Numinoso (Rudolf Otto)


“Uma coisa é apenas acreditar no supra-sensorial; outra, também vivenciá-lo; uma coisa e ter ideias sobre o sagrado; outra perceber e dar-se conta do sagrado como algo atuante, vigente, a se manifestar em sua atuação. É convicção fundamental de todas as religiões e da religião em si que também a segunda possibilidade é viável, que não só a voz interior, a consciência religiosa, o discreto sussurro do espírito no coração, o palpite e o anseio prestem testemunho a seu respeito, mas que seja possível encontrá-los em eventos, fatos, pessoas, em atos de auto-revelação, ou seja, que além da revelação interior no espírito também haja revelação exterior do divino”. (Das Heilige)

In: OTTO, R. O Sagrado. Petrópolis: Vozes, 19–?

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Entre a Vida e a PPG: breves notas


No Programa de Pós-Graduação (PPG) que faço atualmente, sempre ouvimos algumas máximas, que em mais esta noite de insônia, relaciono com os outros acontecimentos da vida:

“No Mestrado você vai perceber que a melhor coisa que você pode ter é um Problema! A coisa que você mais vai querer é ter um Problema!”

Ter um Problema de Pesquisa é o que torna você realmente um pesquisador. Afinal, sem ter uma inquietação a investigar, qual o sentido de fazer um programa de pesquisa?

Na vida, ter um problema real, de fato, inexequível (ao menos, aparentemente), faz você perceber o que realmente importa, tira do ócio, afasta da fofoca, dá sentido ao que precisa fazer sentido e mostra a desimportância do que não é essencial. Pessoas com problemas de verdade a resolver, estão vivendo. Pessoas vazias estão sobrevivendo.

Às vezes pode parecer que é o oposto, mas ter um problema que te dá uma luz e um motivo pra trilhar um caminho, te tira de ciladas desnecessárias, você até pode entrar em umas auto-sabotagens, mas logo vai percebendo e afastando-as do seu percurso, tal qual na PPG.

Você vai aprendendo a observar, filtrar, separar, aceitar, ouvir, aprender.

Tenho em mente neste momento, duas pessoas: são duas mulheres onde uma está em um período que eu conheço bem (um divórcio com uma filha pequena e sem família perto pra apoiar, tendo que ser pai, mãe, trabalhadora, motorista, etc.), outra que está se ocupando muito em criar intrigas desnecessárias entre pessoas que poderiam facilitar o dia-a-dia dela ou simplesmente podem ser ignoradas por ela, mas que a princípio oferecem apenas motivos para que ela se ocupe de maneira distorcida: uma está fazendo o que ela não está conseguindo fazer (por motivo que desconheço); outra que não está mais dando motivos para ser “judas no sábado de aleluia”.

Ter um problema real, mantém a primeira fazendo o que ela é contratada para fazer em seu trabalho: trabalhar. A falta do que fazer (ou a impossibilidade de fazer o que gosta) está mantendo a outra no que ninguém precisa: criação de intrigas.

Então, realmente, ter um problema é tudo que você pode querer para evoluir.

“Não é o título que faz o Mestre. É o caminho. É no caminho que você se torna Mestre.”

Me dei conta que estudamos para aprender a falar; e aprendemos para saber quando calar. O percurso de ter um problema te leva a “sacar” as pessoas, os eventos, as situações e você passa a “se dar conta de Matrix” pra desviar das balas desnecessárias do sistema que tenta te impedir de romper o ciclo de sobreviver ao invés de viver.

Explico: Os seres humanos são super estimados. Espera-se muito deles e atribui-se muito a eles, o que é bom até o ponto em que isso é uma inspiração do que você deve aprender a ser; porém, o que a grande maioria faz, como um rebanho, é empurrar com a cabeça, olhando para o chão, derramando a própria comida, sujando a própria água, ferindo-se desnecessariamente.

