alimentar multidões famintas que depois arremessam pedras à primeira aparência de percalço: Servir.

Há tal beleza no servir que, como toda beleza verdadeira, é simples, tão simples que passa despercebida dos incautos, porém plenifica a vida dos “que têm olhos de ver”.

Eu pregadora. Eu pecadora. Eu aprendiz. Aquela a quem a lição do erro é a primeira a notar e insistir na prática até funcionar.

Somos plenamente capazes do devir. Plenamente capazes de vir a ser o que fomos criados para ser, plenificando e por isso, materializando potencialidades.

Que em 2019, aprendamos a refletir sobre os pregos tortos e a inabilidade que imprimimos nestes pregos, para que não tomemos a habilidade daqueles que não erraram os pregos da cruz, aqueles que se tornam algozes.

Mais importante que pregar, importa a finalidade do ato: pregar para construir, como o carpinteiro, em lugar de pregar para tortura, como os soldados que o dependuraram na cruz.

O Reconhecimento de incapacidades e o Aceite de potencialidades é o convite do Cristo. Assim ele chamou os pescadores de peixes a se tornarem pescadores de homens. Assim ele chamou cobradores de impostos a distribuidores de alimento material e espiritual. Assim ele tornou um algoz, o maior propagador de sua mensagem naquele tempo.

Todos esses aceitaram que eram menos para serem mais. Reconheceram seus erros, fraquezas, incapacidades para terem a oportunidade de acertos, de forças insondáveis, de materializar as potencialidades dadas pelo Criador a fim de um bem maior, de construir, de seguir o trabalho do carpinteiro, planejada pelo Arquiteto do Universo.

Assim ele convida a nós. Diga sim e se plenifique.

Feliz 2019.

Publicado em Crônicas & Poesias, Cristandade, Opinião | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

A Subversão do Notívago


Provavelmente por na infância, termos sido educados (até doutrinados) quanto à necessária quantidade de sono noturno e que este tinha uma faixa de horário em que devíamos ir para a cama, ordem essa da qual estavam os adultos isentos, o que os colocava em condição hierárquica de supremacia contra nós, então crianças, a ideia de transgredir esta ordem tornou-se uma das mais ambicionadas subversões.

Ocorre que quer seja por nosso relógio biológico, ou por efeito da rotina, muitos de nós simplesmente decidiram que era, a partir de alguma idade, indicação de maturidade assumirmos que aquela era uma subversão monotonamente vivenciada e portanto deveria ser superada, como ato emancipador da suposta sabedoria advinda com os anos.

Digo monótona porque havia uma necessidade de provar que se era capaz de ultrapassar a faixa de horário de dormir recomendada, de preferência mantendo-se ativo para as atividades diurnas obrigatórias; portanto, era um rito de passagem simbólico quanto à transição para a vida adulta.

Dessa forma, bem vista, tolerada, socialmente aceita e até recomendada para os meninos se tornarem homens (às mulheres, isso já não caía tão bem assim, principalmente a depender de como e onde essa transgressão ocorria, o motivo).

O fato é que, aquele puro notívago, o desafeiçoado ao dia, o que inverte seu ciclo circadiano, não entra e não sai desta transição, justamente porque a vida lhe é antagônica quanto à resposta fisiológica ao hormônio do sono.

Alguns, adquirem esta característica após eventos emocionante marcantes em suas vidas.

Ambos, transgressores, adeptos (e rotulados) por toda a vida, da “subversão” notívaga; que indica uma série de adjetivos não honrosos a esses espíritos da madrugada. Vítimas da preocupação materna ad eternum sobre o dever do sono regular.

Neste dia, e em alguns outros, sou uma dessas almas declaradamente subversivas, com “inúteis” horas empregadas com leitura e filmes.

Publicado em Crônicas & Poesias | Marcado com , , | Deixe um comentário