Imagine um rebanho que por algum motivo, param de simplesmente pastar a começar a empurrar a cerca até o abismo, passando por cima de tudo (água, comida, outros do rebanho) numa sangria desatada sem um motivo realmente válido), é a imagem que me vem à mente quando eu estou neste momento de buscar responder o problema que recebi. Na PPG e na vida. Tive a grande benção de ver o meu objeto de pesquisa na realidade visível porém difícil de mensurar.

Pesquisa e pesquisadora se misturam, se refazem, se alimentam no processo de construção da investigação. Revisito as questões que norteiam meu problema, na vida e na PPG.

Ter um problema faz a ovelha berrar pelo pastor e fazer o que precisa para manter-se viva, ao invés de entrar no “efeito rebanho” onde o tumulto e o caos imperam.

Ter um problema te faz fugir da manada. E escolher ver a situação de fora faz você notar o quanto há de desnecessário fazendo um barulho que não tem motivo de ser. Te dá a percepção de manter-se vivo, cuidar do que precisa ao invés de destruir o que tem, te mostra que há pasto suficiente para não ter que pisotear ninguém.

“Banhe-se neste rio. Outros rios virão e você vai banhar-se neles também.”

Esta é talvez a minha favorita. Veio do meu orientador e até no silêncio e recolhimento dele, eu aprendo.

Ontem mesmo eu comentava com minha filha uma frase do meu pai, que eu tomei para a vida, como um conselho. Ela admirou-se e achou que ele era um cara fantástico, com muitas coisas a ensinar. Isso me fez parar, refletir e advertir que “na real”, ele era um cara que pensava em si mesmo e nada o impedia de viver o que ele queria viver (aventuras com várias mulheres ao mesmo tempo) e portanto as suas frases talvez viessem de uma irreflexão, de um “tô c_g_ndo pro que esperam de mim”, mas que eu guardei como leitura e reflexão para a vida de uma forma totalmente que me servia e possibilitou ser pai de mim mesma, numa ressignificação do desnecessário dele.

Quando ele dizia por exemplo “é tanta gente pra falar de mim e só eu pra falar de todo mundo, que é melhor eu ficar calado”, era o modo dele de “sair pela tangente” sem gastar energia discutindo.

Minha ressignificação foi: mantenha-se afastada dos que falam demais…onde sobra fofoca, falta verdade. O tempo se encarrega de mostrar o que é, o que não é. Deixe ao tempo o que é do tempo. Não gaste energia com o que não acrescenta.

“Banhar-se nesse rio” também me dá muita reflexão, porque se:

  • ao mesmo tempo que um rio nunca é o mesmo, portanto você nunca irá banhar-se duas vezes na mesma água (já que rios correm), logo, você tem oportunidade de ressignificar tudo, tantas vezes quanto forem necessárias durante o próprio (e talvez único) banho naquele rio, já que aquelas águas estão somente passando, estão sempre correndo. Você fica, o rio não. Os cães ladram e a carruagem passa. Carroça que mais faz barulho, é a que está vazia (portanto, cheia de nada, sem utilidade, te faz pensar o quanto é importante ter um problema para se ocupar).
  • se o seu objetivo está do outro lado da margem, não importa o quanto um rio pareça ameaçador, profundo, revolto, escuro… “saber porque fazemos o que fazemos” (essa uma frase nova, que ouvi ontem na PPG) te faz respirar fundo e cruzar o rio, não importa o quão ele pareça terrível. Te faz buscar a solução para um problema de verdade. Te faz ter vontade de permanecer vivo.
  • o rio flue, o rio não conhece barreiras, o rio chega onde tem que chegar, então, como dizia Paulo Coelho: “seja como o rio que flui”.

Talvez a vida seja o que fazemos a partir dos desnecessários de outrem. A vida é achar um problema que valha a pena enfrentar tudo para sentir-se vivo a fim de responder o problema. Pode-se até receber um título sem ser o que o título carrega (como há chefes que não são líderes, por exemplo), assim como você se torna Mestre, tanto quanto, ao viver, se torna pai e mãe de você mesmo e tudo mais o que precisar, se precisar, quando precisar.

“O mestre surge quando o discípulo está pronto” é uma frase que aprendi na Tradição Antiga. O percurso me mostrou que, como em Namastê, o que você precisa já está dentro de você. Torne-se mestre de si mesmo. Isso vai dar sentido à sua vida e você passará a perceber que você tem o que precisa, que ter um problema é bom, que te mantém ocupado vivendo e não sendo desnecessário na vida.

Entre ser uma daquelas duas mulheres, eu escolhi um dia ser a que ocupou-se de ter um problema ao invés de ser a que, aparentemente tendo tudo, lhe faltava sentido em viver a própria vida.

Então por que eu me importo com isso tudo? Porque é refletindo na minha prática que eu caminho para me tornar o que eu escolhi ser ao invés de continuar sendo mais uma cabeçuda do rebanho a empurrar a cerca em direção ao abismo.

Namastê!

PS: Sobre a insônia eu percebi que o sono chega quando ele tem que chegar, que ao contrário do que dizem sobre ficar quieto para o sono voltar, foi melhor eu ocupar-me e agora ele chegou: depois do meu chá, depois de refletir, depois de fazer uma das minhas paixões: essa da “Ponta dos Dedos!”

Paz e Luz!!!

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A Mulher-Esqueleto II


A noite do resgate chegou.

Ainda tremo de frio e temor.

Ainda meus ossos estão a ver

Ainda não tenho forças p’ra bater

O ritmo compasso do tambor.

A carne que almejo,

O destino que segredo,

Nos fios de cabelo a dormir…

Ele cansou de me tentar partir.

Ele me quer totalmente aqui?

Ainda tem re-atos de fuga

Enquanto eu chamo a madruga

Para do frio eu o guardar…

Ele aceita por me amar.

Miro a lua, escuto os animais,

A floresta e o mar não são iguais

E os atravesso e me entrego…

Aceitando-os eu me disfarço

De água e nada, que alimenta

Que deságua, que acalenta

Eu atravesso em entrega e nado,

Conheço o mar e à floresta espero.

A linda, maravilhosa, tocante e desnuda mulher-esqueleto… aquela que sou

e que não quero olhar porque ainda não está coberta de carne novamente.

 

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É proibido por Pablo Neruda


É proibido chorar sem aprender,

Levantar-se um dia sem saber o que fazer

Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas

Não lutar pelo que se quer,

Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.

É proibido não demonstrar amor

Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.

É proibido deixar os amigos

Não tentar compreender o que viveram juntos

Chamá-los somente quando necessita deles.

É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,

Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,

Esquecer aqueles que gostam de você.

É proibido não fazer as coisas por si mesmo,

Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,

Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.

É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram,

Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.

É proibido não tentar compreender as pessoas,

Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.

É proibido não criar sua história,

Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,

Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.

É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,

Não pensar que podemos ser melhores,

Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

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Mulher Esqueleto I


Eu sou a mulher esqueleto

Por meu Pai exilada

Dada a tristeza dada

No mar sepultei-me.

Mágoas e dores

Sonhos rasgados

todo amedrontado

Como fios puídos

à morte dei-me

em abraço.

Juventude passou

resiliência veio

sorte me fisgou

emergida, vejo.

Não sabendo viver

no novo tempo

alinhei-me ao laço

crivado dentro.

Eis a noite chega

vem o alvorecer

paciência tambor rufeja

Canto voltar a viver.

 

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Por quem?


Por quem dobram os sinos?

Por quem caem as gotas de chuva?

Por quem o vento sussurra, o rio corre, o sol luzidia?

Por quem eu choro?

Por quem eu penso noite e dia.

Por quê imploro?

Porque meu sentimento vestiu uma fantasia.

Por quem?

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Ainda Assim Eu Me Levanto (Still I Rise) por Maya Angelou


Você pode me inscrever na História
Com as mentiras amargas que contar,
Você pode me arrastar no pó
Mas ainda assim, como o pó, eu vou me levantar.
Minha elegância o perturba?
Por que você afunda no pesar?
Porque eu ando como se eu tivesse poços de petróleo
Jorrando em minha sala de estar.
Assim como lua e o sol,
Com a certeza das ondas do mar
Como se ergue a esperança
Ainda assim, vou me levantar
Você queria me ver abatida?
Cabeça baixa, olhar caído?
Ombros curvados com lágrimas
Com a alma a gritar enfraquecida?
Minha altivez o ofende?
Não leve isso tão a mal,
Porque eu rio como se eu tivesse
Minas de ouro no meu quintal.
Você pode me fuzilar com suas palavras,
E me cortar com o seu olhar
Você pode me matar com o seu ódio,
Mas assim, como o ar, eu vou me levantar
A minha sensualidade o aborrece?
E você, surpreso, se admira,
Ao me ver dançar como se tivesse,
Diamantes na altura da virilha?
Das chochas dessa História escandalosa
Eu me levanto
Acima de um passado que está enraizado na dor
Eu me levanto
Eu sou um oceano negro, vasto e irriquieto,
Indo e vindo contra as marés, eu me levanto.
Deixando para trás noites de terror e medo
Eu me levanto
Em uma madrugada que é maravilhosamente clara
Eu me levanto
Trazendo os dons que meus ancestrais deram,
Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos.
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto!

You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I'll rise.

Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
'Cause I walk like I've got oil wells
Pumping in my living room.

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I'll rise.

Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops,
Weakened by my soulful cries?

Does my haughtiness offend you?
Don't you take it awful hard
'Cause I laugh like I've got gold mines
Diggin' in my own backyard.

You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I'll rise.

Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I've got diamonds
At the meeting of my thighs?

Out of the huts of history's shame
I rise
Up from a past that's rooted in pain
I rise
I'm a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.

Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that's wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.

From And Still I Rise by Maya Angelou. Copyright © 1978 by Maya Angelou. Reprinted by permission of Random House, Inc.

Maya Angelou
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Emoções de uma Mestranda


Levanta. Sono.

Nhém-nhém-nhém p’ra acordar.

Corre. Carro.

Ou a hora não dá.

 

Roupa. Livro.

Comida. Celular.

Checa tudo. “Viu tudo?”

“Olha!” Tempo não dá.

 

Vai. Anota. Aprende.

Agora à labuta, pegar.

Sonho. Sangue.

Garra p’ra alcançar.

 

Busca. Luta.

Opositores no caminho.

Não para. Sacode o pano.

Ignora o Espinho.

 

…o soco na face..

…a raiva na boca…

Traição. Coragem.

Pia ‘inda cheia de louça.

 

Come. Engole.

Deixa tudo p’ra lá.

Recicla. Renova.

Respira… Remodelar.

 

O gosto do sangue.

O sangue na boca.

A dor no estômago.

Lixo p’ra tirar.

 

Tem mais. Tem todo dia.

Purifica a energia…

Põe o soco no saco.

Toma. Engole o sapo.

 

Pensa. Processa.

Desperta. Andarilhar.

Derrota? Nunca!

Tic-tac, à beira, devagar.

 

Acalma. Resvala.

A pua. Roseta.

Sorri ao torpe amigo.

E põe-se a marchar.

 

Resguarda. Alivia.

Estudo. Saída.

Esperança. Desafio.

“Melhor anotar.”

 

Perdoa. Abraça.

Afasta a faca.

Põe o soco no saco.

Saco no Lixo.

 

Sorriso nos lábios.

Vento. Burburinhos.

Regozija. Dança.

Céu a abraçar…

 

Ignora e vence.

Escolhe. Aprende.

Cavalos a trotar.

Levanta. Consumar.

 

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Lógica “Cristã” Marxista


A lógica que defende o bandido em detrimento do cidadão de bem e acusa aqueles que reconhecem e clamam pelo direito de defesa, se autointitulando “cristã” para coibir qualquer atitude de avanço da legítima defesa ou da cessação de crime, tentando infligir o medo da condenação eterna, usa o:

“Cristo perdoou o ladrão na cruz”

“tem a parábola do filho pródigo”

Contra os inúmeros:

“vá e não peques mais”

“Cristo expulsou os vendilhões do templo de forma peremptória”

“apocalipse”

A Bíblia possui muito mais ocorrência de punição, castigo, cessação do mal, expulsão, condenação, do que esses trechos que ouso desconfiar, foram aglutinados ao texto original, como tantos outros, em nome dos acordos históricos de miscigenação de culturas e tomada/manutenção de poder.

Até os povos chamados bárbaros – como tribos ou grupos étnicos chamados primitivos possuem um conjunto de leis próprias dadas à manutenção do bem, da concórdia, da boa convivência, de assegurar a sobrevivência do próprio grupo em detrimento de inimigos reais.

Então, deixemos de ideologia baseada em puritanismo. Ou age o Estado realmente instituído ou age o Estado democrático, ou agem aqueles que formam o Estado: o povo, para tomada e renovação do Estado como nação.

Pois quando os que estão no poder não defendem aqueles que mantêm os seus luxos… se há ilícitos meios que asseguraram a permanência espúria desses chamados governantes porém sustentados pelo trabalhador comum, cidadão de bem… então deve agir a base que permite hajam essas regalias, a mesma que vem sendo massacrada pelas ideologias.

Se Karl Marx e os que a ele se seguiram, fosse o melhor estado, suas vidas teriam sido exemplo de alguma coisa boa.

Vamos à história e vamos à ação.

Quando deturpam o passado é para manipular o presente, para condução do futuro.

Quem não estudo a história está condenado a sofrer no presente e a mais sofrer no futuro.

Quer mudança? Aprenda com os erros dos que te antecederam. Não pague o preço do seu sangue.

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CONSELHOS PARA A MULHER FORTE por Gioconda Belli


(Nicarágua, 1948)

Se és uma mulher forte
te protejas das hordas que desejarão
almoçar teu coração.
Elas usam todos os disfarces dos carnavais da terra:
se vestem como culpas, como oportunidades, como preços que se precisa pagar.
Te cutucam a alma; metem o aço de seus olhares ou de seus prantos
até o mais profundo do magma de tua essência
não para alumbrar-se com teu fogo
senão para apagar a paixão
a erudição de tuas fantasias.

Se és uma mulher forte
tens que saber que o ar que te nutre
carrega também parasitas, varejeiras,
miúdos insetos que buscarão se alojar em teu sangue
e se nutrir do quanto é sólido e grande em ti.

Não percas a compaixão, mas teme tudo que te conduz
a negar-te a palavra, a esconder quem és,
tudo que te obrigue a abrandar-se
e te prometa um reino terrestre em troca
de um sorriso complacente.

Se és uma mulher forte
prepara-te para a batalha:
aprende a estar sozinha
a dormir na mais absoluta escuridão sem medo
que ninguém te lance cordas quando rugir a tormenta
a nadar contra a corrente.

Treine-se nos ofícios da reflexão e do intelecto.
Lê, faz o amor a ti mesma, constrói teu castelo
o rodeia de fossos profundos
mas lhe faça amplas portas e janelas.

É fundamental que cultives enormes amizades
que os que te rodeiam e queiram saibam o que és
que te faças um círculo de fogueiras e acendas no centro de tua habitação
uma estufa sempre ardente de onde se mantenha o fervor de teus sonhos.

Se és uma mulher forte
se proteja com palavras e árvores
e invoca a memória de mulheres antigas.

Saberás que és um campo magnético
até onde viajarão uivando os pregos enferrujados
e o óxido mortal de todos os naufrágios.
Ampara, mas te ampara primeiro.
Guarda as distâncias.
Te constrói. Te cuida.
Entesoura teu poder.
O defenda.
O faça por você.
Te peço em nome de todas nós.

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